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Frase de Gabriel Hayashida de Arruda

⁠Não fiz o que queria, porque nunca soube o que queria. Não amei o que deveria, porque nunca soube se deveria. E, entre esse "dever" e esse "querer", perdi-me. Perdi-me entre o ser e o parecer, onde se estendia um campo de batalha, onde todas as minhas vontades desertavam antes mesmo do primeiro tiro, deixando apenas as bandeiras plantadas em território nenhum. As pessoas vivem. Eu assisto ao filme mudo da existência alheia, da poltrona desconfortável da minha consciência — esta cadeira de espinhos que chamo de "eu". Elas vivem de migalhas e festas, de segundas-feiras sem graça, de desejos medíocres, de pecados sem culpa. E eu tenho mais sonhos que noites, mas nenhuma janela para voar. Ah, se ao menos me dessem um riso emprestado, um amor qualquer, uma vida sem importância — eu a aceitaria como um mendigo aceita a última moeda que não compra nada, mas faz tilintar no bolso. Mas não me deram. E agora, o que me resta é escrever versos, poesia que ninguém lerá num caderno que ninguém encontrará. Talvez eu mesmo tenha sido apenas um rascunho de homem, aquela primeira página arrancada e amassada no cesto de papel, onde Deus joga os projetos inacabados. Há todo um universo que não me pertence, todo um dolorido e quieto não-viver. As pessoas passam — não como rios, mas como garrafas vazias rolando no asfalto. Não tive paixões — tive asterismos. Constelações de desejos que nunca se tocaram. Quando a noite aperta o cerco como um credor implacável, e os últimos faróis se apagam como velas num bolo de aniversário não comemorado, eu desenterro meus mortos e faço-lhes dançar ao som de um órgão de rua. Tenho mais sonhos que o céu tem estrelas, mas nenhum chão onde plantá-los. Ter todos os apetites e nenhum dente, todas as fomes e nenhuma boca. Eu, notário do amor não consumado, registrava em ata o que nunca aconteceu — protocolos de beijos não dados, autos de carícias não realizadas, processos de encontros que permaneceram eternamente na sala de espera do destino. Enquanto, lá fora, implacável como um metrô noturno, a Realidade segue, indiferente, passando sem parar pela minha estação.

Gabriel Hayashida de Arruda

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Gabriel Hayashida de Arruda

Indigente Não sei quem sou nesta vida. Fui tudo, mas não sou nada. Louco, poeta, por vezes filósofo. Intenso e verdadeiro, por vezes ingênuo. Sou um idiota que ama a vida, um amor platônico com sabor de infinito. Tantas vezes me feri, mas sorri. Não sei de onde vim, nem para on…
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Indigente Não sei quem sou nesta vida. Fui tudo, mas não sou nada. Louco, poeta, por vezes filósofo. Intenso e verdadeiro, por vezes ingênuo. Sou um idiota que ama a vida, um amor platônico com sabor de infinito. Tantas vezes me feri, mas sorri. Não sei de onde vim, nem para onde vou. De tudo que me resta, não tenho pressa para chegar a um lugar que desconheço. Conheci pessoas, amei, sofri, vivi. Não sei se da maneira certa, mas do meu jeito eu vivi. De poucas coisas me orgulho, mas de nenhuma me arrependo. Sou o que sou, não um Deus, mas um homem. Fui feliz na simplicidade desta complexa vida.

⁠Oração do Poeta Pai Nosso, que és a essência em tudo o que é e se torna, santificado seja o silêncio em que Te ocultas.
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⁠Oração do Poeta Pai Nosso, que és a essência em tudo o que é e se torna, santificado seja o silêncio em que Te ocultas. Que venha a nós a razão que desvenda o indefinido, e que se realize a Tua vontade nas interrogações de nossas mentes e nos pulsos de nossos corações. Concede-nos, neste instante incerto, o bálsamo que alivia as almas exaustas, perdoa-nos a vertigem de existir, assim como perdoamos a inevitável tolice dos que acreditam saber. Não nos deixes sós perante a vastidão do nada, mas, se nada houver, ensina-nos a aceitá-lo.

⁠Eu já estou morto. Ao escrever este poema, sou apenas um cadáver que teima em segurar a caneta. Não sei o dia, nem a hora de quando eu morri —
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⁠Eu já estou morto. Ao escrever este poema, sou apenas um cadáver que teima em segurar a caneta. Não sei o dia, nem a hora de quando eu morri — talvez na juventude, talvez no primeiro verso, talvez no primeiro amor que não me amou. E é isso. Estou morto, e não há mais volta. Ninguém chorou. Não houve velório, nem lamentos, nem lápide com meu nome. Morri e continuei vivo, preso ao corpo como se ele fosse meu. Sem céu, nem inferno. Após a morte, só há o hábito de existir, onde meu cadáver se senta a escrever como quem cava a própria cova com uma colher de chá. Continuei a fazer as coisas de quem vive: amar sem saber o que é amor, crer sem fé, desejar sem saber por quê. Morto, mas não suficientemente; vivo, mas não inteiramente. Sem saber se invento a vida ou se ela me inventa. Morri sem testemunhas. Nenhum mau cheiro, nenhum adeus, nenhum vestígio. E o pior: nem eu mesmo percebi.

O Mendigo de Si Tenho um teto — eis a concha, mas o caracol já partiu.
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O Mendigo de Si Tenho um teto — eis a concha, mas o caracol já partiu. Quatro paredes me cercam, mas nenhuma me contém. Tenho uma cama — é porto, mas o barco não chega a si. Meus lençóis envolvem o corpo, mas a alma foge em segredo. Tenho amigos — bons, presentes —, e, ainda assim, minha solidão fala mais alto que todas as vozes ao redor. Tenho família — carinhosa, constante —, mas algo em mim duvida do amor que recebo. Talvez por nunca me sentir digno. Tenho fé — rezo, creio, suplico —, mas a esperança é fruto que apodrece na mesa posta. Acredito em Deus, mas duvido de mim. Não me falta coisa alguma. Falta-me o ser que as coisas têm. Até o pão que como tem o gosto de outro pão — um que ninguém me dá. Pergunto-me, sem resposta: se tudo em mim é empréstimo, quem sou eu quando não peço? Sou um mendigo de mim, perdido no que me sobra. E, se um dia me acharem, que me devolvam a alma. Ah, não é ingratidão, nem demência, nem soberba. É possuir tudo — e, no fundo do peito, descobrir que nada se tem. Não me falta o pão, nem o teto, nem o abraço. Falta-me o gosto de existir. Tudo me sobra — e, mesmo assim, falta-me o nome do que perdi antes de possuir. Talvez não exista esse “eu” que espero reencontrar como quem acha as chaves no bolso de um casaco antigo.