Frase de Manuel António Pina
... que eu morra como um corpo dentro do coração da luz do silêncio que me cale que não viva nem esteja morto
No pensador.ai desde
... que eu morra como um corpo dentro do coração da luz do silêncio que me cale que não viva nem esteja morto
No pensador.ai desde
Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora restavam paeis velhos, vidas mortas,
Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora restavam paeis velhos, vidas mortas, identidade, sujidade, eternidade. Comeram o meu corpo e beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca; e escreveram a minha Obra Completa; sobro, desapossado, eu. Resta-me ver televisão, votar, passear o cão (a cidadania!). Prosa também podia, e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria. Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort? Dar em aforista ou ainda pior? Mudar de cidade? Desabitar-me? Posmodernizar-me? Experienciar-me? Com que palavras e sem que palavras? Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam por salões vazios e incendiados entregando-se a guionistas e aparentados. Cheira excessivamente a morte por aqui como no fim de uma batalha cansada de feridas antigas, e eu sobrevivi do lado errado e pela razão errada. “Que dia? Que olhar?” (Beckett, “Dias felizes”) Que feridas? Que estanda- te? Que alheias cicatrizes? Estou diante de uma porta (de uma forma) com o – como dizer? – coração (um sítio sem lugar, uma situação) cheio de palavras últimas e discórdia.
Eu não procuro nada em ti, nem a mim próprio, é algo em ti que procura algo em ti
Eu não procuro nada em ti, nem a mim próprio, é algo em ti que procura algo em ti no labirinto dos meus pensamentos. Eu estou entre ti e ti, a minha vida, os meus sentidos (principalmente os meus sentidos) toldam de sombras o teu rosto. O meu rosto não reflecte a tua imagem, o meu silêncio não te deixa falar, o meu corpo não deixa que se juntem as partes dispersas de ti em mim. Eu sou talvez aquele que procuras, e as minhas dúvidas a tua voz chamando do fundo do meu coração.
Agora é diferente Tenho o teu nome o teu cheiro A minha roupa de repente
Agora é diferente Tenho o teu nome o teu cheiro A minha roupa de repente ficou com o teu cheiro Agora estamos misturados No meio de nós já não cabe o amor Já não arranjamos lugar para o amor Já não arranjamos vagar para o amor agora isto vai devagar isto agora demora
Junto à água Os homens temem as longas viagens, os ladrões da estrada, as hospedarias,
Junto à água Os homens temem as longas viagens, os ladrões da estrada, as hospedarias, e temem morrer em frios leitos e ter sepultura em terra estranha. Por isso os seus passos os levam de regresso a casa, às veredas da infância, ao velho portão em ruínas, à poeira das primeiras, das únicas lágrimas. Quantas vezes em desolados quartos de hotel esperei em vão que me batesses à porta, voz de infância, que o teu silêncio me chamasse! E perdi-vos para sempre entre prédios altos, sonhos de beleza, e em ruas intermináveis, e no meio das multidões dos aeroportos. Agora só quero dormir um sono sem olhos e sem escuridão, sob um telhado por fim. À minha volta estilhaça-se o meu rosto em infinitos espelhos e desmoronam-se os meus retratos nas molduras. Só quero um sítio onde pousar a cabeça. Anoitece em todas as cidades do mundo, acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos onde o meu coração, falando, vagueia.