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Frases de Oswaldo Jesus Motta

9 frases

Invisíveis Caminhava. Um chamado, baixo, insistente:
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Invisíveis Caminhava. Um chamado, baixo, insistente: - ei... ei... Parei. -Moço... você me vê? Vi. Mas hesitei na resposta como quem mede o peso de existir. -Porque passam... e não olham. -Digo "bom dia" o ar responde. Fez uma pausa, dessas que não cabem no tempo: -Será que estou invisível... ou já não vivo? Engoli seco. A cidade seguia indiferente, intacta. -Não - eu disse -é o mundo que desaprendeu a enxergar. Estamos todos à procura de algo: um rosto que devolva o olhar, uma palavra que permaneça, uma mão que não atravesse a nossa. Ele sorriu - quase luz, quase ausência. Vá com Deus. E partiu devagar, como quem já sabia o caminho de desaparecer. Fiquei. E desde então, quando passo por alguém, carrego o medo súbito de também não ser visto.

Reflexo Olha, jovem: esse reflexo na água
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Reflexo Olha, jovem: esse reflexo na água revela as marcas do tempo, memórias gravadas na pele de tantos caminhos vividos. Instantes de alegria, de dor e amor; gestos de ternura, sonhos pacientemente tecidos em silêncio. Ah, esses olhos que hoje ensinam um coração outrora partido, tantas vezes refeito nas madrugadas da vida. Ah, esse reflexo que sussurra: jovem de ontem, homem maduro de agora. E no coração ainda repousam as cicatrizes do tempo, lembrando, à margem, que o amanhã de algum modo sempre encontra o caminho de volta.

Migalhas Todas as tardes uma senhora de vestido estampado
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Migalhas Todas as tardes uma senhora de vestido estampado chega ao banco da praça com um pequeno saco de pão nas mãos. Senta-se devagar e começa a lançar migalhas sobre o chão gasto de passos. Os pombos logo aparecem serenos, platinados, alguns escuros, outros claros caminhando em círculos como se conhecessem o ritual. A tarde passa sem pressa. A luz se inclina nos prédios, e o horizonte começa a escurecer. Quando as últimas migalhas se acabam, a senhora limpa as mãos no vestido, levanta-se com calma e segue pela alameda. Não diz palavra alguma. Também não precisa. Entre o bater de asas e o silêncio da praça, tudo já foi dito.

O que não digo Não te digo o nome. Mas sei:
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O que não digo Não te digo o nome. Mas sei: sentas nos cantos da tarde como poeira que a luz revela. Chegas sem ruído, ocupas o que não vigio um intervalo entre duas lembranças, a pausa antes da palavra. Hoje, não. Abro as janelas do corpo, deixo entrar o que vive: o riso esquecido nas mãos, o calor antigo dos abraços, vozes que ainda respiram no fundo do tempo. Leva contigo esse frio de fim, essa promessa estreita de que tudo se apaga. Fica-me o instante inteiro, indomável ardendo baixo como lume que persiste. E se um dia voltares, que me encontres assim: habitado em brasas.⁠

Algo permanece Não termina aqui. Não pode terminar assim.
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Algo permanece Não termina aqui. Não pode terminar assim. Todo fim carrega a semente de outro caminho: um passo que chega, outro que parte e deixa, em alguém, o silêncio da saudade. Algo permanece discreto, quase invisível um sopro de memória que ainda nos faz bem, como lembrança guardada no tempo. Porque todo adeus abre uma porta adiante. Não termina aqui. Nunca termina assim.

Quintal da memória Uma varanda, uma vila,
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Quintal da memória Uma varanda, uma vila, um corredor comprido. Da janela, um quintal aberto ao mundo. Chuva de verão caindo morna, cheiro de café vindo da cozinha, o leite crescendo no fogão. Brinquedos esquecidos pelo chão. Pai - porto seguro. Avó - doçura de colo. Madrinha - mãos cheias de agrados. Padrinho - passos lentos pelas tardes. Hoje, quando a chuva retorna e o café invade o ar, fica apenas a infância roçando leve as asas da lembrança.

⁠Ponto azul É esfera azul no escuro.
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⁠Ponto azul É esfera azul no escuro. Gira. Tão ínfima, e sustenta bilhões cada qual ardendo por dentro: quartos acesos, vozes suspensas, mãos que se perdem no ar. Tudo pulsa entre encontros e desencontros. E ainda assim cabe inteira em si no ruído mudo deste ponto azul.

Janelas Caminho pela cidade. Janelas acesas
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Janelas Caminho pela cidade. Janelas acesas outras afundadas no silêncio das salas. Alguém atravessa a rua vazia, outro espera o semáforo piscando na paciência da noite. Nos passos apressados quantos carregam o peso do dia. Num banco da praça uma jovem se senta. Chove. Abre o guarda-chuva não é da chuva que se protege. Há uma tristeza fina caindo por dentro. Da bolsa tira um livro. Abre. Fecha. Entre o livro e o guarda-chuva hesita. A cidade segue. E numa janela apagada talvez alguém também agora aprenda a difícil arte de acender ou apagar a própria janela.