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Frases de Castelo Hanssen

12 frases

⁠É NOITE,OS GATOS SÃO PARDOS É noite, e tudo é mentira As poças d'água na rua
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⁠É NOITE,OS GATOS SÃO PARDOS É noite, e tudo é mentira As poças d'água na rua enganam os pés incautos, o assobio engana o medo dos fantasmas e dos fatos. É noite,os gatos são pardos... Os muros todos escondem ladrões e policiais, as amizades escondem os "dedos-duros" fatais. A noite já foi suave, já foi ternura,seresta, namoro,luar e festa, conversa,banco;quintal, mas,nesta noite de medo, a gente nunca distingue qual é o amigo sincero, qual é o amor verdadeiro, e qual a flor cujo cheiro não é tóxico ou mortal. As palavras são sussurros, - as paredes têm ouvidos - as verdades são traiçoeiras, os amigos são temidos. Quem fala palavras boas pode ser falso ou vendido, quem grita está insuflando, quem cala está consentindo..

⁠POEMA CACHAÇA Eu queria fazer uma poesia que fosse cristalina como o dia
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⁠POEMA CACHAÇA Eu queria fazer uma poesia que fosse cristalina como o dia para ser consumida como o pão Uma poesia assim agridoce como a fruta do mato, pura como a água do regato melodiosa como uma canção. Uma poesia assim, que trouxesse beleza em cada rima, para ser cantada no trabalho, para ser batucada nas marmitas, para ser comentada nas esquinas. Uma poesia assim comum e popular, como a cachaça, que se bebe barato, que é de graça, que é do pobre, do rico, do sem nome. Uma poesia que todos entendessem, como todos entendem a palavra amor, ou a palavra fome.

⁠CANÇÃO PRO SOL VOLTAR Puseram algema nos braços do mundo, fizeram um muro em torno do mundo
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⁠CANÇÃO PRO SOL VOLTAR Puseram algema nos braços do mundo, fizeram um muro em torno do mundo pro sol não chegar. Os donos do mundo, que adoram as trevas, com medo,taparam os olhos do povo, prá noite durar. Munidos de força,de falsa verdade, com autoridade de quem tudo pode, com a prepotência de quem tudo manda, os donos do mundo,senhores da Terra, tornaram verdade as mentiras da guerra, tornaram mentira as verdades do amor. Os donos do mundo,com suas mil bocas que falam de guerra,de "marcha,soldado!".. disseram ao povo : ser bom é fraqueza, sorrir é tolice,amar é pecado. A lua era boa,amava os poetas, amava os amantes,amava o porvir. Se a noite chegava,a lua risonha rondava na noite pro sol ir dormir. Os donos do mundo,com suas geringonças, subiram na lua, treparam na lua, a lua do povo,senhora dos sonhos, a lua dos beijos,dos olhos risonhos. Os donos do Mundo treparam na lua, taparam,com trapos,os olhos da lua Mas eu ainda canto,os olhos vendados, os braços atados,já quase sem voz. Quem sabe o meu canto,o canto do povo, consigam que a lua ainda acorde de novo ? Quem sabe o corguinho,cantando na serra, consiga que as plantas floresçam na terra ?.. Consiga que as rodas do engenho maldito parem de repente,ouvindo o meu grito ? Consiga que a Máquina,já enferrujada, com suas engrenagens,talvez já cansadas, esqueçam um pouco de só trabalhar ?.. Consiga que o sol ainda volte prá nós ?...

⁠Houve um tempo em que todos os versos eram de esperança, a mostrar um caminho por fazer
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⁠Houve um tempo em que todos os versos eram de esperança, a mostrar um caminho por fazer Mesmo que a noite fosse escura e fria, havia sempre um jeito de poesia prá se aguardar o amanhecer. Mesmo em tempos de fome, de tristeza de guerra fria,de dor e de incerteza, havia sempre um sol na consciência, havia sempre luz no fim do túnel, a marcha da História,a curva do horizonte, para acalmar a santa impaciência. Houve um tempo em que todos os jovens eram proletários construindo seus versos libertários e fabricando um amanhã mais justo. E já se via até um novo dia de sol,de amor, de pão e de alegria, a compensar todo trabalho e susto. Houve um tempo Esse tempo passou, era tudo bobagem era tudo mentira,engodo vil A História se enganou, voltou prá trás, não existe amanhã,nem pão,nem paz nem fim do túnel,nem sonho,nem miragem. Enganamos um bobo. Primeiro de Abril !...

⁠JORNADA Eis-me aqui, o que restou de mim depois de uma jornada de trabalho,
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⁠JORNADA Eis-me aqui, o que restou de mim depois de uma jornada de trabalho, Um resto de pessoa, um rebotalho, cansado e consumido pelo dia. Eis-me aqui, tal como sou, poeta, sem tempo de viver e sem poesia, cansado de fabricar imagens falsas na busca pelo pão de cada dia. Eis-me aqui, tal como sou, um trapo, me coma, me consuma, consumido, Vamos juntar nós dois nossos fracassos, Ajunte o seu cansaço ao meu cansaço, Que sou teu, comprovado e assumido. Vamos fazer da noite o nosso dia, O nosso mundo, a nossa fantasia, A nossa fuga, a forma de viver. Vamos viver a noite, lado a lado, Idéias, mentes, corpos abraçados, Porque amanhã o sol há de nascer (in “Canção pro Sol Voltar “ Editora do Escritor Ltda” )

⁠DE AMOR E DE ESPERANÇA "....no amor que flui em nós, água corrente ... " Eu sei,amor, a vida está difícil
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⁠DE AMOR E DE ESPERANÇA "....no amor que flui em nós, água corrente ... " Eu sei,amor, a vida está difícil - o preço do feijão, a ausência de futuro, a poluição, a falta de ternura, a falta de verdade e de abertura, esse medo do escuro... O perigo maior,porém,é que esta vida, este cansaço, esta ilusão perdida destruam esse amor,fortuna que nos resta. E,sem fazer versinhos cor-de-rosa, eu quero neste verso,nesta prosa, dizer que ha um caminho ,uma fresta. Inda é possível,amor, esse milagre de multiplicar o pão. É só somar as coisas que nós somos, é dividir as coisas que nós temos, subtrair todo egoísmo e ódio na matemática do coração. Amor,vamos brincar de aventureiros, vamos buscar em nós, na humanidade, no amor que flui em nós, água corrente, um tesouro escondido à flor da terra. Um tesouro que existe,em que pisamos, o qual não vemos,porque não olhamos, um tesouro real e verdadeiro. Vamos amor, me leve nos teus braços, eu te levo em meus versos,que são teus Vamos abrir estrada em nossos passos, vamos abrir estradas para o mundo, vamos falar com Deus.. ( do livro " Canção pro Sol Voltar" , Editora do Escritor ) Castelo Hanssen é jornalista e escritor , membro fundador do Grupo Literário Letra Viva e da Academia Guarulhense de Letras.

UTOPIA Aquela estrela é minha Aquela, pequenina,
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UTOPIA Aquela estrela é minha Aquela, pequenina, Na esquina do Universo, escondidinha. Eu, que não tenho nada além dos meus chinelos, Além dos meus poemas, além dos meus anseios, Sou feliz proprietário de uma estrela, Uma que eu inventei, e para vê-la, Fecho os olhos na hora de sonhar. Aquela estrela é minha, senhores astronautas, Vagabundos do espaço de ninguém: Cuidado, ela é frágil, assim como meus versos, Astrônomos, que fuxicai pelo Universo, Se um dia descobrirem essa estrela, Ela tem nome, chama-se Utopia. Aquela estrela é minha, senhor Deus, Que pastoreais nuvens no Infinito, E que semeais sóis e tempestades Não leves a mal a pretensão do poeta, Mas, aquela estrela, ainda que feia, é minha, Não faz parte do elenco dos teus astros, Eu a fiz com as mãos, o sonho, o coração. Aquela estrela é minha, senhoras e senhores E, quem quiser passear na minha estrela, Numa tarde qualquer, de chuva ou sol, É só me dar as mãos, ser meu amigo, Compreender minhas incompreensões, E caminhar comigo. Mas não reparem se, de madrugada, Não houver mais estrelas nem mais nada É que ,às vezes, acordo mal dormido, Oprimido, homem e pingente, E minha estrela, triste, vai embora, E só regressa numa nova aurora, Quando eu volto a ser gente..

⁠CORGUINHO O pobre corguinho que canta na serra, Que corre, que corre, sem nunca cansar,
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⁠CORGUINHO O pobre corguinho que canta na serra, Que corre, que corre, sem nunca cansar, Pobre Corguinho, é tão pequeninho, Mas, para mim, é “mais maior” que o mar. Ele, para mim, é bem maior que tudo, É grande,grande, como um coração, É o coração feliz e bom da serra, Da minha terra, do meu grande chão. Pobre Corguinho, é bem maior que o mar, Porque é bom, porque é cantor dolente, Não ruge como o mar e não se zanga, É humilde e pobre como a minha gente. Corguinho bom que Deus criou na serra, Que Deus criou cantando uma toada Naquele dia, Deus estava alegre, Criou o mundo e não criou mais nada E foi dormir, contente deste mundo Tinha criado a serra benfazeja, Tinha criado a mata, os passarinhos, Tinha criado a toada sertaneja. Corguinho bom, que vai descendo a serra Sem ambição, sem orgulho e sem nada Tudo o que tem vai entregar ao mar E morre feliz, cumprida a sua jornada Quando eu encontro alguém falando grosso, Quando um grande despreza um pequenino, Eu me lembro do mar, que ronca e bufa, E tudo o que ele tem deve ao corguinho... (in “Canção pro Sol Voltar “ Editora do Escritor Ltda” )