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Frase de Manuel António Pina

Junto à água Os homens temem as longas viagens, os ladrões da estrada, as hospedarias, e temem morrer em frios leitos e ter sepultura em terra estranha. Por isso os seus passos os levam de regresso a casa, às veredas da infância, ao velho portão em ruínas, à poeira das primeiras, das únicas lágrimas. Quantas vezes em desolados quartos de hotel esperei em vão que me batesses à porta, voz de infância, que o teu silêncio me chamasse! E perdi-vos para sempre entre prédios altos, sonhos de beleza, e em ruas intermináveis, e no meio das multidões dos aeroportos. Agora só quero dormir um sono sem olhos e sem escuridão, sob um telhado por fim. À minha volta estilhaça-se o meu rosto em infinitos espelhos e desmoronam-se os meus retratos nas molduras. Só quero um sítio onde pousar a cabeça. Anoitece em todas as cidades do mundo, acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos onde o meu coração, falando, vagueia.

Manuel António Pina

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Pensador.com

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Outras frases de Manuel António Pina

Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora restavam paeis velhos, vidas mortas,
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Cheguei demasiado tarde e já todos se tinham ido embora restavam paeis velhos, vidas mortas, identidade, sujidade, eternidade. Comeram o meu corpo e beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca; e escreveram a minha Obra Completa; sobro, desapossado, eu. Resta-me ver televisão, votar, passear o cão (a cidadania!). Prosa também podia, e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria. Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort? Dar em aforista ou ainda pior? Mudar de cidade? Desabitar-me? Posmodernizar-me? Experienciar-me? Com que palavras e sem que palavras? Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam por salões vazios e incendiados entregando-se a guionistas e aparentados. Cheira excessivamente a morte por aqui como no fim de uma batalha cansada de feridas antigas, e eu sobrevivi do lado errado e pela razão errada. “Que dia? Que olhar?” (Beckett, “Dias felizes”) Que feridas? Que estanda- te? Que alheias cicatrizes? Estou diante de uma porta (de uma forma) com o – como dizer? – coração (um sítio sem lugar, uma situação) cheio de palavras últimas e discórdia.

Eu não procuro nada em ti, nem a mim próprio, é algo em ti que procura algo em ti
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Eu não procuro nada em ti, nem a mim próprio, é algo em ti que procura algo em ti no labirinto dos meus pensamentos. Eu estou entre ti e ti, a minha vida, os meus sentidos (principalmente os meus sentidos) toldam de sombras o teu rosto. O meu rosto não reflecte a tua imagem, o meu silêncio não te deixa falar, o meu corpo não deixa que se juntem as partes dispersas de ti em mim. Eu sou talvez aquele que procuras, e as minhas dúvidas a tua voz chamando do fundo do meu coração.

SOB ESCOMBROS Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir
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SOB ESCOMBROS Um tempo houve em que, de tão próximo, quase podias ouvir o silêncio do mundo pulsando onde também tu eras mundo, coisa pulsante. Extinguiu-se esse canto não na morte mas na vida excluída da clarividência da infância e de tudo o que pulsa, fins e começos, e corrompida pela estridência e pela heterogeneidade. Agora respondes por nomes supostos, habitante de países hábeis e reais, e precisas de ajuda para as coisas mais simples, o pensamento, o sofrimento, a solidão. A música, só voltarás a escutá-la numa noite lívida, uma noite mais vulnerável do que todas (o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento) um pouco antes de adormeceres sob escombros.