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Frases de Bernardo Almeida

21 frases

Imundo Mundo vil Cheio de seres não menos desprezíveis
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Imundo Mundo vil Cheio de seres não menos desprezíveis Sob o comando do Imperador Egoísmo Estão todos os condenados à existência Mundo degradante Extremamente frustrante é ver As desigualdades tão frequentes Na mão de quem pede e no bolso de quem paga Mundo fétido Corrompido pela ambição e pela disputa Onde cresce a violência e o ódio E a vida bela e pura pede para perder a inocência Mundo catastrófico Em que a vingança anda solta pelas ruas E tudo é permitido desde que seja comercializável Financeiramente multiplicável, rentável Mundo decadente Espera teu futuro um tanto óbvio Da abundância à precariedade Da vida à extinção da humanidade Bernardo Almeida

A chuva e o absurdo E eu que sou tão pobre, fraco e envergonhado Sou aquele que tem medo do espelho
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A chuva e o absurdo E eu que sou tão pobre, fraco e envergonhado Sou aquele que tem medo do espelho Mas nunca admite E eu que sou tão baixo e retrógrado Tão louco, difuso e passional Se fosses minha, saberia... Eu sou o absurdo mais inconcebível da humanidade Sou cinzas e tristezas Sou frustrações e decepções Sou noites em claro Sou a ferida que não cura Sou aquele que ama calado Sou a décima xícara de café E eu que sou tão parvo Que choro escondido e peço segredo Que sofro as decepções da humanidade Ainda que tente firme esquivar-me E eu que sou tão medonho Em meio a este sonho insólito e enfadonho Que durmo de luzes acesas Não quero ser a sombra de ninguém Mas como viverei daqui adiante? A sobrevivência guarda para mim o fracasso? Não quero saber o que me reservam os dias Por meio tempo sou a vida que nunca quis Sou o ano mais longo A aventura menos fantástica O livro mais chato A solidão e o infortúnio de um canto de parede Sujo e mal iluminado E eu que me encontro neste dia de chuva Cubro meu corpo nu Enquanto escuto calmo a chuva cair Bernardo Almeida

Falibilidade Senta só este pobre Ainda sonha, ilude-se
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Falibilidade Senta só este pobre Ainda sonha, ilude-se Vive desta crença e melhora Um coitado aos olhos elitistas Um forte, um bravo Vigoroso em seus ideais O soco contra a covardia O arroto diante da boa educação A revolta, a espontaneidade, a graça Um papel, só um bilhete Anunciando o próximo encontro Já não será tão breve Está de pé, ainda Inabalado e coerente O tal quebra-correntes Corre a todo o tempo Do tempo que lhe foi imposto E não desiste Queimando panos e papéis Jamais se curva, jamais entoa hinos E à autoridade oferece seu repúdio Andarilho livre Que se nega a aceitar presentes, suborno E bebe da fonte, não do copo Vejam, estão limpos Mas fazem questão em rolar na lama Gostam de emporcalhar-se Espíritos asfaltados Nu e cru, vasto e fértil Um dia falecerão todos de fome A ganância de uns A ambição de outros E a morte da maioria Em resposta, a disposição em dizer não Bater sem as mãos E ainda assim agredir Ferir, desagradar e continuar a sorrir Violar, destruir, destronar Para distribuir felicidade entre os injustiçados Bernardo Almeida

Adeus Minha inspiração Deita morta a sete palmos do chão
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Adeus Minha inspiração Deita morta a sete palmos do chão Junta aos vermes que aceleram minha decomposição O corpo, um dia célebre Agora fede, apodrece Não fala, não pensa, perece Sirvo-me da companhia das criaturas subterrâneas Que sobrevivem da fatalidade alheia Tal qual o invejoso, de caráter desfalcado Funesta realidade, triste sinceridade Guarda a conclusão angustiante de um ciclo Que se basta sem desejar mais tempo Bernardo Almeida

Cuspe Cuspo sim Sete vezes no prato em que comi
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Cuspe Cuspo sim Sete vezes no prato em que comi Importa-me apenas o alimento Da próxima vez, comerei de mão E não dar-te-ei o prazer de humilhar-me A sua caridade foi desmascarada Subitamente, um olhar malicioso se forma Sobrancelhas capciosas Usastes da minha fraqueza para se fortalecer Mas em seu nutriente egoísta Encontrarás o veneno que te espera E sentirás a dor, mesmo que inconsciente Como uma peste sem cura Esta é a minha praga Por sete gerações E não verás a luz Mesmo que enxergue E sentirás a cruz Não terás alegrias Mesmo que insistas em sorrir E não encontrarás a felicidade Não terás conhecimento Mesmo que tenhas informação Serás um eterno ignorante Não se sentirás acompanhado Mesmo que cercado de centenas de pessoas Serás a solidão e o esquecimento Desejo-te agora boa sorte E cuspo mais sete vezes no prato em que comi Para que mantenha o mesmo nojo E não volte a repetir este maldito erro

Perdedor Eu perdi E perco quase sempre
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Perdedor Eu perdi E perco quase sempre Por opção Mas o fracasso traz um gosto Ao qual me familiarizo facilmente A perda é ridícula perto da lição Do erro faço novas escolhas E das escolhas, encontro novas opções Toda correção exige tempo Não tenho pressa A persistência é o aprendizado O aperfeiçoamento é constante Sem desanimar Vejo o quanto tudo é fútil Sutilmente apressado e finito, solitário Bernardo Almeida

Devassa Devassa e carinhosa Será esse o motivo pelo qual amo-te tanto?
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Devassa Devassa e carinhosa Será esse o motivo pelo qual amo-te tanto? Se para uns causas espanto, para mim, este é o seu encanto Meus valores definharam Mas em que eram baseados? Para te ter, esqueço o que é certo e faço tudo errado Sua boca sabe por onde descer Sua língua bem sabe o que fazer Corpo em chamas, tem doutorado em prazer Seu ser exala a paixão pelo que é E, sendo, mantém a fórmula em segredo Para não vulgarizar-se A luz que sai de ti É sábia e profana, rica e artística Preenche o meu vazio Do amor és o verdadeiro caminho E quem carrega coragem para trilhá-lo Mesmo sob olhares de reprovação Não se arrepende, nem conhece tristezas

É Vontade é não morrer Desejo é amar
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É Vontade é não morrer Desejo é amar Pressa é não chegar Preguiça é trabalhar Tempo é inovar Trilha é desviar Velho é reciclar Vento é navegar Conhecer é renascer Partilhar é cooperar Amizade é confiar Surpresa é desafiar Sono é sonhar Acordar é realizar Tentar é persistir Conseguir é acreditar Bernardo Almeida

Amor perdido O amor não fez sentido Nesse mundo mesquinho e sem graça
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Amor perdido O amor não fez sentido Nesse mundo mesquinho e sem graça Talvez porque seja ele a presa e não o predador Não vale um latão O amor está fora de moda Quase ninguém o veste mais O amor não é incentivado E quem ama vive a ser crucificado Quem ama é taxado de besta, otário Sofredor, masoquista, palhaço Muito mais fácil é não envolver-se Usar maquiagens para disfarçar-se O amor que falta no mundo Sobra em mim, sobrecarga Mas o que isso importa Se não encontro outros corações para reparti-lo? O amor está velho, impotente Está cansado e carente O amor sente falta dos encontros Do descompromisso nunca omisso e dos sonhos a dois O amor sente falta do romantismo O amor sente falta da paixão O amor sente falta da saudade O amor sente falta da falta que ele faz O amor anda sozinho e chuta latas Frequenta diariamente os becos escuros e as ruas sem saída Esconde a sua esperança no bolso E transita sem chamar atenção O amor embriaga-se para esquecer a rejeição O amor não chora para mostrar que ainda é forte O amor está rouco e evita expressar-se O amor está louco, a ponto de suicidar-se Bernardo Almeida

Recolher Sonhar tornou-se pecado Deita-te sob a lama que se forma
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Recolher Sonhar tornou-se pecado Deita-te sob a lama que se forma E conforma, resignação que me traz ânsia Enojo-me dos seus beijos Seu hálito é fétido Diz-me que a vida é assim Não quero entender seus propósitos Você não tem alma E ainda resta-me o direito de manter a minha Abaixo da terra, sua dignidade Acima dela, suas futilidades Faço parte daquilo que foges Imagens de pedaços de nada Que juntas sem porquê No entanto, continuas a recolher Papéis aos montes Como um catador de lixo Abutre mórbido Comes a carniça E a vida que conhece e prova Vem da morte alheia Seu corpo está deformado E ainda consegues sentir-se belo A soberba é a bala que carregas na testa Bernardo Almeida (Livro Achados e Perdidos)

O veneno da saudade Perdoei a ti sem que me pedisses Porque não consigo guardá-la como um espinho em meu bolso
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O veneno da saudade Perdoei a ti sem que me pedisses Porque não consigo guardá-la como um espinho em meu bolso E se digo que suporto a dor que me causaste É porque de ti, apenas a presença bastaria Sento e rememoro os encontros às escondidas Das manhãs às tardes, e, das noites às madrugadas Como éramos imaturamente descuidados e felizes No entanto, jamais fomos pegos em flagrante Eis a invejável sorte dos ardorosos amantes Minhas mãos sutilmente vacilantes em seu corpo Suas pernas a cambalear a cada toque Minha voz a embargar após atender aos seus pedidos mais carnais Éramos um espasmo lunar O que seria de mim sem aqueles saudosos dias Em que o fulgor do amor, ainda jovial, falava mais alto? O que seria do vento não fossem seus cabelos para bagunçar E o seu perfume a espalhar e distribuir graça ao mundo? Portanto digo, com carinho: perdôo-te sem que me peças Porque de ti, quero apenas guardar a ternura e a beleza Dos momentos brevemente eternos que dividimos um dia Bernardo Almeida (Livro Crimes Noturnos)

Deuses e demônios A mentira faz dos homens homo sapiens Os demônios são todos assim
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Deuses e demônios A mentira faz dos homens homo sapiens Os demônios são todos assim Tenho conversado com dezenas deles Porém, os deuses aspiram a perfeição Ambos falham e mentem em formas E em conjecturas arrogantemente expostas Mas subdividem-se em bem e mal Sois o que podeis captar da natureza Exércitos são formados em nome do ódio Mas no amor de um Cristo qualquer, velho e ultrapassado Encontram a sua justificativa para matar e oprimir São todos servos de uma estupidez esquálida De um sinal que não deveria ser dado E de divindades mortas, mas logo ressuscitadas Nos túmulos do fanatismo catártico das religiões Bernardo Almeida (Crimes Noturnos)

Desapego real Vejo do alto do sublime castelo do perdão Rainhas e reis deitados com a face virada para o chão
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Desapego real Vejo do alto do sublime castelo do perdão Rainhas e reis deitados com a face virada para o chão Admitem e arrependem-se dos seus erros E pedem que suas cabeças sejam cortadas com rapidez e zelo Mas não precisa desta atitude radical Chega de sangue derramado em nossos quintais As sobrancelhas franzem-se todos os dias Porque entre homens violentos e selvagens Faz-se presente diariamente a covardia Apenas levem em seus corações a lição Larguem todo o ouro e a prata no chão As vestes e os reinos, coletivize-os agora E liberte-se da praga miserável do apego Bernardo Almeida (Livro Crimes Noturnos)

Crença e aparência Quem crê no amor e nunca chorou Dificilmente amou
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Crença e aparência Quem crê no amor e nunca chorou Dificilmente amou Quem crê no amor e nunca sofreu Dificilmente amou Quem crê no amor e nunca perdoou Dificilmente amou Mas quem ainda crê no amor? O amor foi reduzido a desejo Passageiro, ligeiro Um sem número de parceiros Companheirismo é piegas Amar alguém é tão brega A sinceridade está de braços cruzados A cumplicidade tirou férias E o compromisso se aposentou Mas quem ainda crê no amor? Livre de interesses materiais Repleto de saudades e lembranças Os corações estão trancados Protegidos contra danos Todo mundo é tão sério e prudente Falta coragem para amar É mais fácil possuir do que se entregar Mas quem ainda crê no amor romântico? O que era sentimento verdadeiro Não passa hoje de um jogo entre parceiros A morte já não separa os casais O amor morre muito antes O vinho é transformado em água Sem sabor, gosto ou cheiro Sem emoções e sem feições Quem veio ao mundo e nunca amou Falar sobre a vida não pode Porque nada sabe Porque nada aprendeu além de futilidades Porque nada sentiu além do trivial Porque nada entendeu além do óbvio Porque, ainda que vivo, nunca viveu

Perda As lâminas da paixão Fatiaram o meu coração
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Perda As lâminas da paixão Fatiaram o meu coração Que sangra e pára Não bate, não vibra, não late Assumirei os suspiros Os erros e os acertos Assumirei meus rumos Os corretos e os falsos As mudanças em minha mão Ela leu, mentiu e descumpriu a missão As promessas desse verão Foram todas abandonadas no porão Vítima sem súplicas e sem deslizes Primários sentimentos e algumas cicatrizes Uma vez ferido, sempre em fuga Uma vez pecador, sempre culpa Mais temido do que desejado Mais esquecido do que lembrado Naquele dia em que te conheci Olhei para os lados e nunca mais te vi Bernardo Almeida

Fruto apodrecido A maturidade é cômica Uma piada mal contada
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Fruto apodrecido A maturidade é cômica Uma piada mal contada Estranhamente sem graça Corrupta e absurda A maturidade é uma armadilha Quando passa do ponto Põe um rei em cada barriga E atira pedra em cada diferença A maturidade dá frutos podres Transmite o vírus da hipocrisia Que limita a visão propositadamente Para criticar imprudentemente A maturidade sentir não consegue Seu próprio cheiro Que a nada agrada Além do seu próprio nariz A maturidade tem o seu caminho Que julga único e correto De horizonte estreito e anacrônico Que a tudo desdenha em tom irônico Mas não confunda a maturidade Com a sua prima sapiência Que não vira as costas para o seu oposto Nem se incomoda diante da diferença Não confunda a sabedoria Com a unilateral maturidade Que tudo sabe para si Em sinônimo de perniciosa vaidade Bernardo Almeida

Deveras, homem! Ah, como difícil é ser um homem Em um mundo tão machista e feminista
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Deveras, homem! Ah, como difícil é ser um homem Em um mundo tão machista e feminista Ah, como é difícil sorrir sem ser julgado Como é difícil chorar sem ser censurado Ah, como difícil é ser um homem Em um mundo tão feminino e masculino Onde os contrários se igualam E as verdades se anulam Ah, como é difícil E você nem sabe do meu esforço Você nem quer saber Como é difícil sobreviver entre seus preconceitos de homem Como é difícil não padecer aos seus padrões tão femininos Como difícil é ser um macho Daqueles com M maiúsculo Que chora, ama e pede colo Bernardo Almeida

Carne, osso e memórias Diluiu em pecados O que um dia foi santo
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Carne, osso e memórias Diluiu em pecados O que um dia foi santo Sacrificado o eterno em prol do agora Mundano e estreito Externo e profano Corpo exposto Alma fraca Lágrimas e silêncios Novos prantos Gritos de sinceridade Uma história mal contada Difícil de decifrar Um passado de fugas Um presente omisso Você não se reconhece Nem que apodreça em frente ao espelho Admire suas falhas Bem de perto, profundamente Você ainda consegue se questionar sem se sentir vazio? Anos luz separam você de você mesmo E não há nada além disso Carne, osso e memórias