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Frases de Lucian Rodrigues Cardoso

184 frases

Calar-se Há momentos, perdoe,
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Calar-se Há momentos, perdoe, em que o poeta quer calar-se. Fingir escutar; viajar ao longe; deixar o bar; recolher-se ao quarto. Mas calar-se, advirto-vos, não como um nada a dizer: silenciar-se. Calar-se como um parir-se à dentro. Calar-se como um gestar-se à fora. Calar-se como um grito no parto. Porque o poeta, quando cala, escuta o apelo, pari o grito contido silenciado da alma.

Remédio Não tomarei qualquer desses calmantes
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Remédio Não tomarei qualquer desses calmantes que entorpecem os ouvidos, que me deixam inquestionável qual fosse o mundo já moldado e seu sentido decidido. Não viverei como quem navega rio sem curvas, como quem voa num céu sem nuvens, como quem nega as próprias rugas. Prefiro o talvez ao sempre e ao nunca. Veja bem, sequer me exigirei ser zen pela saúde sabendo que a inquietude fez o artista em um temporal esculpir o corpo de Buda. Porque não me apartarei da sinceridade que exige a vida mesmo que a fantasia inexistida seja a realidade porque sentida. Não que eu viva às vísceras a toda hora mas prefiro a inquietude mesmo no ar condicionado à imaginar o calor [que deveras faz lá fora. O remédio da vida: o calor que nos aflora.

Prometo até a morte Prometo, como poeta, não prometer livros como não se promete o que e o quanto pensar
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Prometo até a morte Prometo, como poeta, não prometer livros como não se promete o que e o quanto pensar (desconfio ser um deus os que aceitam encomendas de consciência livre, de certo, eles sabem: o que virá, o que pensará, o que escreverá e por quanto ainda estará vivo). Como poeta, vagamente, prometo viver e viver, leia-se, escrever posto que viver e não escrever, pro poeta, leia-se, morrer.

Ode ao Grêmio Recreativo Escola de Samba Arco Íris Deixei turbilhar essas cores mil então eu vi o arco-íris que surgiu
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Ode ao Grêmio Recreativo Escola de Samba Arco Íris Deixei turbilhar essas cores mil então eu vi o arco-íris que surgiu Foi por sonhar um mundo menos vil que a “Simpatia” na avenida ressurgiu E se hoje a campeã sai do Ibes pro Brasil é que o verde-amarelo faz parte das cores [ que a Arco-Íris hoje uniu.

Amor não tem distância Não existe amor à distância. A distância está entre pessoas, coisas,
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Amor não tem distância Não existe amor à distância. A distância está entre pessoas, coisas, sentimentos não. Portanto, há pessoas distantes que se amam. Portanto, o amor é sempre o mesmo, inalterado frente ao espaço, posto que à pessoas, à coisas, se medem distância ao sentimento não. Sentimento implica sempre presença, e não distância, e nunca ausência.

Convencimento O poeta nem sempre diz
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Convencimento O poeta nem sempre diz o que está a escrever, mas o que sempre quis poder dizer. O poeta pode não sentir o que revelam os versos, mas dizes aquilo a moldar seu devir. O poeta por isso não deve espantar, se ao dizer ódio está a amar. Porque o poeta mais que fingir usa o poema como um eterno convencer a si.

Primeira Caixa Sentado num sofá, teu sorriso fez-me dançar
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Primeira Caixa Sentado num sofá, teu sorriso fez-me dançar numa valsa dançante e me pus a acompanhar. Fixei-me em seu moldado olhar, que dum jeito querendo fugir - fugir da realidade levava-me contigo de toda essa maldade. Quiçá que todas fossem Caixas assim e sonhar poderíamos enfim. Quiçá que não fosse aqui um banco e tu, deusa eu, santo. Pena, tenho que pagar esta conta, não sou mais um menino. Quero amar deuses e com deuses não pode se há juros vencido.

⁠As coisas que eu deixo Toda vez que viajo; fico uns dias foras, volto e tento refazer as coisas,
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⁠As coisas que eu deixo Toda vez que viajo; fico uns dias foras, volto e tento refazer as coisas, as coisas que eu fazia quando antes de ter viajado. Mas as coisas que eu fazia já não são as que tenho encontrado. Se em tese, sei que não mudaram, na prática, aquilo que deixei me soam deveras mudado. Porque as coisas que a gente deixa ficam porque são estáticas, matéria imutável; quem sai é a gente, muda o espírito, sentido, cidade em cidade. Pois às coisas, lei do universo, às coisas só foi permitido mudar de estado.

⁠Maturidade Sentado numa cadeira de balanço, daquelas de madeira em que se escuta o ruída de coisa velha a cada chacoalhada, passava as tardes quase sempre frias e secas daquele inverno de Moscou. O movimento do corpo, outrora em zigue-zague portando um discurso eloquente e apa…
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⁠Maturidade Sentado numa cadeira de balanço, daquelas de madeira em que se escuta o ruída de coisa velha a cada chacoalhada, passava as tardes quase sempre frias e secas daquele inverno de Moscou. O movimento do corpo, outrora em zigue-zague portando um discurso eloquente e apaixonado na sala 18 da Faculdade de Letras e FIlosofia, passou a ser as carícias na barba e rotineiras idas a cozinha sacar um café na máquina de fazer expresso, ganho de seus alunos no quando de sua aposentadoria. A propósito de seus alunos, que antes o assistiam com tamanho entusiasmo e devoção, tinha a companhia de uma criança naquelas tardes aparentemente pacíficas. Era como se, no fim da vida, oferecesse a alguém sua experiência, mas ganhando, em contrapartida, o ânimo e potência de vida que o café já não lhe dava mais. A criança gritava, pulava, mordia, beliscava, o fazia rir como naqueles velhos tempos que lhe eram permitidas as estripolias. As tarde frias e pacíficas, assim como a demência nunca o habitara. Não se sabe se era o velho que voltara a criança, ou se falava a criança que habitava o velho.

⁠Fidelidade Ivan mora sozinho, em um apartamento de apenas um quarto-cozinha-banheiro. Logo quando se abre a porta, salta aos olhos a cama-sofá, quase sempre com lençol dobrado ou arrastando ao chão. O travesseiro, sem fronha, tendo apenas quando sua mãe lhe faz visitas para ir…
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⁠Fidelidade Ivan mora sozinho, em um apartamento de apenas um quarto-cozinha-banheiro. Logo quando se abre a porta, salta aos olhos a cama-sofá, quase sempre com lençol dobrado ou arrastando ao chão. O travesseiro, sem fronha, tendo apenas quando sua mãe lhe faz visitas para ir a uma consulta no hospital metropolitano. Na cozinha, um pequeno quadrado demarcado por um muro à meia altura, há apenas uma prateleira em madeira não tratada, porque com felpos ouriçados, segurando o essencial: litro de óleo pela metade, vasilha amarelada de sal e um pacote de macarrão com um pregador de roupas. O banheiro era quase uma extensão do quarto. Apenas a porta sanfonada, com o trinco arrancado, separava a cama do vaso. Ivan acostumou-se com o cheiro de casa vazia sempre que abria a porta de casa e podia até mesmo não senti-lo quando não estava afim de abrir a única janela de sua kitnet. Ivan não sentia falta do que acontecia janela a fora de seu mundo. Certo dia, Ivan conheceu Sara. Foi quando Sara, envergonhada, tentava sem sucesso consertar a corrente de sua bicicleta que havia saído da coroa. Ivan, até então, não sabia a importância daquela corrente encaixada elo a elo na coroa pontiaguda. Enquanto consertava a bicicleta de Sara, Ivan pode mirar suas pernas morenas cobertas por pelos enlourecidos. Sara, até então, não entendia muito bem o porquê da corrente ter a colaração escura, destoando do tom azul claro de sua bicicleta, até o momento em que suas coxas se sujaram de graxa. Ivan e Sara ficaram meses a fio passeando de bicicleta cotidianamente. Ivan percebeu que já não sobrava macarrão, que o óleo já não estava por acabar, e sim acabado, e suas janelas não se observavam mais fechadas. O rapaz já não suportava mais o cheiro de casa vazia quando pedalava. A partir de então, Ivan especializou-se em consertar correntes alheias a de Sara. Na verdade, atormentava a Ivan não a ideia de pedalar com a casa vazia, mas sim que a corrente de Sara pudesse novamente soltar da coroa de sua bicicleta. Sara nunca foi tão amada, quanto Ivan a ama.