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Frases de Manuel António Pina

45 frases

Pensar de pernas para o ar é uma grande maneira de pensar com toda a gente a pensar como toda a gente
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Pensar de pernas para o ar é uma grande maneira de pensar com toda a gente a pensar como toda a gente ninguém pensava nada diferente Que bom é pensar em outras coisas e olhar para as coisas noutra posição as coisas sérias que cómicas que são com o céu para baixo e para cima o chão

A meu favor tenho o teu olhar testemunhando por mim perante juízes terríveis:
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A meu favor tenho o teu olhar testemunhando por mim perante juízes terríveis: a morte, os amigos, os inimigos. E aqueles que me assaltam à noite na solidão do quarto refugiam-se em fundos sítios dentro de mim quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto. Protege-me com ele, com o teu olhar, dos demónios da noite e das aflições do dia, fala em voz alta, não deixes que adormeça, afasta de mim o pecado da infelicidade.

SOB ESCOMBROS Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir
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SOB ESCOMBROS Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde também tu eras mundo, coisa pulsante. Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade. Agora respondes por nomes supostos, habitante de países hábeis e reais, e precisas de ajuda para as coisas mais simples, o pensamento, o sofrimento, a solidão. A música, só voltarás a escutá-la numa noite lívida, uma noite mais vulnerável do que todas (o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento) um pouco antes de adormeceres sob escombros.

Junto à água Os homens temem as longas viagens, os ladrões da estrada, as hospedarias,
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Junto à água Os homens temem as longas viagens, os ladrões da estrada, as hospedarias, e temem morrer em frios leitos e ter sepultura em terra estranha. Por isso os seus passos os levam de regresso a casa, às veredas da infância, ao velho portão em ruínas, à poeira das primeiras, das únicas lágrimas. Quantas vezes em desolados quartos de hotel esperei em vão que me batesses à porta, voz de infância, que o teu silêncio me chamasse! E perdi-vos para sempre entre prédios altos, sonhos de beleza, e em ruas intermináveis, e no meio das multidões dos aeroportos. Agora só quero dormir um sono sem olhos e sem escuridão, sob um telhado por fim. À minha volta estilhaça-se o meu rosto em infinitos espelhos e desmoronam-se os meus retratos nas molduras. Só quero um sítio onde pousar a cabeça. Anoitece em todas as cidades do mundo, acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos onde o meu coração, falando, vagueia.

Eu não procuro nada em ti, nem a mim próprio, é algo em ti que procura algo em ti
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Eu não procuro nada em ti, nem a mim próprio, é algo em ti que procura algo em ti no labirinto dos meus pensamentos. Eu estou entre ti e ti, a minha vida, os meus sentidos (principalmente os meus sentidos) toldam de sombras o teu rosto. O meu rosto não reflecte a tua imagem, o meu silêncio não te deixa falar, o meu corpo não deixa que se juntem as partes dispersas de ti em mim. Eu sou talvez aquele que procuras, e as minhas dúvidas a tua voz chamando do fundo do meu coração.

Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora restavam paeis velhos, vidas mortas,
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Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora restavam paeis velhos, vidas mortas, identidade, sujidade, eternidade. Comeram o meu corpo e beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca; e escreveram a minha Obra Completa; sobro, desapossado, eu. Resta-me ver televisão, votar, passear o cão (a cidadania!). Prosa também podia, e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria. Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort? Dar em aforista ou ainda pior? Mudar de cidade? Desabitar-me? Posmodernizar-me? Experienciar-me? Com que palavras e sem que palavras? Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam por salões vazios e incendiados entregando-se a guionistas e aparentados. Cheira excessivamente a morte por aqui como no fim de uma batalha cansada de feridas antigas, e eu sobrevivi do lado errado e pela razão errada. “Que dia? Que olhar?” (Beckett, “Dias felizes”) Que feridas? Que estanda- te? Que alheias cicatrizes? Estou diante de uma porta (de uma forma) com o – como dizer? – coração (um sítio sem lugar, uma situação) cheio de palavras últimas e discórdia.

Uma coisa que existe: memória. Porque está tudo a ser dito sucessivamente (tempo, mesmo partindo da hipótese de que não pode ser tudo sido ao mesmo tempo, isto é, que tempo é as palavras que me faltam). Memória, ou tempo, ou palavras, ou a falta de as palavras ou de qualquer cois…
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Uma coisa que existe: memória. Porque está tudo a ser dito sucessivamente (tempo, mesmo partindo da hipótese de que não pode ser tudo sido ao mesmo tempo, isto é, que tempo é as palavras que me faltam). Memória, ou tempo, ou palavras, ou a falta de as palavras ou de qualquer coisa, alguma coisa existe : a falta de alguma coisa. Parei um pouco para pensar e esqueci-me de tudo...

Oh as pessoas estão doentes de indiferença E morrem como mortos, da sua doença Morrem umas na frente das outras as pessoas
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Oh as pessoas estão doentes de indiferença E morrem como mortos, da sua doença Morrem umas na frente das outras as pessoas Umas são assim outras como são? As pessoas são más as pessoas são boas As pessoas as pessoas as pessoas as pessoas As pessoas somos todos nós ou ainda menos (...) Oh nós não vamos ser assim daqui a uns tempos -Nós não vamos ser assim: pois não? pois não?