Pular para o conteúdo

Frase de Rosana Fleury

⁠Vatapá do Cerrado Um dia ele chegou e disse: — Acabou! Não volto mais. Saí da caixa das comodidades e perguntei: — Por quê? Ele disse: — Não sei, falta... Tempero. Saí depenada na partilha, minha única herança: Um velho livro de receitas. Mas havia um sentido ao acontecido: Casa dividida Filhos partindo Amigos indecisos Família desconfiada E eu sozinha... ...e o pior, ser acusada de ser sem tempero! Realmente, naquele lugar, não havia espaço para que eu pudesse descarnar minha alma e retemperar minha vida. Passei pelo quarto de minha AVÓ, que disse: — Tenha fé! Se tivesse pernas lhe acompanharia. Parti. De lembranças: mudas de alecrim, coentro, manjericão, ora-pro-nobis. Talvez a outra fosse assim: Com a boca besuntada de manteiga de cacau, escorrendo ignorância, pele cor de açafrão de tanto vadiar ao sol, cabelos negros como tinta de lula. Mas... Eu tinha as faces cor de pimenta rosa e um modo de fazer diferente. Precisava remexer e fazer um VATAPÁ e mostrar a todos que o amanhã é outro dia. Desossei uma galinha, desfiei sua carne e modifiquei meu "penteado". Coloquei um quilo de camarão, imaginando que o mar é grande... Deitei azeite de dendê em abundância para lustrar meu ego. Despejei leite de coco, pensando que o vento no coqueiral, vira a qualquer hora. Apertei os tomates maduros para que não sangrassem antes da hora. Piquei e chorei junto às cebolas e acreditei que elas exorcizam o ambiente. Com parcimônia no sal (à gosto) e acreditei em Deus e na criação. Usei alho em lâminas para espantar a inveja Salsas e cebolinhas trituradas para dizer que tenho tempero. Abracei a azeitona para dar um toque aveludado à vida Troquei... era hora... o amendoim dominado pela suavidade do baru do cerrado e acreditei no equilíbrio do sabor. Retemperei e acreditei na receita, estava tudo pronto... mesa posta e farinha de mandioca para engrossar minha intuição. Cansada, eu agora, precisava de um banho, de um mergulho. No quintal uma banheira jazia também abandonada. Lustrei vida nova a ela. Forrei com alecrim para perfumar meu corpo. Cerrei as vistas de curiosos, com lençóis, para que não criticassem minha nudez e filtrassem somente bons ventos; Mergulhei! E foi assim: era fim de outono, as folhas caíram na virada da tarde. Pétalas coloridas inundaram a banheira e eu me senti importante com tantos confetes! Na verdade, ele me perdeu, o tempo avisou que as folhas velhas cairiam, dando lugar às folhas verdejantes e elas inundaram a banheira. E eu cheirando a alecrim, engatei uma nova estação e pensei: “Amor requentado amigo reconciliado nunca dão um bom-bocado” Aceite e acredite na sua receita. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

Rosana Fleury

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de Rosana Fleury

⁠A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo.
Continuar lendo

⁠A roupa dos dias A elegância sempre aparecia silenciosa. Não disputava com as cores dos dias nem com o brilho dos céus em tempos de proclamo. A elegância é muda. Modificava de estação e nunca de alinho. Misteriosa e sem explicação. Discreta e sabiamente sensacional, a elegância tinha seu espaço sem brigas no mundo interrogado. Ardilosa era a verdade desvestida. Sem medos e sustos desfilava com finura. Era mágica, emblemática, sem artifícios. Acordava faminta e dormia com todas as dúvidas sangrando. Não, nunca, jamais queria ser reconhecida e seu caminho de fuga era desaparecer. A elegância induz sem duelos. O artifício era ser semelhante e macia, como um idêntico caçador. A elegância não era loura nem trigueira, transpirava calada e nos encontramos. Meu coração não acelerou, a pressão permaneceu inalterável, o estômago não borbolhetou anseios, inalterou e persistiu no mesmo lugar. Fiquei a olhar se aproximar toda emudecida, sucumbindo ao total silêncio. E todos os ares emudeceram, a elegância estampou serena, densa e indissolúvel. Tinha os olhos pequenos, obliculares, maquiados de preto. No mimetismo que a escondia ela desfilou manchada por segundos, com cuidado entre as burcas do capim cerrado. Tive inveja do ser bicho. Onça. E o animalesco da covardia em mim passa a permanecer e desafiar a benevolência, somente aspirando bom gosto. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠Um lugar... Com aspiração Quando o mês de Julho chegar, estarei com vocês. Quando Setembro anunciar, verei as Cavalhadas de Corumbá de Goiás pela primeira vez.
Continuar lendo

⁠Um lugar... Com aspiração Quando o mês de Julho chegar, estarei com vocês. Quando Setembro anunciar, verei as Cavalhadas de Corumbá de Goiás pela primeira vez. Quando Dezembro espalhar, ficarei na praça debaixo do flamboyant, me escondendo das tardes em choro, das chuvas mornas encharcando meus cabelos. Estarei submersa na terra. Sentirei seu cheiro. Acalmando minha ansiedade. No fruto de minha gente. E nas estações, meus pensamentos constroem pontes de uma viagem internacional ao Corumbá de Goiás, todos os dias, incessantemente. E não me canso, me frustro. Verei Anita já crescida, dançando em sapatilhas de ponta. Victor apaixonado pela certeza das horas. Amarei as minhas orações desnudas e farei promessas a Nossa Senhora da Penha. Ela me ouve. O ensaio das vozes do coral irá convidar retumbar em minhas janelas e de meus olhos trincados escorrerá balsamo. Virarei histórias na voz de todas minhas tias. Amarei o jiló da horta de minha casa, onde Sebastiana plantou e Narcisa aguou. E tudo aparecerá novo e inconfundível em minha memória. As corujas visitarão meu alpendre e ficarei admirada com sua elegância reservada. Acordarei cedo e irei contemplar a neblina do planalto central. Admirarei as mangueiras retorcidas, centenárias, os muros de adobe, e não me sentirei invadida, namoro a minha solidão. Vou cozinhar esta ideia, servir a todos com guariroba e pequi na margem arborescida do Rio Corumbá no cerrado. E dizer que amar é acolhedor, descansado no silencioso do Goiás. E minha saudade acordará do choro de mil dias. Se navegar, acontecer, a Deus pertence, mas aluguei na vida, momentaneamente, de passagem, enquanto existir um lugar para amar. Livro Pó de Anjo Autora: Rosana Fleury

⁠ Fale Se você não quer falar comigo Não tem problema
Continuar lendo

⁠ Fale Se você não quer falar comigo Não tem problema Eu falo por você Nesta hora sua mudez Vira conto. Verso, Metáfora Aí tenho as rédeas Sou dono de suas palavras Impero e domino seus movimentos Eu olho para você Você olha em mim E em versos Dialogamos E nos amamos para sempre. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury

⁠ “A cidade dos Muros" Na sua vida muros
Continuar lendo

⁠ “A cidade dos Muros" Na sua vida muros Minha vida pontes Ultrapassar Indecisão Te esperei Aos pés das pontes Você não apareceu Ficou rente aos muros Não me viu Talvez estivesse Me esperando Assim É mais romântico Murros quero dar Destruir estes muros Para que me veja Te esperando Nas pontes Interligando canais Navegue entre eles Como todo carma Talvez algum dia Nos vejamos em Veneza Nesta hora Tenho certeza Seremos carnais Ou Assim Murros quero dar Destruir muros Ficar somente pontes Interligando canais Como todo carma Te espero em Veneza Ou Assim Vou destruir muros Para que me veja Navegue nos canais Carnais Talvez algum dia Nos vejamos em Veneza. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury