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Frases de Naeno Rocha

424 frases

PECADO Apedrejem esta criatura culpada de todo o azedume de nossas vidas, Foi ela quem ardilosamente tramou com os espíritos nossa descida.
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PECADO Apedrejem esta criatura culpada de todo o azedume de nossas vidas, Foi ela quem ardilosamente tramou com os espíritos nossa descida. E que nas noites em que dormíamos sonhando com as rosas Foi ela quem lançou a praga irretratável e todas vimos fenecidas. Lancem-na mais à frente, no meio dos condenados da inquisição, É ela um ser disforme que sob a blasfêmia se cobre, E nega a Deus, e dos prantos seus, nenhum tem o gosto da lágrima cristã, Reneguem os seus feitos que por seu tempo já o bastante pra chamar-se cobra. Eis o que destila a sua boca curta, os seus lábios úmidos, seu andar disperso, E nem aprende a fala, dos nomes se esquece. Como entrega-la o nosso destino, Se de queda em queda ela não tem calos, e o que pronuncia ninguém dintingue. O que logramos em esperar por ela, ainda por pintar-se, uma branca tela. Talvez se acerte em isolá-la longe, e nos dias vindouros, vemo-la de novo. Se o azar cessou... Era só uma criança. Alguém diz claridade do dia... no escuro, vela.

MULHER Um dia para se homenagear as mulheres é muito pouco. O ano todo é insuficiente. Porque todas as horas de todos os minutos de todos os segundos de cada dia, ainda é pouco. As mulheres, do ser bipolar criado por Deus, é o que mais se destaca pelas suas peculiaridades, que o…
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MULHER Um dia para se homenagear as mulheres é muito pouco. O ano todo é insuficiente. Porque todas as horas de todos os minutos de todos os segundos de cada dia, ainda é pouco. As mulheres, do ser bipolar criado por Deus, é o que mais se destaca pelas suas peculiaridades, que o mesmo Deus, em sua caprichosa ventura, quiz fazê-las de uma alegoria própria. A angelical figura, aparentemente frágil, mas que por dentro é uma retroescavadeira. Uma flor que pega com cuidado para que suas pétalas não se esvaem com o vento, ou com um tropeço de quem a carrega, mas que tem no seu cerne, bem cravado e fecunda a semente capaz de propiciar a visão de um jardim completo. Uma pluma que ressurge sempre, com o movimento do vento da fronde das árvores mais altas, em queda leve e vagarosa, pra onde acorrem todas as abelhas, sabendo estar ali o mais puro e rico néctar. A beleza, que se insiste vermo nas faces e no seu corpo escultural, mas que habita mais nos seus mais profundo íntimos. Uma canção que se canta de olhos fechados, presumido parado, que se anuncia o mais forte das horas, o mais significativo, do que vemos sonhando, todo o tempo. Uma ave pequena de canto encantador, multicor, que ao ouvirmos nos arrepiamos pela excentricidade e beleza, que quando abre o bico e entoa o seu canto abençoado a terra se enche, repleta, de sua presença. E quem não presta atenção numa mulher. Todos prestam. Até umas às outras, porque o orgulho de uma, sabedora do que é, do seu papel no mundo, silente, mas sabedoras de que podem mais, realizam mais, fecundam, procriam e dão o mundo outro ser, que, por, seu ventre abençoado, seria incapaz o mundo, os homens, as inventividades, falar em beleza, cortejar-se, enebriar-se, morrer de amor. Algumas peculiaaridades Deus deu às mulheres além do que dotou aos homens. No entanto, essas tais desvirtualidades se contadas passaríamos nossas gerações sem vê-las. Mirando, ajoelhados uma Mulher. Mulher ainda é e sempre será. A rima certa para fé. Pois enquanto houver uma, e isso não se acaba, dado partir delas o pólen, passarinho à flor, o que é uma garantia do prosseguimento da vida. Falando em vida, jamais de morte, é a mulher a dona da vida. Que nunca se julgou, mesmo em assim sendo e tendo a consciência absoluta de que partiram de seus ventres os lacaios, os homens pacíficos, os profetas, os santos, os anjos, o gladiadores, Jesus Cristo, os ditadores aberrantes, os camikases, os inventores da guerra, e os protagonistas da Paz, como Mandela, Martin Lutter King, Ghandi, e outros tantos santos vivos que andam por aí. Ela nunca provou da guerra da discórdia entre os seres humanos, a não ser que lágrimas sejam armas, que saudades sejam espadas, que curativos sejam açoites. Mulher um ser acrescentado, de virtudes, que o homem não tem, de uma capacidade de amar e orientar por caminhos bons esse amor que lhe é natural, instintivo. Que se alegra ao receber uma flor, sabendo que acolhe a si própria, e se mostra alegre, para não tirar dos homens o mérito, que é um engano, que elas preferem uma a visão dos seus que, à um beijo, um afago, um elogio à sua beleza. Bem-aventurada a mulher do mundo, porque todo mundo é dela, como todos os dias que passamos nele.

RENASCIDO Se eu não puder nascer de novo, Que eu seja então renascido,
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RENASCIDO Se eu não puder nascer de novo, Que eu seja então renascido, No meio deste mesmo povo, Que eu não tenha esquecido, Das visões altas do céu, Das verdes campinas, remido. E que nas minhas lembranças, Não contem as visões da ida, Só as palavras ouvidas, chama A contar à minha vida, Que nunca mais me desengana Nem de mim entristecido. Que o doce inflamar dos dias, Sejam por mim festejados, E as flores onde vá a mão, Eu possa todas beijar, Um beija-flor, que por seu bico, Eu tenha sido muito beijado. Quero ruminar o gosto, Sentir todas as frutas, Comer as que dão do rosto, Trazer guardadas as maduras, Ser uma estampa, bem posto, No meio do mundo, moldura. Sentir o que não senti, Não a dormência das mãos, Não a permanência sem ti, Não a tristeza vã, Não a ausência de mim, sentir Beijar tua boca romã.

SILÊNCIO BREVE Eu nunca vou dizer que te amo Porque sei que o tempo urde
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SILÊNCIO BREVE Eu nunca vou dizer que te amo Porque sei que o tempo urde Contra mim, que te conta Como dele. E eu sou um operário calado Uma abelha que não zumbe Mergulhado todo na flor, Darei-te o néctar que encontrar, Isso eu te dou, Porém minha palavra não ouvirás. Não que a mantenha num calabouço. Desnecessário é repetir o que é. Tantas vezes disse, E tanto sei, Que me investi assim, calar, Não mais dizer que te amo.

PRECISO DE AMIGO Preciso de amigo Diverso, ante a apatia dos que exercitam o mal
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PRECISO DE AMIGO Preciso de amigo Diverso, ante a apatia dos que exercitam o mal Confesso no reconhecimento de que somos iguais. De sensato argumento explícito nos olhos De que não viramos janta de canibal. Preciso de amigo, que ao me saber triste Não se fixe em apenas compartilhar dessas lágrimas. - Que eu mesmo posso enxugá-las -. Que seja atento a outras desventuras, sintomáticas Como minha mão gelada E a taquicardia que me retarda o ar. Que nos abraços que viermos trocar Oculte, com discrição,os batimentos do meu coração. Que me faça acreditar nessa máxima: - Somos guerreiros do mesmo Deus Que Ele dos seus lugares insondáveis Nos olha com seus olhos de proteção e amor -. Porque é bom ter notícias de Deus sempre. Que me oriente na virginal procura de mim Estradas dos meus pesadelos, de ofensas vãs Da mesma dor, igual. Que não concorde quando eu culpo a vida Por não haver sido gentil comigo. Mostrando-me o caput do poema Onde fala de que todos somos naturalmente iguais. Eu preciso de amigo que nunca recitem O poema das “rosas predestinadas.” Preciso de amigo que me escreva vez em quando. Preciso de amigo que nos lugares ermos Fique a mostrar-me passarinhos e flores Como se nunca os tivessemos visto. Como se fôssemos divididos, em homens e mulheres. Preciso de amigo, que, se lhe pergunto Com toda a infantilidade, ainda em mim Ele feche os olhos, em gestos de esforços E me pronunciem, com o lume aberto do dia: - Qual das montanhas que contemplamos, Qual julgas ser a mais, bonita e imponente? E eu sem poesia lhe dissésse: Foram tantas... Mas duas mais me encantaram: Duas negras montanhas, que sombreavam à nossa frente. Quando andávamos e o sol desenhava à frente, Duas colinas bem assentadas, que se abraçavam. E nos acompanhavam e se moviam com nossos movimentos. Eu ainda preciso de amigos.

AMO A NOITE Eu amo a noite, por que à luz inexistente, Tudo tem forma e nome de gente.
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AMO A NOITE Eu amo a noite, por que à luz inexistente, Tudo tem forma e nome de gente. E eu amo toda gente. Como amo os animais, pessoas descendentes, Do mesmo olhar, vitral, Alguns de modos complacentes. Eu amo a noite, não por ti Que deitas em meu leito displicente, Não pelo o amor, Amo por que a noite muda meus olhos. E eu não vejo no mesmo lugar Os mesmos tristes pensamentos. Amo a noite, não por ti, violão Que ao meu regaço, sentimental Põe-me a cantar para as estrelas. Amo a noite pela calmaria que tudo faz, Que tudo passa, para ser no dia Gestos esquecíveis, Tempos retomáveis da minha infância, Onde o medo ainda vive quieto. Risonho e ofensivo, um algoz. Eu amo a noite e não detesto o dia, O dia de fazer, de pegar os quilos, De morrer daquilo... Eu amo a noite porque nada há E por seu silêncio expor, Nem um burburinho , nem sinto, As batidas tortuosas do meu interior

ACASO Acaso esquecestes as mãos Que te abençoavam do regaço à boca.
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ACASO Acaso esquecestes as mãos Que te abençoavam do regaço à boca. Nutrindo-se do pó da pele Que o teu corpo quente espalhava E lhes revolviam o vento. Acaso esquecestes o dorso largo Do benfazejo amor Que te conduziu onde bem quisestes, Às estrelas lá no seu cume, A lua no seu retorno. Quem te apontava o céu e não te deixava solta, Enquanto não chegava a aurora. Acaso esquecestes das noites mais turvas, Dos olhos sem rumos,dos braços laçados Por te bem querer. Acaso não lembras o nome,sequer os traços do rosto, De quem te amou com o gosto, de quem come a fruta Que mais desejara.

Como Sou Sou, como sou, poeta Vivo numa linha reta
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Como Sou Sou, como sou, poeta Vivo numa linha reta Num paralelo de mim. Vou, como sou, sozinho Um rio que não se encontra Que faz a curva no estio E se deságua na sombra. E eu sou igual a outros Atordoados, despertos. Que vêem o céu refletido E acham a lua perto. Sou como uma saudade Carícias na minha idade. Eu gosto do pranto De ver chorar.

NO MUNDO Quando eu sair pelo mundo Assobiando essas cantigas
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NO MUNDO Quando eu sair pelo mundo Assobiando essas cantigas Que por amor aprendi. Andando por caminhos ermos Entre os cupinzeiros demarcados Entoando os meus delírios Que no meu violão arpejo. Quando eu andar pelo mundo Chorando dessas cantigas Silvando, que pássaro serei? Aprendendo com a falta dela Eu acho até que mereço Contar por meus sofrimentos Em lugar nenhum ainda dei. Ficando eu pelo mundo Lembrem de mim como eu sou Um passarinho roçando o rosto Nos galhos molhados da chuva Sibilando um canto lindo. Lembrem de mim na canção Não me tomem por assombração E terá doído mais um desgosto.

DEPUS Minha alma são cartões postais De amor explícito
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DEPUS Minha alma são cartões postais De amor explícito Varais de panos coloridos Ou quintais de milho verde. Mas sei perfeitamente quando penso Que quem me põe feliz e aventureiro Pode me elevar aos ares de repente Voando com as asas de mim mesmo. E em meio a todo o caos desta história Eu sei perfeitamente quando vivo. E vou morrer berrando Urrando pela boca das palavras. O que me toma o tempo E me constrange São as relações dos homens Com o salário A relação dos bois com o matadouro. O que me seca o jarro de acácias Amarrado num gesto inútil. Mas você é uma quitanda exposta à Ilha Onde amanheço E volto pelo avesso Com a barriga cheia de sorrisos. Um anjo, louca das profundezas do paraíso Das cavernas dafelicidade, amém

JUIZO Dos homens ardilosos e tristonhos Sou eu o que mais perdoa.
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JUIZO Dos homens ardilosos e tristonhos Sou eu o que mais perdoa. Me apena os olhos escanteados Dói-me a ferradura batida a martelo. E quando o mártir não sou eu Retiro os óculos e limpo a fronte Para que vejam que não é pelo meu nome Nem pela minha honra que enxergo. Vejo por quem choraminga num canto longe. Aplicado nos mandamentos dos assentos Dos islãs, da Bíblia, das cartas de Maomé. Dou como prêmio aos homens infratores Um aperto nas mãos de ver sangrar A piedade deles, em cálido gesto E imputo a mim o rebaixamento no regresso. Não me valho do posto de anjo sacrossanto, Das vias que pisei, de pura lama, Não, não abro o livro que escrevi na vinda, Nem levo a risca os perigos que corri. Mas um desafio, à minha alma pequena imputa, O de ser bufo, o que faz provocar riso. Quem vê escolhe entre mim e outros, E de todos, até eu, sou escolhido. Sou entre os anjos o que se perpetua na terra, Um desatado, um homem em completude, E a sentença que se anuncia é rude, A ela deixo suportável, mansa em tudo. Não matarei por cordas pêndulas. Não esgarçarei por lâminas involuntárias, Não permanecerei muito tempo em volta Daquele que já foi, e até pode reincidir, Nas maledicências, no desejo solitário, Na liberdade que a mim foi concedida, De fazer na vida, o que não na morte, onde Poderei nem ver e ser cético, calado, morto.

M O I S É S Progressivamente o silêncio foi tomando conta do mundo, onde caminhavam com passos leves aqueles itinerantes que já procediam de vários lugares do mundo, e tinham passado pelos mesmos pontos, para de onde estavam, davam. O guia sumira do meio de todos e tomara a part…
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M O I S É S Progressivamente o silêncio foi tomando conta do mundo, onde caminhavam com passos leves aqueles itinerantes que já procediam de vários lugares do mundo, e tinham passado pelos mesmos pontos, para de onde estavam, davam. O guia sumira do meio de todos e tomara a parte inclinada do cheia de cratera, do lado direto, que já fora confundido com o mesmo lado esquerdo em suas voltas atormentadas. Todos quietos esperavam o retorno de Moisés, que fora ao encontro de Deus, se atualizar de novas instruções, de como deviam ser guiados a um lugar completamente distante e cada vez ficando mais e mais longe. Uns variavam e juravam que aquele ponto onde estavam assentados para aquele resto de dia e a noite inteira, ele já conhecera nas tantas voltas que Moisés lhes impusera darem, para que se cumprisse o tempo determinado por Deus que durasse a caminhada. O que se considerava era o tempo não o vão caminhado. Mesmo que tivessem de dar várias voltas no mundo. O homem haveria de purgar-se dos seus erros, de suas de atos e coisas, so que Deus abominava. Por isso agora lhes castigavam duplamente. Todos estavam mais velhos, alguns mal conseguiam trocar um passo, outros nasceram e cresceram na ambulante e não sabiam ao certo como era o mundo que alguns lhes tentavam fazer entender. Para eles o mundo era uma gangorra sem controle, que nunca lhes davam parada para descanso e que o descanso que teriam seria o daqueles velhos lá de traz, chagas e poeira por todo o corpo. Falta de forças, voz rouca e só provavam do maná de Deus, por alguém sempre lhes trazerem, ordens expressas de Moisés. De repente Moisés aparece por entre os blocos de barro, descendo com pouca habilidade, enquanto alguns abaixo, ficavam, muito ansiosos, fazendo os gestos que era para ele fazer lá encima, como que lhe ajudando a descer. De uma escorregada final, que levantou muita poeira, Moisés saltou no caminho plano onde se encontravam os outros, em condição de miséria. Havia uma ala já praticamente dissidente de Moisés, que lhe lembravam, da preocupação que tinham, porque Deus só se preocupava com o maná. O leite e o mel. No entanto, diziam, que não haviam ainda visto por parte de Deus a preocupação com a saúde, o estado de ânimo de nenhum, e isto lhes deixavam em condições de desproteção, uma vez que nem só de comida vive o homem, expressão que Cristo viera a utilizar muito mais à frente, mas essencialmente da palavra de quem da boca de Deus. E Ele não lhes falava, não lhes aparecia, e havia uma distância muito grande entre a fila de desertores e o seu Deus. Muitos já ficaram abatidos pelas intempéries do tempo, pelos malefícios dos esforços repetidos, das dores sentidas dentro, muito profundamente. Moisés se recompunha, pegara das duas bandas de uma laje que havia se partido na queda final do guia. E lá, estampado, de forma clara e magistral, uma forma de pena para aqueles coitados. naeno*

SUBMARINOS Esta noite me encontrarei contigo na solidão dos corais Onde o ímpeto da vida nos resgatou pela mão.
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SUBMARINOS Esta noite me encontrarei contigo na solidão dos corais Onde o ímpeto da vida nos resgatou pela mão. No mais alto das redondas luzes em concha Uma dançarina de desfolha. Os sonhos da tua infância Se mostram das bocas das sereias. A notável borboleta azul no fundo do mar Que só nasce de mim em mil anos Adeja em torno a ti para te servir Mostrando-te o espelho em que a água se vê E os frágeis peixes amarelos e vermelhos Passam penteando os teus cabelos Te servem o líquido que adormecem os nadadores. Mergulhamos mais fundo sem um medo Pelas fundas regiões onde dorme o veleiro, À espera que o irreal não se levante com a aurora Sobre nossos corpos que retornam às águas do céu.

JARDINEIRO Um homem que em tudo vê flores Vive num alqueire de jardim
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JARDINEIRO Um homem que em tudo vê flores Vive num alqueire de jardim Limitado mundo de suas cercas Sem saídas. Há uma entrada que dá para casa Que ele ignora, fácil o cheiro das Paroaras. Ágeis espinhos que por ele choram. Já se acostumaram, jardineiros Já são amigos pela vida inteira. Amigos não se larga ao léu Quando a casa que ocupa, sua mágica Fica logo ali, encostando pela porta Pra dormir quietinho, E pensar sozinho, Rimas comuns de cantigas velhas Que sempre o acompanham, Quando se esquece das rosas Do mutirão de sauadades Povoado de sonhos, de insinuações De que tudo corre para os seus braços. Abarrotando de cores e bálsamos. O homem rente ao paraíso Que, numa provação, antes da terminante chegada Cultiva outras vidas, dentro de si Amoldado na areia, É outra roseira que está pra surgir.

DISTANTE De longe sei vou te amar Na contada distância
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DISTANTE De longe sei vou te amar Na contada distância Onde o amor é ficar E a vontade uma instância. Deste lugar cativo Onde a vida se encurta Tudo é de eternos vivos E os meus olhos me assustam. Quem precisará saber O meu tempo e sofrimento A flor que eu quero ter Outra tortura, outro tempo. E nas colinas deixadas, A lua passa e se esconde E eu lembro, distanciado. Estais com todos meus sonhos.

MEUS OLHOS Meus olhos não dão conta de vêem O tanto de silêncio ajuntado
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MEUS OLHOS Meus olhos não dão conta de vêem O tanto de silêncio ajuntado Encima de tudo, camada espessa, Massa profunda, cheiro sem cor. Meus olhos não cabem a visão Dos teus, simulação de vertigem, Porta fechada, desabrigo, Corda fornalha, os meus tição. E não dão conta da claridade Luz de eletricidade, Sem tamanho. Nem choram o tanto dos teus, Lembrança que me faz tentar, Um choro, um pingo... Não sai. Meus olhos não são do mesmo tamanho Da solidão, sol a pino, Quando de um galho de cima Um passarinho me lembra A calma do teu amor, A lentidão do teu beijo, O interesse regressivo, Por ti, que já contei em resposta. Por mais que eu abra os meus olhos Tentando a visão do que sei, Envolto em mim, passeia e queda, Não, em altura, em largura Em comprimento e fundo, Eles decifram a visão do mundo compacto, Que minha vida é. Um alqueire, talvez menor, Uma testada, talvez, menor, A casa dos anões, talvez menor, Mesmo em sendo, meus olhos, Ainda são muito menores.

CHEGADA Apeio do caminhão de paixões e sonhos Possivelmente conduzido por Deus.
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CHEGADA Apeio do caminhão de paixões e sonhos Possivelmente conduzido por Deus. Senti uma tristeza cobrindo os telhados As cigarras tecendo a tarde murada O trovão quietou as cordas do piano. Aparece repentinamente o arco-íris Pacto aleatório entre Deus e os homens Sem a confirmação da benzedura divina Paira sobre os apenados, mendigos, marginais Sobre os desenganados tristonhos.. De todos os cantos de mim Rebenta um dedo terribilíssimo a me apontar Porque sem os notar não faço conta Das sobras terminais do mundo. O céu agora se transfigura, em branco puro. Céu pintado, que escorria tinta. Céu sempre futuro e desesperançoso E como são necessários Estes sofrimentos de planos desiguais. E do que mesmo eu me lembre? Só destes puxados caranguejos da vida. Naeno

SEI DE COR sei de cor cada traço do teu rosto, do teu olhar
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SEI DE COR sei de cor cada traço do teu rosto, do teu olhar cada sombra da tua voz e cada silencio, cada gesto que tu faças, meu amor, sei-te de cor sei cada capricho teu e o que não dizes ou preferes calar, deixa-me adivinhar não digas que o louco sou eu se for tanto melhor amor, sei-te de cor sei porque becos te escondes, sei ao pormenor o teu melhor e o pior sei de ti mais do que queria numa palavra diria sei-te, de cor.

FAROLEIRO Eu faço versos como quem Num farol, um plantonista,
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FAROLEIRO Eu faço versos como quem Num farol, um plantonista, Vê o céu muito além E perto de mim uma vista. Se vestem meus versos de espumas, Uma nudez quase mostrada, E os barcos que olho enfumam Suas velas na alvorada. Quanto mais claro vejo o amor, Quanto mais densa a letra escoa. Amor tem de ser motivo, uma dor. Quanto mais turvo olha-me o vazio, Mas me transformo em amor, Meus poemas são desvarios.

O TEU OLHAR O tu olhar tem a mansidão do dia Nas derradeiras horas do poente
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O TEU OLHAR O tu olhar tem a mansidão do dia Nas derradeiras horas do poente Amarelando o céu de repente À beira do abismo de uma note fria. As horas passam vagarosamente Em teu olhar onde mora a nostalgia De um fim de tarde pleno de poesia No qual o sol recolhe-se cautelosamente. Em teu olhar agoniza o segredo Que o silêncio esconde e guarda do teu medo. Como se o resguardasse sua própria sorte. São teus olhos ternamente enamorados Carinhosos, tristes, brilhantes e apaixonados Que inventam até esta paisagem forte.

A CIDADE DOS MEUS OLHOS Já houve um tempo em que da janela, Se via uma cidade projetada na calçada,
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A CIDADE DOS MEUS OLHOS Já houve um tempo em que da janela, Se via uma cidade projetada na calçada, Um espaço curto e fraterno, Onde as pessoas se acenavam de perto, Beijavam-se de perto, Despediam-se de perto, E se abraçavam várias vezes no dia. A janela existe com uma fila de jarros, Com flores silvestres, tiradas dos beirais das serras. Meus olhos me arremetem ao tempo da Cidade, Agora esverdeada em sua base, E colorida em seu cume. Mas deu noutro lugar diferente. As pessoas de dispersaram, Alguns venderam outros compraram, Pedaços, vãos inteiros de terras. E tomaram distância umas das outras Ainda bem que resistiu o amor. E elas agora se beijam de longe, Acenam-se de longe, Despedem-se de longe, E quase não se vêem.

PADROEIRA DOS VAQUEIROS Oh Mãe de Deus, Padroeira dos vaqueiros
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PADROEIRA DOS VAQUEIROS Oh Mãe de Deus, Padroeira dos vaqueiros Ouvi nossas orações E sempre rogai por nós. E nos proteja Dos perigos que cruzamos Quando à mata nos juntamos Por entre galhos de fios. Com confiança Vimos a tua presença Amores de numa nascente Que depois transborda em rio. E não só pedimos Mas também te ofertamos Como luta, a fé, a falta Nosso amor em vossas mãos. _________________________ Segunda melodia (não é refrão) Oh Mãe de Deus, escutai Nosso clamor, nossos ais Pois sempre, sempre serás A Virgem a santa, a mais bela. AO amor maior e verdadeiro. Oh Mãe de Deus, escutai Nosso clamor nossos ais. Pois sempre, sempre serás A Virgem a santa, a mais bela. Mãe de todos sertanejos Protetora dos vaqueiros. O amor maior, verdadeiro Ouve Oh Mãe a nossa voz Por Deus, por vez escutai Não queremos ficar sós. Venham como um relampejo Teu olhar pleno de amor. Tuas bênçãos sobre nós.

GUERRICA Com a investida das feras E a procissão silenciosa das formigas
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GUERRICA Com a investida das feras E a procissão silenciosa das formigas O predaor toma distância de proximidades. Esperneia, Faz como quem vai desistir, Hiptoniza. E já se aproxima de mim Sou um Colizeu, só ruínas De espada e esporas, E um lastro podre sob os pés. O inimigo é uma fera larga E eu prentenso em minha defesa Não o olho, estou na luta. Nas tendências de gestos, embaraçosos. Na fricção do joelho na outra perna, O lamento do golpe acertado. E o tempo conta. Desce a linha da sombra E vai o rival crescendo e eu descendo. Pobre de mim, tudo que vem é contrário, É doloroso, é arbitrário. Armas que não se negociou, Surgem de todos os lados do meu escudo, E se renova o seu fulgor, E eu me abato, e saio, Caçando becos, olhando lados. E não feri, mais que em mim dói. É preciso lutar contra este deus mortal, Que não se cumpre, por gestos nem palavras. O que faz de mim, Ou o que permite que dele, faça. Somos dois exaustos Escorados pelas cabeças, Pelas tabelas. E a prenda bela, A recompensa, saiu pra retocar o rosto, Enquanto o díspare roedor, Deu mais uma volta E volta foi, de não voltar. Foi lavar-se na foz da rua. Eu marquei o chão com a minha cor. E o devaneio por embates, De ser guerreiro embainhado, escudado, Piorado em meus prós e contras.

EIS-ME Aqui me vedes, aqui me tendes. Com todos os defeitos de antes
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EIS-ME Aqui me vedes, aqui me tendes. Com todos os defeitos de antes Com todos os contados dentes E tudo esperando o instante. Completo em meus defeitos vistos, Um absurdo que se engole seco Eu que dos modelos disto Roçando a barriga nos becos. Sou eu este ser temível e dócil, Que beija e a minha boca adoça Uma marca que perdura e coça Que nunca me extingo, um fóssil. Como a madrugada, ou uma ameaça, E que venha o dia e o sol renasça, Um cúmplice do tempo uma morrasca Do que foi uma fruta, apenas casca.