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Frases de Naeno Rocha

424 frases

O POETA Como não! Ser hoje mesmo Me agarro nesta caneta
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O POETA Como não! Ser hoje mesmo Me agarro nesta caneta Para um poema dançar É porque há muitos anos Você levantava os olhos Olhou com força pra mim Depois levantou os braços Me abraçou tão carinhosa. Como não... se nem um dia Pude esquecer-te quimera Se a função sair batuta Deveremos a você. Se assente aqui, faz favor Neste luar destinado Às pessoas de destaque No lugar de honra mesmo.

EU E DEUS Se me lembro alguma coisa pedi a Deus, Que me deu a boca e antes de abri-la prometeu,
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EU E DEUS Se me lembro alguma coisa pedi a Deus, Que me deu a boca e antes de abri-la prometeu, Que quem pedir mais leva, os cofos Que se teceu. Se me anina esta proximidade dele, Muito mais me santifica pisar seus mesmos rastros, E quando só, penso está sozinho, deste. Eu me aceno, na pressa de Deus. E o que me anima é o mesmo acima. Autoriza o sonho, relaxa com a rima, Deixa-me à vontade, para ser saudade. Para ser da terra, o passo que eu escolher Se quero viver, terei de morrer. É só valer a vossa vontade.

MAR MORTO Na procela os ventos se quietam E passam horários de ponteiros livres,
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MAR MORTO Na procela os ventos se quietam E passam horários de ponteiros livres, Rodopiam as horas porque o tempo embala O mar bravio que se separa. Deixando à tona superfície velhos lunáticos Com talheres de ouro, candelabros de prata. No mar das tormentas Temperou-se o vento E não quebram ondas Por sobre os rochedos,. E virão peixes à superfície, Entregar-se aos pesqueiros Como no milagre. E serão partidos ao meio E o resto será jogado Pra que outros peixes comam, Na confortável areia. Rompeu-se o mar, E o farol faz um rastro fino Que agora é um caminho Não marés, não mares, não águas. As praias serão habitadas Por pássaros silvestres amazônicos, Ou babilônicos que aportarão aqui. Calma demais caminhará a onda Porque sabe, vem e não volta mais. Aqui há sede, a sede dela, Onde se perpetua um deserto calmo, De cá agora se vê Portugal.

VISIONÁRIOS O teu coração ateu Dissertava com as mesmas coisas
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VISIONÁRIOS O teu coração ateu Dissertava com as mesmas coisas E a mesma disposição geográfica, o céu. A dura paixão de Deus, Hostilidade de sua eternidade Já neste plano, o mundo igual: Ódio Americano marcado Nas teimosias, do teu coração Latino-americano, África-sem-valor. Restrito, do plano compreensivo, Relutou sem se dar conta, o abismo Que por ele todo tu andarias Até ao mínimo que te coube Enquanto os aludidos das capitais Sabem mais do homem que tu? Sabes que não. Nada, de nascimento Fé, trabalho e sonho Do teu quinhão difícil Contrário à morte, lutador. Da visão tida, de Deus Dissestes a todos, uma vez Será sempre, sempre sem fim A obra inacabável, A visão turva, ali, do futuro. Não, nunca será verdade A forma como nos permitem De saber do infindável. Contrastante dessa possessão Eu te daria o bom descanso A ti que comes teus próprios sonhos Na altura desse outro mundo Que realiza o homem novo Em partes mais fundas, agora Com a desocupação do fosso.

UMA TENTATIVA Revolva-se o bom do tempo, Todo silêncio.
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UMA TENTATIVA Revolva-se o bom do tempo, Todo silêncio. Estanque-se os batimentos dos corações, As pancadas das águas no fim do mar, Silencie a abelha em sua arquitetura Doce, doce. Clareia e o mundo guisa, e faz barulho. Quando não se emudece com o teu grito. Tempo, para o silêncio, Ou dá uma trégua Da comoção de se estar vivo. Vivo e só. Morto e vivo, uma contracena, Mentiras reveladas ao vento. Deus, Feridas sem o vermelho rubro, Tampa que não cobre a extinta morada. De vertentes escorra, repúdio – Tal como acostumaram a morte.

PEDIDO Uma coisa peço a Deus, e peço incessantemente, Ser na minha velhice o mesmo moço que sou
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PEDIDO Uma coisa peço a Deus, e peço incessantemente, Ser na minha velhice o mesmo moço que sou Não com o mesmo viço, os olhos no mesmo brilho, Não com a desenvoltura física, Com as mãos pesadas de agora, Com os mesmos cabelos na mesma cor, Não com a mesma voz altiva, O andar desenvolto, com os mesmos anos que conto, Tampouco que o tempo pare para que eu permaneça só, Com o mesmo olhar malicioso, Com as ambições que alimento, Não quero ser o velho renitente contra os feitos da vida, Não ser jovem ardente, de sonhos imediatos, meus, Nem desejar que o mundo me veja como um prodígio, Alguém que rompeu as leis e permanece, Incólume às intempéries do tempo. O que peço a Deus e já faço inconscientemente, É ser capaz das mesmas boas ações, Dos sonhos, do bem querer, da alegria Que sinto com a alegria dos outros, É ser este mesmo moço formoso, Preparado pra declinar.

FAZ TEMPO Tanto tempo faz, Tempo já demais
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FAZ TEMPO Tanto tempo faz, Tempo já demais E este tempo jaz No meu coração. Tempo que eu nem conto, E este contraponto, Dado em minha vida, Sem mostrar saídas, Tempo que me assusto Dava tanto assunto, E eu nem sei ligar, Uma coisa a outra. Se a vida é autora, Desse meu penar, Se a vida tem A ver com esse desfecho, O preço é muito mais, Do que avalio e penso, O tempo não se ausenta, E eu larguei de contar. Contar as desventuras, Minhas amarguras, Vou te suportar.

TEMPO O tempo tece a roupa que vestimos É o destino suas mãos habilidosas,
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TEMPO O tempo tece a roupa que vestimos É o destino suas mãos habilidosas, Que em tudo muda os feitios, as aparências. E o acabamento, a amarração firme Dos pontos atravessados, ponto a ponto. É este denominado assim porque, Não é sujeito e também sujeito a nada Mas tudo rege elevado da gente E de cada um sente tirar, sente faltar. Não é preciso um tratado de filosofia Pra se chegar à conclusão efusiva Que uma tesoura corta uma lágrimas E que uma agulha segura a mão De acalmar, de diminuir a enxurrada O tempo urde, enquanto o tear manipula E a catapulta armada investe-nos À vontade é atravessar desertos, Sobrevoar mares, ir mais que o tempo Dele se iludir, e se enganar de novo. Caçadas dentro de mim, já risquei fósforos Iluminado o teu olhar me aquieta Quando me diz é por ali a estrada, Sinto-me desmotivado, me sinto imortal. Se o tempo esconde os presságios bons Os alentos das dores, que não nos põe na mão, As duas feridas, de uma ferida a outra Quatro chagas dissipando-se nos dois lados. O tempo impune, não sei o quê, Aprendi chamá-lo com este nome falso Mas que existe e na passagem rouca Pensa-se tudo, se corre da estrada.

OLHO PRA TI Olho tudo em ti, todo o teu corpo E me revelam uma limpeza
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OLHO PRA TI Olho tudo em ti, todo o teu corpo E me revelam uma limpeza Que fizeram no céu. Estrelas em devaneios, tontas Que caíram e te pontilharam de sinais Os quais poderia alcançar, até por minhas mãos Tua nudez não mostra tua displicência Ou um sono de noite. Há nuvens que te cobrem E um branco espesso Em que às vezes me afundam Ao palmilhar o tamanho Da mais bonita visão desses tempos. Tua boca aberta, não me deixa certo De que meu nome tu pronuncias Ou se tu te comunicas com o teu feitor. Tu não és invenção, nem criação De um quadro onde o artista Aspergiu água em vez de fazê-la Olho pra tanta beleza e não te sinto indiferente Então não és o mistério que busco Quando já estou muito perto do sol E perigosamente me exponho Para admirar, mais confuso ainda A tua beleza difusa em perfeição. Propositadamente deitastes Na cama onde durmo, Do meu lado de costume. Mas só te faço alvo dos meus olhos Não buscaria mais que isso, Fosses tua beleza estampada só pra mim.

O TEU SORRISO Foi o teu sorriso aberto à minha frente Que despertou em mim uma vontade
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O TEU SORRISO Foi o teu sorriso aberto à minha frente Que despertou em mim uma vontade De querer entrar e morar lá dentro, De ser conhecedor de ti, no profundo, E permanecer o meu tempo de mundo. Foi o teu sorriso claro que encantou minha alma, E ela se largou primeiro no mesmo impulso de ficar Por ai, amando-te por dentro, Sendo um órgão teu, puxando pra ela, Os cuidados de tua vida. O teu sorriso abriu-me a porta e a visão, De um lugar seguro, E minha vontade era ficar em tua boca, Morando em ti. Entrar tirar as roupas, Um desabrigado, que encontrou um lugar. Um sorriso desses de mil faróis acesos, De paixão cativa, mansa, hospitaleira, Uma brancura que pra todo lado dá, A sensação de que estão mudando, Pra outro espaço branco, o céu.

FULGOR Inquestionavelmente tu Rosa sobre as outras rosas,
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FULGOR Inquestionavelmente tu Rosa sobre as outras rosas, Que sol e vento beijam primeiro Que à minha boca bate certeira E os meus olhos, ainda longe, Avistam-te fulgurosamente Desta beleza soberba. Quando te abocanho Não vejo espinhos Mas eles já estão mordendo a minha carne. Trabalho de nada, coisa feita à toa, De saborear teus lábios Jamais me cansaria, Que assim a vida fica boa. Fico mais, como quem ficasse Rente a esta imagem linda, Cativo teu. De tocá-la enlevam-se minhas mãos E te colho, lançando dentro de mim Uma profusão de amor.

TÁXI DE ESTRELAS Eu encontrei a chave do universo E às vezes penso
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TÁXI DE ESTRELAS Eu encontrei a chave do universo E às vezes penso Que tudo é sacramentado. Eu encontrei você A chave do meu verso No motor de um velho carro envenenado. E ainda sou capaz de achar Que seus olhos são brilhantes lapidados. Eu busquei o seu élan de luz Nos shoppings, galerias E nas bocas mais secretas da cidade. Minha fera de pelúcia Minha lágrima de gim Meu ritual. Seja meu mapa astral Seja bem vinda. Eu quero mesmo é voar com você Num táxi de estrelas Sob o céu, sobre mim.

O SILÊNCIO O momento esperado, o silêncio das ondas. O sobressalto que o mar não tem mais para agora
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O SILÊNCIO O momento esperado, o silêncio das ondas. O sobressalto que o mar não tem mais para agora Enseja com a minha coragem e minha própria tormenta De navega-lo, remando o meu amor Singrando, faltando-me a visão do porto. Ainda não me digas Se pernoito ou sigo Deixa-me ver teus olhos na manhã A minha pressa são a claridade nova A tua boca falando por mim E o mar não me diz nada assim Do modo impenetrável Como via a minha alma Que já se alenta e se acalma, e se detém Fintando a tua face docemente Do que já virou fagulhas O mar é só um refletor Uma lembrança mais perto De todas as manhãs que vão chegando De todos os sins que de tua boca Correm no vento e vão se espalhando Pingando este céu de águas Molhando os meus olhos de esperança.

REVÉS Se a vida se obtém com a morte Por enquanto aqui na terra
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REVÉS Se a vida se obtém com a morte Por enquanto aqui na terra Somos vivos que não falamos, Não amamos, não sentimos, Vivos sem sentido, sem sentimentos. E não expressamos reações De dores, angústias, amor e ódio. Passamos um infindo ócio, E nada realizamos, nada enxergamos. Partidos de um vácuo extenso, Pingentes leves que à frente nunca tendemos, Só ao chão, o lastro processador, Quando caímos. Se a vida é após a morte E desta razão os homens mortos Ressuscitam, contrariando A própria consciência divina. Que ao seu juízo somos todos vivos. Mas como a morte que se anuncia É vida, é morte, a nossa condição na terra, Somos mortos de olhos abertos Zumbis criadores, mostos que vivem, Mortos que temem o revés, A vida. O homem vive da morte e espera A vida numa condição de passado.

AMANDO Amor é a recompensa de quem encalça Com os quatro cantos dos olhos
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AMANDO Amor é a recompensa de quem encalça Com os quatro cantos dos olhos Passando por cada pelo, a luz . É este amor, que se ganha, cego Uma recompensa do fim do mundo Passantes trovões que não enfeiam As tardes, em tempo, de verão. O que vale o preço e a pena Dos segundos contado das horas Arrepiado furor, que já se espera Amando, amado, pela boca. Amor é o que se colhe No ínfimo tempo, tempo de choro. Tantos riem também da mesma dor, Que se puxa pelos olhos, o amor.

MEU PEDRO Meu filho Pedro, naturalmente tu nascestes lindo
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MEU PEDRO Meu filho Pedro, naturalmente tu nascestes lindo Principalmente Os teus olhinhos rindo Pedro, tu ris quando choras. São tuas a fauna e a flora brasileira Deus te deixou este legado inteiro. Da mata em canto os pássaros trigueiros. Ele espera agora que inventes a paz Ninguém mais sabe, e os que tentaram jazem. Mas tens de sobra, amor, vontade, faz. Está escrito que seria mesmo tu este menino Que criaria os versos e as rimas Tocar as alma com este cavaquinho Feitos por mim, bom só um sonhador.

FESTA O amor quer fazer uma festa E não vê espaço onde possa
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FESTA O amor quer fazer uma festa E não vê espaço onde possa Espalhar mesas e cadeiras E deixar um espaço para os que dançam. Seu corpo solto, de um amor criança. O amor quer brincadeira, quer fuzueira. Deixar cair de sobre os ombros Os encargos da dor, do ressentimento. Pudesse o amor ter calma e só amar. Batuca os dedos no granito frio Das encostas do parapeito Perto da veia que trinca o coração. Aqui o amor tem morado. Quando se sente dono, mas tem demorado Em amar, o exercício dos calejados. O amor quer a festa, que já comece O ritmar da dança. Bate coração faz força na mão. E começa por uma sonata de Mozart. Mozart que fica quarto em quarto. O salão da festa, ganha espaço, avança Mas o amor não gosta, não queria amar. E se contrai mais que se esvai E o coração quer a alegria dele Já riu sozinho, até o espelho Já se barbeou ainda cedo. O amor madrugou fazendo planos Para no dia seguinte juntar-se Aos todos amantes, E ensinar-lhes de entusiasmos O que está em voga Fora e dentro, pelos corações.

O P R Ó B R I O Uma coisa eu desejo muito. E de sua concretização, dependem muitas coisas afins, de mim. Dotar-me da astúcia do audaz Zaqueu, uma figura malvista por muitos, um cobrador de impostos que vendo poder redimir-se de seus atos infratores, de sua mesquinhez, usou de t…
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O P R Ó B R I O Uma coisa eu desejo muito. E de sua concretização, dependem muitas coisas afins, de mim. Dotar-me da astúcia do audaz Zaqueu, uma figura malvista por muitos, um cobrador de impostos que vendo poder redimir-se de seus atos infratores, de sua mesquinhez, usou de tudo que aprendera ao longo de sua vida tacanha. E teve a idéia de subir num galho em posição estratégica, sabendo ser ali o corredor por onde passaria o Cristo, com a paciência que praticara, dando prazos e fazendo ameaças àqueles que não tinham, no momento de sua visita, a quantidade de dinheiro suficiente para recolher os impostos a que todos eram submetidos. Fazendo assim, com que Cristo, que tudo sabia e previa, por seu poder divino, se deixasse enganar, dos mesmos métodos utilizados pelo infrator. Como costumava fazer com os triturados sonhos da população da época. Permaneceu sobre a árvore, quem sabe pensando o quê, talvez da ingenuidade do próprio Deus, a quem talvez julgasse mais uma pessoa, entre tantas. E ficou, até que Deus, sob ele, vitimado de sua astúcia, ao ouvi-lo gritar por seu nome, deu a ele seus ouvidos, e deu sua sentença, por aquele rosário de mentiras. Palavras que arrependimento, juras de que sempre estivera a agir por uma obediência a um outro deus terrestre, Cezar, a quem servia cegamente, diretamente. E Cristo o ouviu como procedia com todos, aos que se mostravam arrependidos da história. Ali mesmo lhe perdoou e marcou para a sua casa um encontro, que nem todos entenderam. Eu, carregado da mesma mesquinhez, da mesma ruindade, dos mesmos infortúnios por ser um representante de mim mesmo, nunca das massas sofredoras, perseguidas, retaliadas, escoriadas, pelos novos poderosos que represento, e satisfaço os interesses, não de Deus, mas de mim mesmo, ou de quem para quem trabalho diretamente. Não presto. Me cubro das nuvens mais espessas que não conseguem tapar ou amenizar a evidência dos meus traços de um ser abominável e dispensável ao mundo. Sou por natureza um péssimo exemplo aos humanos, e de forma mais marcante e mais doída aos que convivem comigo mais diretamente. Massacro meus filhos como minhas dores inventadas, com as minhas estratégias erradas de parecer aos olhos deles um homem santo e digno das benesses de Deus, enquanto Este, por saber que falho, que sou reles, que não valho nada, e ninguém arrisca uma moeda no meu todo, não faz comigo como fez com Zaqueu, a quem deu perdão e guarida, e a salvação. Sou o que se pode chamar apenas um nome. Uma identidade perdida entre tantas que destacam e qualificam outro a quem não me igualo em nada. Sou a pedra despejada no meio do caminho de todos. O galho de espinho de uma árvore grossa caída sobre todo o vão do caminho, que impossibilita a passagem dos bem intencionados. Um estorvo na vida do mundo. Sou o que Deus deixou de lado para cuidar dos mais interessantes, dos que tem mais a oferecer a Ele, além de lamúrias e pedidos sem pé nem cabeça. Sou um desafeto da natureza, dos pássaros, das águas que nunca me permitiram chegar perto deles para, sequer admira-los no que esses têm de belo, a pura feitura do Pai. Sou para quem o restante do mundo aponta a nuca, e vira o rosto, às vezes para onde nasce um vento fétido, que poucos agüentam, ou para a vertente do sol quando este está a pino, escaldante, a um desastre ecológico. Tudo isso preferem, a mirar o meu rosto cheio de malícia e truques já conhecidos de todos. Sou o incapaz de criar minhas próprias caspas, de lavar o meu rosto cheio das marcas feitas por minhas mãos imundas. Sou o contratempo do tempo, o revés da história, talvez o causador de todos os desencontros, o cultivador das bombas mais poderosas sob meu colchão. O que ganha dinheiro de forma ilícita e, da mesma forma se desfaz, em orgias, em supérfluos, sem dá sequer uma moeda a um pobre faminto que me estende a mão nas vias da cidade, que marco por minha feiúra, pelo destoar de minha presença com os canteiros floridos, com a felicidade dos outros, contados e amparados por Deus. Mas por que Deus me fez assim, tão sem sentido, tão descompleto, tão desonesto, tão nefasto, tão infecto. Porque perdeu seu tempo tão precioso criando algo inservível. Algo dispensável, que não ocupa lugar, que não senta, não dorme, não fala, não pensa, faz, que seja o mal? Porque Deus na sua querência a todos foi abominar quem mais precisa dele, e não se esforça em distinguir o meu todo ruim de um todo bom e quem, sabe, o aproveitamento de mais uma alma não faça o esforço de também a mim recuperar, a mim aproveitar. Qual a diferença que existe além das inúmeras que carrego comigo, como estigma, como breu grudado em ave arquejante, se Ele vê todos iguais. E com todos laçou o compromisso de resgatar em sua bondade. Por que o Deus, Pai, tão amoroso e compassivo, iria me largar, único, num vale sem vale, num oco sem fundo, sendo para Ele muito mais fácil dizer uma palavra e eu ser salvo com a minha alma.

UM DEUS QUE VIRÁ Eu pressinto um Deus oculto Que se vê em todas os pontos mirados.
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UM DEUS QUE VIRÁ Eu pressinto um Deus oculto Que se vê em todas os pontos mirados. - Não é o Deus dos vencedores, O Deus que anda à frente dos exércitos. Nem o Deus dos caminheiros Suspenso por uma nuvem densa Armado de espadas, vidas, amores Não se investe conta as montanhas Não tem destaque nos altares. Entre os paramentos e folheados Nem no meio dos potentados, engano Nem nas bênçãos do clero. É um Deus quase invisível Que nasce nas minas quentes Das explorações particualres Nasce na fome faminta Nasce da falta de água E da inversão de vinho em água Nasce da profunda revolta Do medo contido nas voltas Na roda do cargo puxando Trigo, mandioca, arroz, feijão Que são dos outros, para eles Nasce da fé tripudiada. Ofuscada, mal definida. É um Deus dos proletários Atentos, em voz de guerra, Filhos de outros sofríveis, Tombados nas guerras civis. É um Deus dos estudantes Sem dinheiro para os cadernos É um Deus dos aprisionados Em cárceres, em seu poder de vida Que na quietude cultivam A linda flor da esperança É um Deus de homens-libélulas Com fome, inacabados, Morando em brechas escuras Do deserto do nordeste. É um Deus das expectativas De padres inconformados Que não comungam as espadas Nem incensam os detratores É um Deus que vem a ser Feito só de coração No lastro de terra movediça.

SAUDADE Quando a saudade bater A porta do teu coração
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SAUDADE Quando a saudade bater A porta do teu coração Insistente, manda-a embora Deixa ela dormindo fora Não abra a porta, não. E se assim ela insistir Apontado, o seu arpão Reza para Jesus, contida Que até Ele foi, em vida Ferido no coração. Ah, amor, também Fiquei refém do mesmo algoz Tempos eu fiquei Sem poder soltar a voz Só o que nome vinha Envolvido num soluço. E da janela, quando abria e via a lua Eu confundia a imagem dela com a tua. Dava vontade de sair como um cachorro pela rua.

INFÂNCIA Quando eu era menino A vida era minha namorada.
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INFÂNCIA Quando eu era menino A vida era minha namorada. E foi o tempo da melhor amada. A vida também era menina, E brincávamos de viver, Desfazíamos tudo Só para acomodar de novo. Tínhamos tempo para tudo, Até que a vida e eu fomos mudando Eu me esticando E ela se encurtando. E por desavença, numa dessas brincadeiras, Bati nela com uma cadeira, E desencadeou-se um desencanto. Duas caras de espanto. Do meu lado, eu a desfazia, Do seu, ela me agoniava Com seus achaques de pura raiva. E nunca mais nos demos bem, Embora nos abracemos todos os dias, Não passam de normalidades, Um fala e o outro responde. De mim, não há um amor que volta, Dela recebo beijos à toa, Acho que nos esquecemos, um do outro.

SABE AMOR Sabe, amor Sem ti, a vida espera
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SABE AMOR Sabe, amor Sem ti, a vida espera Num canto esquecida. Os meus olhos só se alegram Quando te vêem de perto Colada aqui em mim. Sabe amor Pense em toda armadilha Em todas me alcei Querendo te encontrar Como faz um bicho displicente Levado pelo cheiro Da inconfundível flor. E se eu chorei Não cabe a ninguém Não choro por alguém E se a vida passa vagarzinho Eu fico no meu ninho A proteger meu amor