Também a mim tempo não me falta lugar sim (...)
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Também a mim tempo não me falta lugar sim (...) De súbito faltam-me as palavras
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Também a mim tempo não me falta lugar sim (...)
Também a mim tempo não me falta lugar sim (...) De súbito faltam-me as palavras
O meu trabalho é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra. Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Agora sei que, se me tivesse olhado, por um momento que fosse, poderia ter-me visto. Alguma vez voltarei a estar, assim, de novo diante de mim?
Nada no poema é impossível e tudo é possível.
Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido
Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim a vivia. E a que eu regressava lentamente como se antes do teu sorriso alguém (eu provavelmente) nunca tivesse existido.
Primeiro abre-se a porta por dentro sobre a tela imatura onde previamente se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
Primeiro abre-se a porta por dentro sobre a tela imatura onde previamente se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente, a mãe para sempre morta. Anoiteceu, apagamos a luz e, depois, como uma foto que se guarda na carteira, iluminam-se no quintal as flores da macieira e, no papel de parede, agitam-se as recordações. Protege-te delas, das recordações, dos seus ócios, das suas conspirações; usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos: o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos. Uma casa é as ruínas de uma casa, uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra; desenha-a como quem embala um remorso, com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.
Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho familiar da saudade, pequeninas coisas me prendem, uma tarde num café, um livro. Devagar te amo e às vezes depressa, meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no amor como em casa.
Como quem, vindo de países distantes fora de si,chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar,
Como quem, vindo de países distantes fora de si,chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira vez na sua cama. Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças, cidades, estações do ano. E come agora por fim um pão primeiro sem o sabor de palavras estrangeiras na boca
Há um deus único e secreto em cada gato inconcreto governando um mundo efémero
Há um deus único e secreto em cada gato inconcreto governando um mundo efémero onde estamos de passagem Um deus que nos hospeda nos seus vastos aposentos de nervos, ausências, pressentimentos, e de longe nos observa Somos intrusos, bárbaros amigáveis, e compassivo o deus permite que o sirvamos e a ilusão de que o tocamos
Sabes que já não durmo por dentro? Fecho os olhos e afundo-me num poço sem palavras nem espaço, continuando, sem o saberes, acordado, temendo perder-te. E tantas vezes te perdi, tantas vezes regressei e não te encontrei, tantas vezes inquietante te chamei e não respondeste!
Temei, palavras de amor, há por aqui muitos inimigos novos, sobretudo lembranças,
Temei, palavras de amor, há por aqui muitos inimigos novos, sobretudo lembranças, e desconfia-se de recém chegados, sobretudo vindos de tão longe e de sítios tão incertos.
Um espelho, um olhar onde me ver; um silêncio onde escutar
Um espelho, um olhar onde me ver; um silêncio onde escutar as minhas palavras; algo como uma vida para viver
No teu coração impérios irresolúveis se guerreiam; e como foge o campo de batalha
No teu coração impérios irresolúveis se guerreiam; e como foge o campo de batalha sangrando, sob os golpes das espadas e o tropel dos exércitos, ferida a luz primaveril e destruídas as sementeiras assim o teu coração foge para fora e para longe e para dentro e para longe
A solidão é uma sôfrega evidência, alimenta-se de pequenos materiais, de circunstâncias e de passagens, devorando a vida por onde ela é mais óbvia : por dentro.
Literatura. Em que outro lugar, em que outra morte, poderíamos nós ter encontrado refúgio?
O jardim onde tantas vezes florira o meu desespero não era real,
O jardim onde tantas vezes florira o meu desespero não era real, era uma coisa passada; real era o meu medo, tão real que mesmo abrindo os olhos não passava.
Se me voltasse para trás o que veria? Ainda os teus olhos, ainda a alegria
Um intruso grita dentro de mim, oiço-o no coração
Serei capaz de não ter medo de nada, nem de algumas palavras juntas?
terei palavras para falar-Te? E compreenderás Tu este, não sei qual de nós, que procura
terei palavras para falar-Te? E compreenderás Tu este, não sei qual de nós, que procura a Tua face entre as sombras
O coração é feito de ardentes sedas por que respira a morte,
O coração é feito de ardentes sedas por que respira a morte, os sonhos feitos de outros sonhos