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Frases de Naeno Rocha

424 frases

TARDE A tarde estava cinza e feia, Oscilante em seu humor de tempo.
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TARDE A tarde estava cinza e feia, Oscilante em seu humor de tempo. Entre o crispar das folhas sentenciadas, Às sombras ligeiras e ardentes, Iroconicamente posta sob a copa das árvores, Da mesma forma como se concebera fossem, Frias e acolhedoras. Mas aquela tarde era desigual, Uma tarde que veio enfear as outras. Ninguém mais lembrava Que existiam tardes belas, Por causa daquela. Imponderada, indesejável, chata. E todos ficaram saudosos das manhãs, Mas ela insistia em se demorar naquela tarde, A tarde repulsiva e cinza, cinza de resto de fogo, Que ainda fumegava, E prometia ir ao tempo em que durasse o seu tempo, E mais além, Confundir a noite e meter-se adentro.

ACASO Acabo de gritar que te amo E te desvendastes uma montanha vazada
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ACASO Acabo de gritar que te amo E te desvendastes uma montanha vazada Passaram-se minhas intenções, quietas Meus malogrados gestos de amor. Ainda balançam as folhas Essas me amam! Do teu desprezo não tiro nada Nem acresço, por não dispor De um pingo sequer, a por no olho Para que não vejas minha choradeira Voltando a nascente as ilusões desfeitas. E fica cheio meu coração novamente Um coletivo de vexados passageiros. Acabo de falar para o silêncio Que calado assim te amo E a resposta que eu tento Não sai, não se concebe E mais real fica a ilusão Do teu corpo formado de nuvens Singrando o céu inatingível. Procuro por Deus e Ele, calmo Responde-me, fincando na minha alma Que o amor é meu, que o amor sou é eu.

AS HORAS Enquanto passam-se as horas Os dias vão se acumulando despejados,
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AS HORAS Enquanto passam-se as horas Os dias vão se acumulando despejados, Os anos que conto, são por ali separados. Os minutos vão-se como penas ao vento, Deles nada escrevi, não tomei nenhum assento. Enquanto as horas se apressam, Eu junto tudo com lentidão. Tudo quer estar disposto em seus lugares. A minha cadeira de balanço O pêndulo onde eu tenho montado Contando horas, Contando tempo, Contado dias, Remando com o pé nos pedais, Indo contra e a favor das marés E o que passa, que eu conto, Ninguém vê, nem sabe o que é, A ânsia da espera, o medo da cara aberta, Cabelos que não sei a cor, Olhos, que imagino claridade. E a minha idade, alguém contou, Todos os segundos E a hora por chegar... Por que contaram de mim Assim, desanimado?

BICHO Chamamentos de amor pelo silvo Deixa o coração em polvorosa
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BICHO Chamamentos de amor pelo silvo Deixa o coração em polvorosa Ficam os nervos de flor em pele Com as mãos estiradas, em oferta. Uivos de amor, quando é saúdo Um cio de ardores pelo olhar Um raio imprevisto, um pasmo De não se querer acordar. Amor será te amar, vitória! Ou se volta a mão sem nada Ou se fica aí por dentro Latejando desarmado. Quais das feras, a mais temida, A onça no seu grunhido, O cravo no escuro sumido, Quem mais te bota medo? E quem mais tira Da nossa coragem inconsiderada Dos nossos jeitos arquétipos, Terá um mais presente e omisso, Mas à mostra e invisível, Que o amor. A dor que queima e abrasa, Um ferino que não cala A ponta perto, o arpão. ________________ naeno

FOMOS Éramos dois donos dos mesmos sonhos, Éramos de nossa mesma luta diária,
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FOMOS Éramos dois donos dos mesmos sonhos, Éramos de nossa mesma luta diária, Éramos de amor, uma grande colônia, Que se refazia nas noites por mãos solidárias. Éramos de pão e vinho, de um Deus que se doara, Éramos como a flor e o espinho, ali chegados, Eram nossas dores partidas ao meio, choradas, Eram nossas as mesmas lágrimas, que nossos olhos molhavam. Éramos como mãos seguras no mesmo cabo, A força depreendida, o que realizávamos, Do estampido amor, dínamo, do tempo arado, Fomos os plantadores dos primeiros ramos. Fomos até hoje crepúsculo, e manhã nascente, Somos complacentes das dores que passam os outros, Somos com a faca e bainha, que se cabem, A não deixar espaço, e somos o ferro e o couro.

AMOR Difícil falar do amor. Ele fugidio, abstraído, confuso
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AMOR Difícil falar do amor. Ele fugidio, abstraído, confuso Um nome dado a um sentimento Sintomático da Silva Dos sobrenomes todos da vida. E de que forma este vulto toca na gente Acompanhando a multidão dos tristes Na legião dos rebelados Rompidos a sangue e fogo Com suas práticas sentenciadas? Difícil dirigir-se a ele Pairar sobre as montanhas Às vezes ir muito além E gritar por muitos nomes Até que se explane o nefasto A má obra, peça inacabada E como se anunciarão seus dentes O seu semblante como se verá? Algo deplorável, compassivo à dor. Desconfiável, improvável que assim se mostre. Achegando-se como uma presa astuta, Pulando de galho em galho, irritadiça Fazendo caras e bocas, brincando à toa De nada ouvindo, tudo calando, O amor vem das visões de barcos, Em pleno mar, que ora aparecem, Ora escondem por trás das ondas, Em descompasso, com os olhos turvos Que sobem e descem desesperados. ______________ naeno

AMAR Amar é fogo de onde se tira brasas. Amar é um desejo de ser despejado
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AMAR Amar é fogo de onde se tira brasas. Amar é um desejo de ser despejado Acenar aflito à condução já atrasada. Amar é pender de um lado, E do outro desapoiar-se Amar é dose, tirada da boca aberta É ímpar, o primeiro numero. Amar é dar a cara dos dois lados, A moeda que não cai em pé. Amar é armazenar amor, Amar é algo provocador Que não se contém, como dor, Uma vontade de ser doador, De sangue de amor e flor. Amar é da primeira pessoa, É transitivo a ela, e só. Amar é querer conjugar, colar ou meter-se, Dentro e fora. Fora e dentro, é amar. __________________ Naemo*com reservas

QUISERA Quisera dormir um sono solto Encabrestado
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QUISERA Quisera dormir um sono solto Encabrestado Seguro em minha própria crina E resvalar nas nuvens Como ave leve No levante do dia. Ser teu amor nesta quimera E cogitar sonhos na primavera Vendo jardins inteiros Entregando-nos roseiras, De puras flores, De vida e cheiro. Caminharia contigo até Nos cansarmos com o dia, E que ele pedisse uma parada, E nessa distância Fosse algum atalho Rumo dos mesmos pontos De onde houvesse largado De tua mão a última ponta de dedo, Uma vontade de não querer ir. E nesse engano voltasse a partir Pro mesmo sonho, a minha vida.

PARA COMER NA ESTRADA Eu sinto ser um pedaço de Deus E Ele um todo fragmentário,
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PARA COMER NA ESTRADA Eu sinto ser um pedaço de Deus E Ele um todo fragmentário, Me sinto um tanto de semente guardada, Um pouco de esperança nas chuvadas. Me vejo como um fio de água escapada, Um sonho que se esquece, na madrugada, A vontade insana pela paz, isolada, E às vazes me sinto assim, Como se fosse nada. A gente vive pelas ordens de Deus, E em se transgredir esses assentos seus, O mundo muda, a gente passa a ser, Um tronco solto, uma raiz já morta, Um fio seco, por onde a água não se entorta. Um solo infértil, uma beleza feia, Por diferentes vertentes correm nossas veias, E não resiste o sangue, o coração se seca, Porque em tudo Ele, se nos dispõe e tira, E bota. Aqui foi o bom lugar, E é ainda de se ficar, mesmo sonhando, Sonhando e não vendo os rostos, Comendo e não sentido o gosto, Amargo da sentença arbítrio O livre consenso a que chegamos, Cépticos, sem braços, sem nada, Sem olhos, sem luz, Às vezes me sinto um pavio escuro, Uma lenda antiga que não se passou no mundo. Deus que continue, a acharmo-nos ignorantes, Que ele mesmo cuide dos tempos avantes.

PICASSO Quem observa a invenção de Picasso Ver linhas, curvas, traços, compasso.
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PICASSO Quem observa a invenção de Picasso Ver linhas, curvas, traços, compasso. Sente a ligadura de pontos, a largura Do corpo desproporcional e ver algo Incomum na terra, uma paz desenhada. Ele como que escancara o consciente Mostrando à vista o inconsciente Pelos homens tão temidos, uma aquarela. Quem ler Picasso ver a genialidade Comum dos escolhidos e sente a dimensão farta Do juízo agoniado pela maldade. A idade da razão soterrada no alvoroço Ou a comoção manifesta ao coração, Como se não fosse ele, mas dele toda a razão. Quem determina o caminho Por onde se esvai os pincéis, é Picasso E por se saber, foi o que foi, é o que é Um gênio que ainda não foi enterrado Posto que ainda não morreu E certamente nunca morrerá. naenorocha

NUDEZ Belo o teu corpo absoluto, nu. O que não te revelas, despida,
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NUDEZ Belo o teu corpo absoluto, nu. O que não te revelas, despida, Vê-se forma a beleza mais nítida, A cor do teu olhar, de extremo azul. Linda quando andas displicente, Sem perceber que no teu redor, Choram por ti, todos os olhos cheios deste pó. Um alucinante vestígio que escapa, Como uma réstia de luz no telhado, És assim, a gota, o tudo que faltava, A transbordar as taças dos embriagados. Belo este teu corpo sólido, imenso, Em consistência e beleza cândida, Que nem a lua num fogaréu de incensos, Se tem mostrado, com o apelo, lânguida, Fosse eu teu um protetor de luz, Me postava em riste, em tuas posições, Sombreando a pele, que a mim seduz, E te revelando tudo, todas as emoções. _____________________________ naenorocha*comreservasdedomínio

AMANDO Ontem as vinte e duas horas e quarenta minutos Horário oficial de Brasília
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AMANDO Ontem as vinte e duas horas e quarenta minutos Horário oficial de Brasília Eu estava ardendo em febre, suando. E na tiragem dos meus ais contados Uns vinte e tantos mil, falei, lagrimei Aos teus ouvidos. E de febril, o meu remédio Tomei por tantas horas, em tantos goles Até me embriagar e cair sobre o teu corpo. Amando-te libertino, suei A febre não passava Passavam-se tempos recorrentes Já pela madrugada, ainda eu te desejava. E pela manhã, eu te ordenhava À hora da voz do Brasil Em meu delírio, uma poldra branca De crinas alvas e esvoaçantes Carregava-me sobre seu dorso. E eu galopei por mais dez horas Sobre um leito de areia fina. E nas esquinas por onde andei Espantava-me o medo, de cair Por tua cabeça, Quando te inclinavas a me beijar Fazendo. Aproximadamente Um tempo impreciso, imenso Sem que o espólio se cruzasse. Eu seguro na tua crina E nos meus flancos te segurando

MEU AMOR ME CURA O meu amor não se limita No seu alimento derramado em mim
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MEU AMOR ME CURA O meu amor não se limita No seu alimento derramado em mim Quando regurgita palavras e sussurros Que me deixam quieto A não depender de nenhum calmante. Assim dilatadas todas as drogas prescritas Nas suas doses diárias Como indica o terapeuta. Ele me trás a lucidez, na paciência. E na força como age Quando se verte-se em meu sangue E vai, mais hábil, e limpa mais As lembranças dos meus transtornos E chega mais rápido e facilmente Ao meu sistema nervoso central. Meu cérebro já se acostumou Às doses do tratamento E a elas dá a devida passividade De nem notar-lhes quando engolidos E se alvoroça, no tempo em que relaxa Quando vê meu amor chegar. E as demoras do meu amor Já se tornaram maiores Que do vinho que tomo de infracionário gesto Do médico condena a mista das afentaminas, Dos antidepressivos, dos papéis de seda Colocados diante aos meus olhos Que mudam a visão do mundo. Que me melhoram e eu aceito o degredo O meu sumiço em terra estranha. Cada cor é uma estampa colada ao lado de outra Mas a cada presente de cada presença sua O meu amor me conforta com a força que tem E eu sei, com a visão mais clara O meu amor, só ele basta Para eu me sentir muito, mais, bem. __________________ naenorocha*comreservas

BULIÇOSO Na calçada o vento ler os meus poemas, Numa velocidade motorizada.
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BULIÇOSO Na calçada o vento ler os meus poemas, Numa velocidade motorizada. Além do que meus olhos podiam acompanhar Exposto agora estou, A tantos quantos ele segreda, Saberão dos meus delírios, minhas frustrações, Meus rompantes de amor. Todos saberão que não ando feliz E itso me faz sentir uma revolta num repente, Resultando numa indignação maior Do que uma violação na carne. Eu cá comigo guardava os batimentos Dos meus versos. O vento entorna, e mais interessado Volta a reler meus papéis E comenta, me condena. Eu ouço, no vai e vem incontrolável Das dobras nas páginas marcadas, Acentos, riscos, abalizados De onde suponho o meu distrair maior, Aonde acredito haver Algo que me comprometa Pelos meus incógnitos pensares Que o vento não traduziu, Partes pequenas que a ele bastou Para agarrar-se a mim, No desejo de entender e dizer De um pobre poeta, De gramática, Só, verticalmente estático. Naeno*com reservas

REZA Puxo ou não puxo a ladainha extensa, Sem que a pretensa vontade de ganhar,
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REZA Puxo ou não puxo a ladainha extensa, Sem que a pretensa vontade de ganhar, Apareça em letras, formas. Que apenas Aconteça um fato, algo pra se calcular. Baixo ou não baixo a litania das chuvas. Não que se deseje água ou coisa assim Apenas um ritual que a alma saúda E sempre se espera tudo isso de mim. Desço ou não desço o terço que conta Uma extensa estória de aves! De Santas, de DEUS No começo e também na ponta.

ENTENDER A VIDA Quando tentamos entender a vida Nos arriscamos ao precipício de uma estrela cadente
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ENTENDER A VIDA Quando tentamos entender a vida Nos arriscamos ao precipício de uma estrela cadente Que perde o seu rumo E caminha no escuro Perdida a luz das outras Que ainda reluzem, mas já distantes. Quem ao olvidar saber de si Lembrará a convicção do alheio Da vida de outros, quem? Mergulhado em seu mar difuso Encontra o sentido que os outros navegam? Sabemos de nós, Mas não sabemos do nada E é o nada que somos Quando convictos disto Conseguimos avistar uma fresta Ainda incapaz de caber nossa visão Somos esses passageiros sem rumo Ciganos do cosmos estrelas desgarradas Ora estamos em nosso perfeito sentido Quando julgamos errantes Momentos depois dentro da vida Nos convencemos que ela engana.

PROCISSÃO Empurro o tempo com a barriga, E será mesmo assim,
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PROCISSÃO Empurro o tempo com a barriga, E será mesmo assim, Que se conduz o andor tão delicado? Não os paus nem a mão da fortaleza Mas a imagem frágil da Santinha. E aonde é que vai dar A procissão comigo à frente, Se daqui pra trás é que minha alma tende. E deixo dia frouxo pra correr, De mim que bulo em nada, Nem sou incriminado por um exagero. Santo leve que aos paus se engancha, Se a correnteza for, como não espero, Medonha. Ligo os meus pensares numa linha tênue Que faz que me liga Mas à ponta pende, Meu corpo monstruoso, indelicado espera, Não me preparei pra morrer na véspera. E sigo e toco e vou apartando o povo, Procurando à frente, o que deixei atrás. A na discórdia dos corpos do espaço, Perco o meu provento, Me perco do tempo, Que já empurra com sua frente larga, Do meu pé não deixa, Minha vida não larga.

CONTIGO Qualquer dia, qualquer, Que seja coberto de nuvem,
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CONTIGO Qualquer dia, qualquer, Que seja coberto de nuvem, Ou que o sol se alastre na terra, Ai, amor, contigo eu gosto. Qualquer pranto, qualquer, Que seja gerado em teus olhos, Por esta paixão que se vê, Ai, amor, a vida entorna. Como ficam lúbricos, Meus olhos quando te vêem, Quero chorar mais ainda, Quero chorar, vida inteira. Como são de vida, Sinais que vem dos teus olhos, Hei de viver muito ainda, O amor de Rosane, me consola. naeno

CANTO Alguém cantando é como estar falando Ao mundo inteiro por um sopro penetrante.
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CANTO Alguém cantando é como estar falando Ao mundo inteiro por um sopro penetrante. Sua voz se espalha, harmoniosamente, Como uma bruma a cobrir a natureza Deslizando na pauta serena Na versão melódica de suas palavras. Um jeito que, quando se comanda, Do modo usual, de palavras, não se ouve assim. Cantar é uma versão da fala, a de encantar. Quem canta quer se ouvir chorando e rindo, Não espelha seus gestos, a sua boca, não cita Palavras comuns. É como se outra língua pronunciasse, A letra que se pusesse o canto, e se molhasse o pranto, Gota a gota, palavra a palavra, gesto a gesto. Porque é o tom e o som que as palavras ditas emitem. Quem canta, mostra o coração, uma caixa ressonante, E não é só a boca que externa palavras que podiam ser ternas, Que em sinais se transformassem. Rezo a que todos cantem, que em vez da fala seca, Palavras com as mesmas letras tenham esse soar ameno, O canto, a oração que a alma faz, no seu melhor: Furando ondas de obstáculos à palavra, E mais direto a Deus, sua presença se faça chegar. Cantar não é um dom que só alguns têm, Como falar. É comum também ser melodia, todas as letras, É algo possível, e dado a qualquer um fazer. Quando as pessoas descobrirem, Que o canto, diferente da fala e gesticulações vãs, É o dom natural dos passarinhos O mundo seria um coral sem fim, um louvor, assim Como fazem os anjos reunidos em todo entardecer