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Frases de Carlos de Castro

401 frases

⁠DE QUEM É O MUNDO Este mundo que nas suas fundações Era de todos e de ninguém;
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⁠DE QUEM É O MUNDO Este mundo que nas suas fundações Era de todos e de ninguém; Não havia donos da terra Nem reis, ministros, barões, Só mesmo o mistério que encerra E a finisterra detém? Tomaram rédea da terra e das águas Por força de mortais ações De roubos, pilhagens e grilhões, Em submissões de choros de mágoas. De quem é o mundo? Agora, é de quem mais roubou E antes deles e dos outros e mais, Heranças malditas, infernais, Cheiro a sangue de quem tombou. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 03-10-2022)

⁠DEMÊNCIA Ela, vem de mansinho Como gato matreiro,
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⁠DEMÊNCIA Ela, vem de mansinho Como gato matreiro, Ronceiro, À caça dum passarinho. Anda, vem, não tenhas medo Ladra dos seres pensantes, Fazedora de cenas chocantes. Anda, que eu fico quedo Como uma estátua a rir de ti, Aqui, Sem medo. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 29-09-2022)

⁠PLANTEI Plantei rosas em pedras. Nasceram só cardos de espinhos
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⁠PLANTEI Plantei rosas em pedras. Nasceram só cardos de espinhos Rudes, abruptos, mesquinhos, Sem vontade de afagar. Voltei a plantar. Rosas em terra dos campos Negra, de húmus santos, Como mulher nova a engravidar. E os cardos sempre a medrar. Enxertei cardos com rosas Plantei e surpresa minha: Nem cardos, nem rosas, Apenas teimosos espinhos Tantos como bichinhos. Nunca mais planto uma rosa. Ou por sina ou meu azar Só nascem espinhosos cardos, Como pesados fardos Às costas do meu penar. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 26-09-2022)

⁠O REFLEXO NA CRUZ O quarto tão só e iluminado Pelo pirilampo de uma velinha
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⁠O REFLEXO NA CRUZ O quarto tão só e iluminado Pelo pirilampo de uma velinha Frágil, ténue como a minha Luz, que tremula este meu fado. Paredes negras, uma cruz só, Um teto como um céu a cair Desabando em mim a sentir A mágoa de morrer sem dó. Rompem-se trevas, o negrume, Explode em vulcões loucos a luz, Refletindo os raios na cruz, Parecendo que o irmão Jesus Me olhava sem azedume, Num odor de divinal perfume. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-09-2022)

⁠SINFONIA DE OUTONO Que sons, que magia Andam no ar todo o dia.
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⁠SINFONIA DE OUTONO Que sons, que magia Andam no ar todo o dia. Cantam os frutos ao cair no chão Toca ainda o vento suão Nas luras das árvores da fornicação. A terra farta de ser emprenhada Pede ao lavrador a paz da enxada. O lavrador, amealha o pão Que a mãe terra lhe pôs na mão. É pão, é fruto, é vinho de suor E tanta gente a rezar pelo melhor. Eu também rezaria a cantar E, ai, se a natureza me desse voz Eu cantaria para todos vós Num canto pranto de arrebatar - Corações do meu abono, Nesta sinfonia de Outono. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 28-09-2022)

DOU-VOS ⁠A minha tonta cabeça. Fazei dela bola de futebóis
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DOU-VOS ⁠A minha tonta cabeça. Fazei dela bola de futebóis Nas vossas disputas de álcoois. Dou-vos os olhos quase mortos Tristes e absortos. Dou-vos o peito magoado Sem jeito de construção De um novo estrado Para tapete de chão. Dou-vos barriga e vísceras Algumas com úlceras. Dou-vos os braços e pernas Já de ossos com cavernas. Só não vos dou o meu coração Esse órgão de eleição - Já o dei a alguém Que Deus tem - Desde que nasci até então, Àquela que me deu a vida Sofrida, À minha querida Mãe! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 26-09-2022)

⁠ALMA PERDIDA Caiu-me a alma. Não sei se dentro de um rio,
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⁠ALMA PERDIDA Caiu-me a alma. Não sei se dentro de um rio, Ou na turbulência do mar. Talvez na montanha Tamanha de frio, No calor do estio, Quente de enregelar. Será que ela fugiu de mim E se esconde na cidade imensa À espera da recompensa, Numa espécie de arlequim De rir pelas ruas Sujas e nuas. O que é que minha alma pensa? Fartei-me dela, tão tensa E cada vez mais pretensa Gozando comigo sem par, Que não perco mais um minuto Em absoluto, Para a encontrar! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 23-09-2022)

⁠RISO DA MANHÃ Sempre que rio pela manhã, À tarde choro lacrimoso,
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⁠RISO DA MANHÃ Sempre que rio pela manhã, À tarde choro lacrimoso, À noite vem o pranto doloroso Com lágrimas que queimam, Sulfúricas, As minhas ilusões telúricas, Sempre que rio pela manhã. E neste signo de afã, Eu prometi a mim mesmo: Não rir mais pela manhã! (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por escrever, em 23-09-2022)

NA VARANDA ⁠Dois, na varanda. Duas cadeiras baloiçando
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NA VARANDA ⁠Dois, na varanda. Duas cadeiras baloiçando Como a brisa esvoaçando Por entre macieiras sem fruto. Ouvia-se a bola chutada por um puto No sussurro da tarde triste Que mesmo magoada resiste Ao sonho do bem-amar O que não existe Na solidão dum olhar. Dois, na varanda, Duas cadeiras baloiçando... Era só eu, num sonho que manda E a nostalgia do vento brando. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 21-09-2022)

⁠CONSTRUÇÃO Ele construía tudo. Desde o alicerce mudo
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⁠CONSTRUÇÃO Ele construía tudo. Desde o alicerce mudo Até ao telhado Que lhe cobria o pecado De pintar as paredes Com cordas e redes Para sustentar o verbo Das falas que adjetivava Um presente sem futuro Quando mergulhava Nos advérbios do obscuro Sem pretéritos perfeitos Ou mais que imperfeitos. Ele, o poeta, contruía tudo, Mas a si próprio, não! Arquiteto de ar sisudo, Com a pá da paz na mão. (Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 21-09-2022)

SENHORA DAS ÁGUAS Mulheres grávidas, Mas ainda castas...
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SENHORA DAS ÁGUAS Mulheres grávidas, Mas ainda castas... Dizei-me, ó águas Revoltas, De placentas soltas Quais as origens Da senhora das águas Virgens, Como a senhora Governadora Das águas do mar? Dizei-me também, senhora: Quando nasceram as águas Das minhas mágoas Sem mandrágoras, Sem fé, Em sacrilégios, até? Vieste sozinha, Senhora minha, Ajudar ao parto Das águas da vida Guardadas em tua guarida. Por isso, nunca nasço Nem nascerei sem águas E sem o sangue que não se vê À partida, Senhora das Águas Das mágoas Da minha vida. ⁠ (Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 09-09-2022)

DIZ-ME NUM VÓMITO Diz-me, porque estás triste ? Amor rebelde, sem meu coração
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DIZ-ME NUM VÓMITO Diz-me, porque estás triste ? Amor rebelde, sem meu coração Do sangue que pedias Com a tua espada em riste, Nessa mão, Tremulando Velhinha de emoção Como a minha ficando Apalpando o que não existe. Diz-me, porque estás triste ? Assombramento meu, Sempre ao cimo da minha cama De penas, Tão apenas Nas noites claras de breu, Quando eu tinha medo de mim Ao subir as escadas da cama musical De bacanais infernal, Que dizem ser ruim, Até a do Orfeu. Maldito seja eu E quem me desafia Em euforia, Nesta noite tão só, tão fria, Em que vou, sem vir Mais que tempo de ir Sem pena Nem pensar De voltar. Diz-me, porque estás triste?... (Carlos De Castro, " in Portugal Sem Censura, No Brasil, Sim", Em 06-09-2022)

⁠ÉS TU A pomba. Da paz
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⁠ÉS TU A pomba. Da paz Que não existe, A não ser no dicionário Antigo, a cair de podre, Bafiento e de bichos Repelentes, Só lidos por cabrestões De pitos de funil. Escusas tu, Minha pomba Falsa, De cor branca, Comida pelos aventesmas De mil palavras De enganar, Sim, tu: Escusas de dar voltas Nos ares a dizer Que inventaste a paz, Que ela, a paz, está feita Em solfejos de mortes Anunciadas. E, cuidado, És sempre tu a primeira A abater, Depois de mim, Claro: Eu, o agitador, Conciliador. (Carlos De Castro, " in Portugal Sem Censura, Brasil, Sim", Em 06-09-2022)

⁠A POESIA QUE ANDA NO AR Não te quero ver. Enquanto em ti não houver,
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⁠A POESIA QUE ANDA NO AR Não te quero ver. Enquanto em ti não houver, Pombal aberto De pombas a voar Nos céus de sal, Na paz com abraços Estilhaços De abraçar A poesia que anda no ar, Como estrelas prenhes De estrelar. Nos céus do mar A abarrotar Por inventar Nostalgias, Sem alegrias De escrever Para agradar. É que depois, Vem a inveja Negra cereja E a poesia anda no ar Aos tombos. Sem destino, Porque o poeta é pequenino. (Carlos De Castro, in Poesia Sem Censura Em Portugal Existe, no Brasil Não, em 03-09-2022)

I N V E N Ç Ã O ⁠Fui eu que inventei o amor, Mesmo sem saber se era dor
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I N V E N Ç Ã O ⁠Fui eu que inventei o amor, Mesmo sem saber se era dor Aquele ardor que se sente Logo que se pronuncia A palavra amor. Senti-lo, é bem pior Do que praticá-lo? Eu sei lá! Só sei que o amor É uma coisa Que quase deixaram De pronunciar Com medo do bicho amor. Afinal, não fui eu Que inventei o amor E jamais O inventarei. (Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 01-09-2022)

QUADRAS DESATADAS ⁠Bom dia, é uma saudação Aos amigos que escolhemos
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QUADRAS DESATADAS ⁠Bom dia, é uma saudação Aos amigos que escolhemos Mas é também reflexão Para os desafios que temos. Pensei que o ser já o era, Enganei-me estupidamente, Ao ver uma terrível fera Beijar a pomba inocente. É um exemplo a seguir, Nesta jornada de perigos, E assim se fazem os amigos E outros que estão por vir. Na praia, uma branca rosa Marca o nosso sítio de amar, A nossa flor tão chorosa Ao ser levada pelo mar. Não longe vem o Outono, Adeus Verão que já rodou Como a roda da tua saia Na saudade que ficou. (Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 28-08-2022)

⁠ADORAÇÃO DOENTIA Como eu te adoro amor sagrado, Se tu soubesses tanto tanto
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⁠ADORAÇÃO DOENTIA Como eu te adoro amor sagrado, Se tu soubesses tanto tanto Que por vezes eu garanto O quanto no pranto, O tenho abafado. Como náufrago que vai a nado Com um poema erguido Na mão cansada, fremido, Como se carregasse um fado No fardo às costas sentido. No destino de dor suprema Num cântico de heresia Pão, sopa e vinho, poema Como eu te amo, minha pena, Minha louca poesia! (Carlos De Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 27-08-2022)

TRISTE QUIETUDE ⁠As árvores cansadas da dor Deixavam cair seus braços tão tristes
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TRISTE QUIETUDE ⁠As árvores cansadas da dor Deixavam cair seus braços tão tristes E o sol castigava as pedras do chão Como ferro quente a marcar o gado, Na tarde já morta de sede. Só uns cabelos de oiro Esvoaçavam loucos na brisa infernal... Eram os teus procurando os meus, Na triste quietude da tarde defunta. Fugiram os pássaros e tudo o que é vida Da vida que tem sangue nas veias. Dolorosamente, em prantos de cinzas As árvores tornaram-se pó E os ramos partiram-se numa chuva De mil pedaços queimados. O sol escondeu-se amedrontado; A tarde e a brisa quente Feneceram de saudade. Só ficaram os teus cabelos de oiro Sempre à procura dos meus, Revoltos na triste quietude... Mas tudo tão inútil. (Carlos de Castro, in Poesia Num País Sem Censura, em 27-08-2022)