Mirela tem Medo do Mar
Mirela
teme meu mar.
Do mar que Mirela tem medo
não temo.
Temo
o mar que Mirela
causar.
Eu levo Mirela agora
agora, em meu barco
sem o medo nela
pairar.
Eu largo este barco agora
agora, se a mim pro seu mar
Mirela
levar.
Pescador que quer
se prezar
não casa com aquela,
aquela Mirela que teme
seu mar.
Navego sozinho
e se Mirela quiser me levar,
eu prezo o amor,
meu barco navega
navega além
além de um só mar.
Aula com Lilian
Olhar de perdição.
É no teu corpo que eu me acho.
Nos teus cabelos eu me perco
e por teus brincos é que sou salvo.
O ouro descoberto em teus fios
nem mesmo pode
com o brilho dos teus olhos.
Foss’eu preencher este vazio
seria eterno esta viagem,
nesta aula em que te exploro.
És tão em mim presente
que no sonho parece ser verdade
e na verdade - que nem mesmo sonho- pura ilusão.
Pobre desse amor inventado,
pobre é o inventor coração.
Sei contar todos seus passos
quando te projetam a flutuar,
caminhando num florido espaço.
Via crucis da sala, sombrio lugar.
Percebi, já bem de longe,
teu pescoço como pedra à beira-mar
superficie segura
plataforma de bela forma,
bela forma do teu oceano,
oceano do mar de amar.
É como areia de uma praia
a base dessa escultura.
Tu és, oh moderna obra-prima
a arte que em mim perdura.
Só que,
por não mais te vê,
perdi a inspiração.
Perdendo a inspiradora,
perdi a poesia.
E ao perder a poesia
o ponto é solidão.
Mudei a história do samba
Planejava aqui
exaltar o que era então minha glória
e não devo iludir
do samba mudei a trajetória.
Na primeira vez que vi
me apaixonei sem escapatória
n’outras rodas eu vim
a paixão foi intensa e notória.
Mas um dia ela diz
desta forma seca e simplória:
- Não verás eu sorrir
no Mar e Terra ou quiçá em Vitória.
- Nosso amor pra mim
no samba já é uma memória.
E dito assim
restou-me mudar a história.
Então descobri
que se alguém quer mudar a história
só se for assim
porque o samba é respeito à memória.
Angélica do Sul*
Jacobina Mentz Maurer
Que diante desses maltrapilhos
Só queria proporcionar um brilho
E uma unção sem lhes cobrar.
Jacobina Mentz Maurer
Que afamam ser um tormento
Só queria plantar o sustento
A quem viveu a espreitar.
Jacobina Mentz Maurer
Que se via ou não mesmo o anjo
Só queria usar o arcanjo
E deixar seu povo sonhar.
Jacobina Mentz Maurer
Que naquilo que é deveras divino
Ousou mandar em seu destino
E que dele não fez sem lutar.
*Paródia da música “Angélica” de Chico Buarque de Hollanda
Fome
O poeta alimenta
o amor dos outros,
mas prova, por vezes,
um amargo gosto:
quando o poeta receita
o poema a uma mulher,
que gostando do prato
o serve a’um qualquer,
o que deve o poeta
com o poema fazer:
alimentar o mundo
ou primeiro comer?
Voo livre
Se quiseres ser livre
não basta ser pássaro, seja o vento
pois cortam-se as asas, cerram-se as grades
mas jamais aprisionam
[o voar de um sentimento.
Voo livre
Se quiseres ser livre
não basta ser pássaro, seja o vento
pois cortam-se as asas, cerram-se as grades
mas jamais aprisionam
[o voar de um sentimento.
Poema do Imperialismo
Meus companheiros da esquerda
me questionariam se eu
escrevesse que o meu amigo
Ricky vai a América – e não aos EUA.
Com o perdão da palavra, o meu amigo
Ricky vai a América.
Pois me despeço do meu amigo, que vai a América
da mesma forma que despediram-se
as mulheres dos soldados americanos que foram ao Vietnã;
me despeço do meu amigo, que vai a América
da mesma forma que despediram-se
Fidel e Che na Cuba socialista.
Ricky vai a América
e não há ideologia que cure
o imperialismo da dor de sua falta.
Entrega
Quem tem medo da entrega,
tem no fundo
medo de viver a separação.
Quem separa sem entrega,
verá que no medo
viveu em si, no fundo não.
Mas, quem viver sem medo,
no fundo há de ver
que todo fim é uma entrega
a uma nova criação.
Poema alienado
O poeta escreve
um poema introvertido
tímido, que só à ele
veste-se o sentido.
O militante se estressa:
- escreva o preço do trigo!
Bem, amigo, o meu poema
politiza pelo circo.
Poema inacabado
Nunca conseguirei
fazer desses poemas
que se dedicam a uma irmã.
Toda vez que começo, na minha mente
é brincadeira de lutinha
ou a briga é de empurrão.
Pois que algo se sustenta
no espaço-tempo
entre o beijo e o safanão?
(Se não este, o amor,
que há entre os irmãos)
Respiro-te
Que os teus ventos,
tal como se descreve,
voem livres e sem notar
quem deles se utiliza
como algo essencial, como algo natural
tal como é o respirar.
Pois tudo que é dúvida
liberta-se no ar.
Presença ou Programa
Minhas amigas,
meus amigos,
deixem em casa o celular
se quiserem ter comigo.
Se não têm presença a dar,
finjam ter um compromisso
ou então se for tocar
diga o preço que é preciso
pois que não saio sem pagar
à quem só pode ofertar
nada além de um corpo físico.
Poema explicativo
Como poeta não me cabe
dizer o que é o poema
mais do que já nele fale.
O poema não pretende
nele mesmo esgotar-lhe,
porque s’eu digo
num poema, igualdade
e o leitor é de direita
o lerá legalidade:
de súbito se percebe
que há mais que a minha verdade.
Imita a vida – o poema
como possibilidade.
Poema do ansioso (c)
O poema que escrevo
é sempre o próximo
que tributo à este.
Sinto o que é próximo
e nunca este.
O poema que escrevo
é sempre o próximo
e na fôrma este.
Pois que será o próximo
senão este?