Tarot -
No principio era o nada
e o nada era tudo,
era frio, água gelada
e o meu corpo era luto.
Mas do nada se fez tudo
quando em versos me falaste
dos teus olhos fiz um escudo
mas d'um sonho não passaste.
Tua voz sem sentimento
no passar das horas breves,
foi a dor, o sofrimento
que não quero que me leves.
De ti o nada me ficou
como roupa sem razão
e visto o nada que passou
no meu corpo de solidão.
Elegia da Paixão -
E é como se o teu beijo tocasse no meu ventre
e é como se a tua pele me vestisse de cetim
e é como se o teu olhar num sopro de repente
me levasse nas asas de um desejo sem ter fim.
E é como se o suor dos nossos corpos fosse um rio
e é como se os nossos lábios fossem duas rosas
e é como se a noite nos levasse num navio
onde as nossas linguas se entrelaçam saborosas.
E é como se o teu toque esculpisse o meu regaço
e é como se a minha cama fosse o teu abrigo
e é como se o teu cheiro fosse o meu abraço
nessas noites em que não podes estar comigo.
E é como se tudo, em torno, sem ti, fosse vazio
e é como se em mim, esse vazio, fosse criança
e é como se ao meu peito ausente, gelado e frio
voltasse aquela angústia que vivi na minha infância.
E é como se os teus olhos fossem dois pedintes
e é como se os meus fossem dois poços de amargura
e é como se a minha dor já não tivesse ouvintes
nesta tórrida procura de afecto e de ternura.
E é como se nas veias o sangue não corresse
e é como se as viuvas pelos mortos não chorassem
e é como se no peito o coração já não batesse
e as andorinhas pelos Céus já não voassem.
E é como se afinal os poetas não escrevessem
e é como se o destino já não quisesse o fado
e é como se do fado as guitarras se perdessem
e os povos não tivessem o destino já marcado.
E é como se o mar já não tivesse os horizontes
e é como se o Céu se afundasse sem destino
e é como se tivessem pela vida secado as fontes
e eu voltasse aquela triste idade de menino.
E é como se a morte se espalhasse pelo ar
e é como se a vida fosse um pássaro na mão
e é como se estes versos que escrevo por te amar
fossem a mais bela Elegia da Paixão.
Não Procures a Solidão -
Não procures a solidão
sem saber de onde ela vem
deixa-a ficar sossegada
a solidão é dor errada
no peito de quem a tem.
Não procures a solidão
que ela vai atras de ti
solidão, vazio e nada
traz a vida já cansada
a solidão não está aqui.
Nāo procures a solidão
na saudade ou no amor
na tristeza ou na loucura
solidão é dor sem cura
sem remédio nem pudor.
Da tristeza à saudade
vai a vida como é
Solidão é dor parada
é palavra mal-amada
de um poeta já sem fé.
Quadras aos Santos Populares -
Santo António é padroeiro
Da Lisboa d’encantar
Mas São Pedro é o porteiro
De quem no céu quiser entrar!
Santo António milagreiro
Que és um Santo tão Santinho
Dá-me lá mais um dinheiro
Qu’inda sou tão pobrezinho!
Diz a boca do demónio
Destas gentes da intriga
Que outrora o Santo António
Gostou d’uma rapariga!
A ti deixo este meu canto
Óh meu rico Santo António
Não te esqueças deste pranto
E arreda-me o demónio!
Óh meu querido Santinho
Vou fazer o teu altar
Comer pão e beber vinho
Pelas ruas a marchar!
Óh meu lindo São João
Dá-me moças pr’a dançar
Deixo aqui meu coração
A quem o quiser conquistar!
São João os teus cabelos
Tem ondas amarelas
Envoltas em segredos
Já não damos conta delas!
São João dos Caracóis
Procurava uma amada
E mandava os rouxinóis
Cantar uma toada!
São João é do Estoril
Santo António é de Lisboa
O São Pedro é d’águas mil
E o poeta é Pessoa!
O são Pedro tem a chave
Da porta desta festa
Mas se o “homem” não a abre
O Santo António já não presta!
Arraial por toda a parte
E sardinhas pelo pão
O São Pedro que me aguarde
Se estragar o São João!
Se chover no São João
O São Pedro está tramado
Santo António sem perdão
Vai deixá-lo entalado!
Nesta mesa dos artistas
Há gentes que se vejam,
Poetas, músicos, fadistas,
Tantos “santos” que nos beijam!
Temos dias sem sentido
Que nos deixam solidão
Vai a quadra ao manjerico
E a alegria ao coração!
Lá vai o arco e o balão
Pelas ruas sem ter mal
Pois agora a solução
É fazer um arraial!
Périplo -
Uma lágrima correu
na face da solidão
uma esperança se perdeu
no galopar de um coração.
E há um canto no sangue
há um silêncio na voz
há um grito cortante
no mais fundo de nós.
E o que fica de chorar
é loucura que não somos
é não ter o que entregar
à demência do que fomos.
E é mentira ter piedade
há um tempo para o corpo
da Morte à Eternidade
vai a pausa de estar morto.
Há em nós silêncios de água
há vulcões em noites breves
há palavras cor de mágoas
que o destino nos escreve.
Nossos olhos debruados
demarcados na lonjura
são dois campos macerados
de uma trágica planura.
A hora passa devagar,
vazia, despojada,
e passa longa, a chorar,
numa ultima jornada.
Somos praia ao Luar
terra ferida sem nortada
vai-se o sonho de sonhar
fica a triste madrugada.
Mas um dia voltaremos
ao cais d'onde partimos
será aí que nos esquecemos
da mania de existirmos.
Incompreensão: Destino Envenenado -
Na loucura de um sentir inconsciente
sempre quis amar e ser amado
amar tudo e toda a gente
que caminhasse junto a mim, a meu lado.
Porém, poucos houve que me entenderam
nem eu mesmo me entendi
e só aqueles que morreram
ficaram mais perto de mim.
Julguei que aos outros aninhava
alem do mau feitio, dentro do peito,
hoje sinto que a todos rejeitava
por nunca entenderem o meu jeito.
O meu jeito de poeta miseravel
escravo de um sentir sem porto
prisioneiro das palavras, ser instavel,
desejando a paz eterna de estar morto.
E diziam, não podes ser assim,
tens que aprender a viver a vida!
Mas o que sabiam eles do que ocorria em mim?!
Pensariam que eu gostava de viver de Alma perdida?!
Ah se eu pudesse matar este sentir
que me cavalga o pensamento,
se eu pudesse afastar, resistir
à solidão, ao sofrimento ...
Não posso! Não sei nem tenho como!
Tábua fria onde me deito e meu corpo é velado,
essência dos poetas qu'inda tomo
destino que Deus me deu envenenado.
Destino Derradeiro -
Venho aqui dizer-vos
que o destino é o destino
e que ao destino ninguém foge!
Que do destino somos servos
na vida peregrinos
e fugir-lhe ninguém pode!
Venho aqui em solidão
dizer que a vida é breve
e que o tempo é passageiro!
Venho aqui sem pretensão
pedir memória breve
p'ró destino derradeiro!
Agosto -
E já se foi Agosto!
Um dia e outro dia
horas de loucura
lembrança e desgosto
d'um amor que se perdia.
Só ficou este silêncio
o silêncio de Setembro
que o mês de Outubro
'inda trazia.
Dois loucos calados
na casa de ninguém
vestidos de negro
em corpos fechados
das mortes que fui
em memória de quem?!...
Dois mortos calados
na casa de ninguém!
Cheguei ao Fundo -
Cheguei ao fundo
das ilusões que não tenho.
Das esperanças que perdi
dos olhos que não viram
das loucuras que senti!
Cheguei ao fundo ...
Cheguei ao fundo
das palavras que esqueci.
Das coisas que vivi
dos sonhos que partiram
das vezes que menti!
Cheguei ao fundo ...
Cheguei ao fundo
dos amores que não tive.
Dos que tive e que não quis
dos que quis e que partiram
da vida que vivi!
Cheguei ao fundo ...
Lágrima Contida -
Num encontro ou num olhar
procuramos em alguém
um amor que saiba amar
sem mentira nem desdem.
Ilusão que só nos prende
às amarras da loucura
da tristeza que se estende
ao amor que não tem cura.
E há um grito que magoa
quando alguém nos faz doer
há um lirio que destoa
pelos campos a morrer.
E uma lágrima contida
corre a face da solidão
basta a esperança estar perdida
p'ra sofrer um coração.
Contra o Tempo -
E a vida foi passando
o destino foi correndo,
minhas dores crescendo,
com elas amei, com elas sofri.
Minha ângustia ficou
meus sonhos morreram,
tudo passou, só eu não morri!
E tudo me deram
sem principio nem começo
sem virtude nem fim ...
Pelas noites bebi medo,
bebi sonhos e magia,
desecanto, dor e solidão.
Perdão Senhor! Perdão!
Lassidão -
Na rota de um destino que vivi
numa intensa e trágica planura
meus olhos rasos de lonjura
são dois versos de um poema que perdi.
Numa perpétua e árdua procura
numa busca impossivel de acabar
fiz dos versos um apelo de loucura
que o silêncio nunca soube em mim calar.
Mas longos, revoltosos, violentos
foram os punhais que me espetaram
sete facas apontadas, meu tormento,
foi só isso que os poemas me deixaram.
E na dolência das noites tenebrosas
foi meu corpo uma tocha incendiada
foi minh'Alma criança apaixonada
nas mãos de uma infância dolorosa!
Na Exactidão da Partida -
É como se antes de nascer
a dor me conhecesse
e a poesia me escolhesse
no momento de viver.
É como se antes de viver
a loucura me vestisse
e a morte me seguisse
como um galgo a correr.
É como se antes de correr
este mundo me evadisse
e a noite me despisse
vivendo nú sem saber.
E ao lado da saudade
passo a passo fui vivendo
pela vida fui sofrendo
à deriva, sem vontade.
Na verdade quis a morte
quis à vida pôr um fim
quis voltar p'ra onde vim
em procura d'outra sorte.
Mas fiz da vida uma cadeia
da minha casa um jazigo
do meu caminho fui mendigo
e tanta gente na plateia.
Vou-me embora sem esperar
abandono toda a gente
solto a corda que me prende
aqui não é o meu lugar.
Celeste Rodrigues -
Chegaste e eras vida ...
Chegaste - eras ar- ternura,
gestos e palavras
que a própria vida
te dava por loucura!
Chegaste e eras tempo ...
Chegaste - eras areia - praia,
ondas e marés
e o próprio vento
bordava a tua saia.
Chegaste e eras xaile ...
Chegaste - eras Sol - calor,
a mantilha dos poetas
eras musica e baile
um poema ao amor.
Chegaste e eras fado ...
Chegaste - eras verso - tão só,
guitarra e lamento
caminho destinado
a dar corpo à voz.
Resta-nos ser o que Tu és
esse fado a que te davas
ter nos versos tanta fé
ser um campo de rosas bravas.
Solidão - Cansaço -
Solidão é cinza
silêncio, pó e nada,
solidão é gente,
à deriva, abandonada.
Solidão é ferida
ângustia e vaidade
é dor, lamento e culpa
numa teia de saudade.
Ai solidão - cansaço
que nos veste o coração
prende a vida a um regaço
numa dor pregada ao chão.
Tenho Sede -
Tenho sede de viver
como as dores que me abraçam
como as mãos que se entrelaçam
tenho sede de te ver!
Tenho sede de esquecer
aquela hora em que partiste
aquela hora em que não viste
que por ti me ia perder!
Tenho sede de saber
as coisas que viveste
os poemas que escreveste
por quem andas a sofrer!
E esta sede de amor
que me deixa perdida
é uma sede sentida
que me adormece na dor!
Minha sede do Fado
minha sede sem calma
no cansaço da Alma
meu destino marcado!
Tenho sede podes crer
podes crer na minha sede
e quem há que nunca a teve
esta sede de viver!
Para Natália Correia -
Eras Poeta
e esta gente não entendia!
Eras noite
mas a Lua, por inveja,
não te queria,
e o dia, com medo, de ti,
também fugia!
Eras vida
e até a morte te procurava...
Mas a tua dimensão
não era a vida nem a morte
mas sim a solidão!
Porque ninguém te entendia ...
Eras tu, aurora dos poetas,
eterna madrugada
que antecede os dias puros...
Eras poeta
e esta gente não entendia,
não te queria, nem te via.
Por isso, em teus versos, teu olhar, sofria...
E ninguém entendia ...
Ninguém entendia ...
Termo sem Fim -
E então cheguei ao fim!
Gritei por Deus e foi em vão,
Ele nem olhou p'ra mim,
fiquei só, caido ao chão ...
E o que dizer das preces que lhe fiz?
Que as fiz sem mesmo acreditar
que as fazia num chorar que vem de mim
deixando as minhas penas pelo ar ...
Rezar p'ra quê se nem Deus ja pensa em mim?
Chorar porquê se ninguem me ouve nem me quer?
Cantar o quê se a minha voz chegou ao fim?
Pois vou sem rumo vivendo o nada que vier!!!
Olhos Inclinados -
Meus olhos são dois lirios
no Portal daquela Igreja
são dois cantos, dois martírios
Nossa Senhora os proteja.
Num lamento Virgem Santa
trago a ti minha oração
meu olhar não se levanta
vai aos tombos pelo chão.
Horas mortas que passaram
de uma vida mal vivida
que meus olhos enxugaram
no teu manto, dia-a-dia.
Fica a minha Solidão
no portal daquela Igreja
e meus olhos pelo chão
Nossa Senhora os proteja.
Ode ao Limbo -
Há um grito que me envolve ...
Vem da terra - cresce em mim...
Nada nele me devolve
à beleza de um jasmim!
Na solidão de que me alimento
sou da noite, sou assim,
sou do fado, vil tormento,
um lamento sem ter fim.
E na raiz de que sou feito
está a força de pensar
minha raça vai ao peito
vai no punho o meu penar.
Mas se trago no pensamento,
as palavras, uma a uma,
sou um verso escrito ao vento
na mentira que é a bruma.
Então a bruma é a vida
e a vida são estilhaços
somos Almas combalidas
morrendo passo a passo.
Nesta humana Eucaristia
não há pão e não há vinho
só a morte dia a dia
a tolher-nos o caminho.
E não há bem! E Nao há mal!
Nesta demência que nos mente
ir do berço ao pó da cal
é o destino de toda a gente.
Banquete -
Ao nascer fui chamado a um banquete!
Deixei tudo e aceitei. Mas quem era aquela gente?!
Entre eles me sentei, mas nao fui aceite,
nem eu os queria tais parentes ...
Fiz tudo o que se faz. Até brindei!
Fingi estar lá, não estando,
sorri, falei, escrevi e até cantei,
mas no peito, o coração, ia secando ...
Ao tempo, pensaram ser um deles,
mas era tarde e o destino era reles!
Foi então que uma voz se levantou:
"- Nesta mesa houve alguém que não comeu!"
Fui eu! Respondi com prontidão ...
E não comi porque o banquete é vosso nao é meu!
Gastei a Vida -
Gastei a Vida
numa espera inutil
numa esperança vã!
Gastei a vida
numa dor sombria
em loucura sã!
Gastei a vida
na alegria que não tive
a pensar no que sobrou!
Gastei a vida
e a vida que escolhi
foi a vida que passou!
Gastei a vida
numa espiral inversa
que tudo me levou!
Gastei a vida
uma flor que nasceu
e nos campos secou!
Gastei a vida
a escrever poemas
num papel cansado!
Gastei a vida
a pensar na morte
a cantar o fado!
Gastei a vida
num suspiro errado
num pensar sombrio!
Gastei a vida
chegou a morte
morri de frio ...
Já vai alta -
Já vai alta a madrugada
que se levanta pela noite
traja liquidos de prata
traz um verso que nos mata
num poema que nos coube!
Já vai alta a solidão
que se ergue pelo espaço
deixa um lastro pelo chão
é loucura, é paixão
que nos mata de cansaço.
Já vai alta a minha dor
é intensa, tão profunda
que vá a vida onde for
da loucura que a inunda
vai tão alto o meu amor.