Frase de André toledo
Calunga da Alma: Umbanda em Versos Alquímicos Não é só na guia, no atabaque ou no giro, Mas na sombra que dança no fundo do respiro. A Umbanda não vem só de folha ou raiz, Vem do abismo do ser, onde o eu se infiltra e diz: "Quebranta-me, Preto Velho, com teu cachimbo lento, Desfia este novelo de falso sofrimento. Mostra-me na kalunga do inconsciente fundo, O Exu guardião do meu desejo infindo. Eis que o terreiro é espelho: arquétipo em transe, Jung e Lévi-Strauss no mesmo passo que dança. Ogum desce no ferro da couraça quebrada, Oxóssi flecha a angústia, caça a alma atordoada. Iemanjá é o útero, o mar primordial, Onde o ego se afoga num sal gélido e igual. Ela lava na espuma o complexo enraizado, O trauma cristalizado, o amor não realizado. Oh, Pombagira gira no eixo da libido, Desata o nó do gozo, do que foi reprimido. Seu riso é catarse, seu gume é análise, Desvelando na lama a mais pura promessa. A magia? É símbolo que opera no osso, Projeção transformada em axé, sangue e gozo. O médium, o transe, não é Narciso ferido, é amparo Enxergando no orixá seu duplo esquecido. A cura não é fuga, é integração profunda: O inconsciente coletivo que em santo se desfunda. O ego se dissolve no ponto riscado no chão, E renasce no corpo de luz, em comunhão. É "Erzulie" no espelho quebrado da autoimagem, Xangô julgando a culpa, cortando a ramagem Do superego severo, da moral que oprime, Restituindo o sujeito ao seu centro sem crime. A Umbanda opera a grande sublimatio... A pulsão devoradora, em caridade e ofício. O desejo recalque, em gesto de dar, O ódio ancestral, em perdão sem parar. Não é magia menor, feitiço no escuro, É "magnum opus" da alma no cadinho do futuro. É a psique em procissão, arquétipo em terreiro, Desfazendo o sintoma, curando o mundo inteiro. No silêncio que ensurdece após o último ponto, O eu, agora coletivo, perde seu contraponto. A vida transformada? Não por mero milagre, Mas porque a alma, enfim, aprendeu a ser ponte Entre o abismo e o astral, Entre o humano e o divino, Entre a dor e o axé, No terreiro, destino....
No pensador.ai desde