Frase de Manuel António Pina
Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora restavam paeis velhos, vidas mortas, identidade, sujidade, eternidade. Comeram o meu corpo e beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca; e escreveram a minha Obra Completa; sobro, desapossado, eu. Resta-me ver televisão, votar, passear o cão (a cidadania!). Prosa também podia, e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria. Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort? Dar em aforista ou ainda pior? Mudar de cidade? Desabitar-me? Posmodernizar-me? Experienciar-me? Com que palavras e sem que palavras? Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam por salões vazios e incendiados entregando-se a guionistas e aparentados. Cheira excessivamente a morte por aqui como no fim de uma batalha cansada de feridas antigas, e eu sobrevivi do lado errado e pela razão errada. “Que dia? Que olhar?” (Beckett, “Dias felizes”) Que feridas? Que estanda- te? Que alheias cicatrizes? Estou diante de uma porta (de uma forma) com o – como dizer? – coração (um sítio sem lugar, uma situação) cheio de palavras últimas e discórdia.
No pensador.ai desde