O Espelho e a Pedra O humilde não possui nada, E por isso, possui o mundo.
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O Espelho e a Pedra O humilde não possui nada, E por isso, possui o mundo. Ele se senta à mesa do silêncio E come o pão que a soberba despreza. Sua riqueza é um segredo que a poeira guarda, E sua felicidade não faz barulho, Não brilha, Não fere os olhos de quem passa. Mas há um espelho. E o espelho é a alma do cruel. O cruel olha para o humilde E não vê um homem. Vê um espelho partido, Um reflexo embaçado de tudo o que ele teme perder. E o que mais dói nesse reflexo Não é a pobreza do outro. É a paz do outro. O humilde sorri com os olhos, E o cruel se contorce por dentro. Pois a felicidade completa do humilde É um tribunal silencioso. Ela não julga, não grita, não condena. Ela apenas é. E ser, para quem só sabe ter, É a sentença mais cruel. O cruel bebe o vinho da posse E sente sede. O humilde bebe a água da fonte E está saciado. O cruel acumula exércitos E dorme em guerra. O humilde não tem exércitos E dorme em paz. E quando o cruel se deita no espelho, Ele não vê a si mesmo. Ele vê o humilde dormindo. E essa visão — ah, essa visão — É o que mais dói. Pois o humilde não precisa de espelho Para saber quem é. Ele é. E a sua felicidade é um rio que corre Sem pedir licença à seca. O cruel, no entanto, Precisa do espelho para existir. E no fundo desse vidro, A imagem que o atormenta Não é a sua própria crueldade. É a inocência do humilde. É a sua inteireza. É a sua completa e insuportável Felicidade. E isso, meu caro, É o que mais dói. Não a dor do humilde. Mas a alegria dele. Pois a alegria do humilde É a única coisa que o cruel Nunca poderá comprar, Nunca poderá roubar, Nunca poderá entender. E no silêncio do espelho, O cruel aprende, tarde demais, Que a maior pobreza É não saber ser feliz Sem precisar que o outro seja infeliz. André Vicente Carvalho de Toledo.