Um dia sai um samba
Um dia sai um samba
no outro, te procurar
e te dizer que a fama
pretexto pra quem amar,
amar alguém em só versos
carece de revelar
porque só a música e o verbo
revelam mais que um olhar.
Mas o que sinto é eterno
desde que alguém vá tocar
pois quando ouvir o que escrevo
sequer preciso falar
de tua presença em poema
- embora esteja a cantar -
porque só o samba é falado
pouco bastou-me rimar.
Exterior constitutivo
Cá aqui estou
devo lhe explicar
sou deveras tudo aquilo
que não sou.
Cá no interior
sou o que sobrar
daquilo que do umbigo
me é exterior.
Nossa (antiga) Petrobrás
A Petrobrás
– dizia uma campanha –
era nossa
do povo brasileiro.
Hoje
– na cidade de Vitória –
a sua sede
tem grades no canteiro.
BR 101
Se pedem alimentos
à beira desta estrada,
dizem que é problema
desta área limitada.
Mas antes fosse esta miséria
só à Bahia tributada,
a questão é BR – dos brasileiros
sejam mineiros, sejam paulistas ou capixabas.
Do anacronismo
Cresci ouvindo meu pai dizer:
"O Espírito Santo... [reticências pra reproduzir fielmente quando ele discursa, dando pausa pra esperar maior atenção - e reflexão - do ouvinte]
...ainda é um estado de donatários".
A faculdade de História teima em corrigir:
"isto é anacrônico".
Não sei por que
ando desiludido com o curso.
Viver ou Pensar
Viver
ou pensar:
eis aqui uma questão?
Viver,
exigiria não pensar,
porque vida
suporia só ação.
Mas pensar
eis uma forma de viver,
porque pensamento
é existência em reflexão.
Posto que viver
e não pensar,
nisto, sim, há uma questão.
Confissão Baixa
À branquinha,
que é idealistazinha e romantiquinha
lindinha e sensivelzinha
a ponto de saber que estas linhas
se em inhas, antes de picuinhas,
admiração minha
confessada de forma baixinha.
Sítio Histórico
O branco veio
explorou o índio, explorou o negro
a construir prédios
que se não prisão, não freqüentaram.
O branco veio
usou o índio, usou o negro
a servir em prédios
que se deu riqueza, não repassaram.
O branco vê
os filhos índios, os filhos negros
a bendizer prédios
que se viu nobreza, sequer pisaram.
O branco vê
que os filhos índios, que os filhos negros
se em nome de prédios
pedem trocados, é pela riqueza que edificaram.
Na viagem pra Bahia
Na viagem pra Bahia,
um acidente:
Carros batidos,
trânsito lento,
os carros pararam,
custaram ir em frente.
Na viagem pra Bahia,
um inconveniente:
Crianças pedindo,
trânsito fluente,
e se os carros andaram,
será acidente?
Método Histórico-Crítico no estudo do Inglês
Três coisas não me deixam in:
Incoerência
Injustiça
Inglês Americano
(Estes dois últimos ilustram bem as duas primeiras, mas meu curso não ensina)
Subjetivamente, sem condições
Se a TV
e a União
fazem da Copa
uma ilusão (com algum bilhão)
alguém deitado
em seu colchão
do futebol
abrirá mão (de indignação)?
Se nas igrejas
a doação
é um remédio
e expurgação (da exploração)
alguém que reza
sua oração
será capaz de esquecer o céu
e olhar pro chão (pro seu irmão)?
Se o shopping center
em liquidação
finge fazer
uma inclusão (com um cartão)
alguém dirá
que é ilusão
o poder de quem
compra o seu pão (a prestação)?
Domingo à tarde
de uma nação:
alguém arrisca
revolução?
Soberania Humana
O Brasil adentra sem licença pedir
ao Haiti que não cabe recusar,
mas ao país cabe restringir
se o Haiti quiser aqui adentrar?
O Haiti vem em paz ao Brasil,
ao Brasil que vai com armas ao Haiti,
mas que humanitária, esta ajuda à sangue frio
se o que se limita é a paz que está aqui?
Pois se há cá, um lugar nesta terra
que a miséria, doença, degradação
antes de haitianos, humanos enterra;
não há pátria, Brasil, Haiti, migração.
Parada pro ir e vir
Os empresários (coitados)
provaram não ter culpa
já que encaram um direito
como algo do “mercado”:
Quanto mais usuários,
menor é a oferta,
aumenta-se o lucro
e o bilhete mais caro.
Mas se ficarmos calados
nós a maioria
aceitamos diminuírem
o ir e vir já limitado?
Estará tudo parado
se o governo não aprendeu
que um direito dito público
não se rende ao que é privado.
Pois sejamos indomados
se aqueles um por cento
decidirem contra nós
os rumos desse estado.
Pelo passe livre
Contra o aumento
Pelo ir e vir
i-limitado!
Esta mercadoria
Arte escrava,
artista temporal
o que faz o mercado?
Prostitui a ele
pelo capital.
Ontem, hoje não
tocava João Gilberto.
Atingiram a meta
venderam violão
será que isso é certo?
Certo na cultura
que mata o vivo.
E se dá vida ao morto
é pra subitamente
matá-lo de novo.
Pois querem vender
a matéria, o corpo, aparência.
Suprime o espírito,
forja o “não é”,
pra que a essência?
Mas que incompatíveis
matar é pecado.
Matar duas vezes:
moda passageira,
a cultura em mercado.
Este próprio poema (paradoxo eterno),
mercadoria cultural.
Será seu refém
caso no mercado
gerar capital.
Cacique de Guaiviry
Foss’eu levar um adulto,
velho ou criança
me afamaria canibal,
se o homem branco é quem leva
sequer há condição
de julgá-lo cultural.
Foss’eu matar um presidente,
prefeito ou governador
gritariam por “justiça”,
se matam eu mesmo, um cacique
calam-se jornais, políticos:
os índios não rendem notícia.
Foss’eu matar um papa
pastor ou cardeal
enquadrariam os “ateus”,
se matam eu, a xamã
calam-se igrejas, fiéis:
os índios não servem a(pra) Deus.
Foss’eu escrever
neste momento covarde
que o branco me obriga a partir,
diria: sei que a luta
não se faz com o umbigo,
é coletiva e vai prosseguir
pois companheiros de causa,
mesmo que roubem meu corpo,
entendem:
a minha presença, meu grito de luta
desta, sofrida matéria,
transcendem:
“Guaiviry é Terra Indígena,
em frente,
meu povo,
enfrentem!”