Frase de Rosana Fleury
A Taça Lá bem longe, onde o horizonte descansa e o vento faz a curva e a vista nunca alcança e imaginação descreve, tem uma cidade e no seio dela há um mercado que vende todas as intenções. Há cheiros saborosos, paladares indescritíveis e ideias nunca despidas e negócios sem questão de pendências. As portas se abriam ao último vento frio das madrugadas e se encerravam ao findar e ao tremular a última questão. Junto ao burburinho ela adentrou a procurar algo mais que o destino guardara e o desejo não lhe proporcionara. Revirou não encontrou e na saída viu uma velha maltrapilha com uma taça cravejada de pedras preciosas, bordada com filigranas de ouro. Teve piedade e se condoeu por ela, velha, sozinha e na sua bagagem somente a taça. Foi depositar uma moeda em seu xale esparramado pelo chão e a velha sussurrou. — Não preciso de esmola. — Então me vende esta taça quanto custa? Quero ajudá-la. — Quero uma morte digna, um teto cheio de palavras amorosas, ouvidos curiosos para que eu possa contar minha viagem e mentes sem julgamento para desdobrar minha bagagem. — Mas o que esta taça guarda em segredo para que eu possa levá-la e a você em minha história? — Se beber o que ela contém, terá a solução de todas as suas perguntas. Respostas que nunca achará em livros e a inteligência de ninguém vai verbalizar para acalmar seu coração. — Vou pensar, consultar as entrelinhas, volto logo. — Estarei aqui, pode ir à diversidade desse mercado que não vai preencher seu coração. Caminhou lentamente de coração vazio entre as sedas macias e esvoaçantes do mercado. Não se encantou com as suas cores alucinantes. Colocou nos dedos anéis fabulosos de pedras facetadas e lapidadas mas que não contornavam nem de longe as curvas de sua insatisfação. Observou os mágicos, mas sabia de todos os seus truques. Comeu quando o estômago desejou, mas não houve surpresa no seu paladar. Sentiu o perfume absorvido de toda a ciência e alquimia, mas seus cheiros não descortinam nenhuma lembrança. Ficou cansada, tinha que voltar, sua ausência estava expirando, voltou à velha: — Eu compro esta questão. E foram para casa e a viagem apenas começou. Todas as manhãs, em sua cama profundamente macia em sua tenda com tudo o que era sua conquista, abarrotada de troféus dependurados e perfumados e os dedos cheios de anéis diplomados, bebia da taça e sua mente se abria, clareava e tinha a solução de todas as questões. Mas o tempo soprou e as dunas mudavam de paisagem e o que era ontem, hoje tinha outra face e o que era absoluto ontem, hoje de nada valia e as questões iam e vinham, passavam mas não encontravam repouso, resolução não terminavam, caiam feito goteiras, cada dia em lugar diferente. Ela se irritou; tudo tinha que acabar. Queria um mundo soprando fresco em sua face, absoluto, sem discussão de nada. Foi à velha reclamar. — Bebo da taça velha, todos os dias e quanto mais bebo mais goteiras perturbam minha calma, você iludiu meus pensamentos e minhas melhores intenções, onde mora a solução finita de todas as minhas angústias? — Você tem que beber da outra taça. — Onde está a outra taça? — Eu bebi tudo o que nela continha e a manuseei tanto que ficou gasta, fina, transparente, trincou as bordas e a haste esfarelou e virou areia que o vento do deserto sopra. — Velha você me enganou e me vendeu ilusão. Qual a verdade que mora nesta taça ou vai me vender à prestações? Vá ao deserto agora e diga ao vento para juntar todos os fragmentos e monte outra taça porque eu quero beber dela. — Isto é impossível! Não posso recolher palavras de uma vida, não posso relembrar de todos detalhes. Na verdade tudo que bebi habita comigo, me escute. — Não tenho tempo. — Então não tem sabedoria, "o saber” leva tempo saber: é uma consulta longa e o diagnóstico, a conclusão, é sem tempo exato. — E o que faço com a senhora, a jogo nas esquinas? — Eu sou taça, a sabedoria que você tanto procura não vai acalmar suas decisões e não vai ser taça se não me escutar. Vai ser areia triturada do deserto e nem vai saber onde ficar quando envelhecer: vai vagar, perambulando, rodopiando feito areia sem dar a ninguém o seu recado. Tem que reescrever e solucionar todos os dias. Todas as horas. E o mundo vem, pisa em cima de suas intenções e você novamente reescreve. Deixa seu rastro. Sua Verdade. Sua Sabedoria. Sua persistência. Por que quem vive muito, rejuvenesce nos ouvidos de quem escuta. E o ou vinte amadurece. Alcança cheiros, sabores, paladares indescritíveis, amadurece na procura e aprende que além dessa taça existe outra e esta não está à venda mas dela todos podem beber se você tiver fé na sua sabedoria. Dentro dela há a esperança que encurta todos os caminhos. Livro: Não Cortem Meus Cabelos Autora: Rosana Fleury
No pensador.ai desde