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Frases de Evan do carmo

1.430 frases

**Nos Teus Olhos** Nos teus olhos, um brilho sereno Um sorriso que invade o silêncio
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**Nos Teus Olhos** Nos teus olhos, um brilho sereno Um sorriso que invade o silêncio E cada gesto tão pequeno Transforma o mundo em meu alento Quando me abraças devagar E deixas teu calor ficar Tudo em mim se acende Tu dizes palavras tão tuas Simples, mas tão nuas Que o meu peito compreende Tu chegaste como a luz Desvendando o que seduz E dissipando o escuro És tudo em mim Eu em ti sem fim Promessas ditas no olhar mais puro E quando o teu rosto se aproxima Uma chama em mim se firma Meu coração se derrama Há nos teus passos uma dança Um caminho onde a esperança Se deita e sonha contigo E cada dia ao teu lado Faz do meu destino encantado Um poema vivo Tu és meu céu, minha terra Meu começo e fim de espera E sempre que o amor chama És tu quem eu proclamo

⁠INVENTO E DISFARÇO Passaste, tão bela, qual brisa ligeira, Deixando um perfume que o tempo não leva.
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⁠INVENTO E DISFARÇO Passaste, tão bela, qual brisa ligeira, Deixando um perfume que o tempo não leva. Teu rastro, um enigma que o peito me crava, Teus olhos, abismos, meu mundo exilado. Nos labirintos onde me deixaste, Procuro teu eco, a sombra que parte. Não sei se existes ou foste miragem, Mas vives em mim, como tatuagem. És som no meu canto, segredo que guardo, O perdão que não peço, o silêncio covarde. Te perco e te acho na arte que faço, E a cada suspiro, invento e disfarço.

⁠**Convite à Saudade** Se a saudade vier te envolver, ou a ausência do café te fizer tremer,
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⁠**Convite à Saudade** Se a saudade vier te envolver, ou a ausência do café te fizer tremer, não te prives da coragem de bater à porta da casa que sempre te quer. Aqui, entre xícaras e silêncios, resolveremos o que o peito exige: o calor de um abraço, ou o fervor que a cafeína dirige. Talvez, no amargo, encontre o doce, e na pausa, o tempo que não cessa. Talvez sejamos o instante que tece o fim da ausência que o peito confessa. Então venha, mesmo sem aviso, que entre o café e a palavra dita, cura-se o vício, acalma-se a alma, e a saudade vira poesia infinita.

⁠Se eu morresse hoje Se eu morresse hoje, quem sentiria?
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⁠Se eu morresse hoje Se eu morresse hoje, quem sentiria? Quantas almas em desalinho carregariam meu nome no peito, como um grito surdo, uma ausência que não se explica? Minha mãe choraria, seus olhos rasgando o véu do tempo, e em sua dor caberia não só o filho, mas os ecos de todas as suas perdas. Minhas mãos deixariam de segurar os pequenos dedos dos meus filhos, que talvez crescessem perguntando como se vive com o buraco no abraço do pai. Se eu morresse hoje, minha mulher carregaria o peso de um vazio que o amor não preenche, e as noites seriam mais longas, não por falta de sono, mas pela ausência de risos, pelos silêncios maiores que o quarto. Dois ou três amigos, aqueles que chamam pelo meu nome com um afeto que só eles sabem pronunciar, levantar-se-iam mais devagar no dia seguinte, com o peso de uma saudade que não cabe no copo ou na música. E o mundo? O mundo seguiria intacto, como segue após a queda de uma folha, após o último canto de um pássaro na mata. O mundo não saberia que perdi, nem que vivi, porque a dor de uma ausência só ecoa nos corações que a carregam. Mas, e eu? Se eu morresse hoje, quem seguraria minha própria dor? A dor de saber que deixei frases inacabadas, poemas interrompidos, canções sem acordes finais. O projeto de uma vida, essa frase tortuosa e infinita, sem ponto final, mas com uma interrupção brusca. Se eu morresse hoje, seria um adeus aos livros que não li, às manhãs que não vi nascer, aos ventos que não senti na pele. Seria um adeus ao riso do meu filho, ao jeito que minha mãe fala meu nome, à canção favorita da minha mulher, ao brilho dos olhos de um amigo quando se lembra de algo bom. E seria um adeus a mim mesmo, a esse sonho confuso de ser, de entender o que nunca se explica, de existir entre tantas quedas, tantas fugas, tantas tentativas de encontrar a linha que une o começo ao fim. Se eu morresse hoje, não seria só morte; seria o vazio do que não foi dito, do que não foi sentido, do que não foi entregue. E, na última respiração, talvez eu entendesse: viver é sempre escrever, mesmo sem saber o final.

FRAGMENTOS DO CAOS ⁠O caos é um fio entre os dedos, uma dança sem coreografia,
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FRAGMENTOS DO CAOS ⁠O caos é um fio entre os dedos, uma dança sem coreografia, onde o silêncio e a tempestade se encontram no mesmo passo. Eu, que procurei a ordem, agora deixo os dias caírem como folhas ao vento. Os sonhos, feitos de estrelas quebradas, se constroem nas fissuras do instante. Cada erro é uma vitória secreta, cada dúvida, um caminho escondido na curva do tempo que escorre lento como água por entre os dedos. E, quando o mundo grita seu peso em vozes de aço e de dor, me perco no sereno vazio, onde as pedras sabem o segredo de como ser eternas sem esforço. Assim, encontro a paz não em um canto, mas na ousadia de me espalhar pelos espaços entre o tudo e o nada. Deixo que o caos me pinte de cores que nunca imaginei, e, sem pressa, aprendo que não há fim onde tudo começa.

⁠**Se Eu Morresse Hoje** Se eu morresse hoje, quem sentiria? Minha mãe, com lágrimas que rasgam o tempo,
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⁠**Se Eu Morresse Hoje** Se eu morresse hoje, quem sentiria? Minha mãe, com lágrimas que rasgam o tempo, meus filhos, crescendo sem o calor das minhas mãos, minha mulher, habitando noites longas e vazias, dois ou três amigos, mais lentos no amanhecer da saudade. E o mundo? Seguiria, indiferente, como após a queda de uma folha. Mas eu? Eu sofreria o peso do inacabado: poemas interrompidos, abraços que não dei, a linha invisível que une início e fim, cortada abruptamente. Morrer hoje seria mais que ausência. Seria um adeus ao que não vivi, um vazio gritante do que não foi entregue. E talvez, no último suspiro, eu compreendesse que viver é um texto sem fim, escrito no escuro do tempo.

⁠Poema do Abismo O homem ergue-se, cego, sobre as ruínas do ser, com a ilusão de tocar o céu, de conquistar a luz.
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⁠Poema do Abismo O homem ergue-se, cego, sobre as ruínas do ser, com a ilusão de tocar o céu, de conquistar a luz. Mas o céu é vazio, a luz, um reflexo do abismo, e ele caminha em círculos, perdido, sem fim. A razão, essa chama fraca, não ilumina mais o caminho, apenas queima, sem piedade, a carne que se arrasta. O mundo é uma mentira, um espelho quebrado, onde os rostos são sombras e a verdade é um grito. Os poetas, esses destemidos, olham o abismo, mas o abismo é profundo demais para ser compreendido. Eles escrevem, mas suas palavras são ecos de desespero, gritos que se perdem nas cavernas do caos. O homem luta, mas a luta é fútil, pois o caos não cede, ele apenas se expande. A liberdade é uma ilusão, um véu rasgado que a morte, implacável, rasga sem compaixão. E assim, o homem cai, sem saber, sem lutar, afogado em suas próprias mentiras, enquanto o poeta observa, impotente, sabendo que não há fuga, que a dor é eterna.

⁠Vértice do Absurdo A vida é um charco sem fundo, um reflexo turvo de estrelas mortas.
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⁠Vértice do Absurdo A vida é um charco sem fundo, um reflexo turvo de estrelas mortas. Gritamos contra o caos, mas o caos não ouve. Ele ri, como uma fera que mastiga o silêncio. A revolta é um jogo de crianças cegas, chutando pedras no vazio infinito. O universo não tem orelhas, nem olhos para testemunhar nossos gestos inúteis. Que é o homem, senão pó fingindo ser luz? Um grão na tempestade, uma mentira que respira por hábito. Resta-nos o quê? A queda? A rendição? Afundamos em perguntas como num pântano, nossas respostas são véus rasgados flutuando na brisa podre do absurdo. Deus é uma sombra que perdemos ao meio-dia. E mesmo assim, caminhamos. Entre ruínas, sob céus que nos odeiam, rimos de nossa carne apodrecida, fingindo que ela não carrega o peso da eternidade. A vitória? Não existe. O caos vence sempre, não porque é forte, mas porque é eterno. E nós? Nós somos apenas ecos, gritos que se afogam na noite sem fim.

LABIRINTO Andei sem rota, batendo na porta
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LABIRINTO Andei sem rota, batendo na porta que não se abria. Meu medo sumiu. Perdi a razão. Neguei ao oráculo meu sangue e perdão. A musa Ariadne se esqueceu de mim. Não veio ao encontro marcado no fim — no fim da viagem, da tola miragem que venderam pra mim. Eu sei que estou perdido no caos, no vácuo do mundo, sem paz ou redenção. Sou homem, sou tolo, vestido de púrpura, coroa de espinho, ferida divina, forjada do barro que volta ao chão.

⁠A Visão de Sofia Era ela. Sofia…
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⁠A Visão de Sofia Era ela. Sofia… Surgiu como uma aparição entre os sinos e os cascos. A carruagem era dourada, mas ela… ela flutuava. Seus olhos não pousaram sobre mim — estavam além do mundo. Ela voava, sim. Eu juro. Saltou da carruagem como quem desfaz a matéria. Não tocava o chão. Era um anjo? Era uma ave? Era a Espanha inteira me chamando ao trono? …Ou apenas o amor que nunca tive, me despindo de toda razão? Eu gritei seu nome. Mas minha voz era vento. Os cavalos corriam. Os criados riam. E ela — Sofia! — atravessava o ar como uma promessa que nunca se cumpre. Ela me viu? Ela sabia? Ou fui apenas mais um vulto aos seus pés de nuvem? …Meus pés, sim, ainda estavam na lama. Mas a alma… a alma já era pássaro.

⁠Escrever, hoje em dia, é um ato de resistência contra a insanidade coletiva que nos domestica, que nos embrutece, que nos impede de perceber a dor do outro. Vivemos num mundo de intolerância, de verdades absolutas, onde quem duvida morre. Na escrita, há uma brecha. Uma fresta de…
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⁠Escrever, hoje em dia, é um ato de resistência contra a insanidade coletiva que nos domestica, que nos embrutece, que nos impede de perceber a dor do outro. Vivemos num mundo de intolerância, de verdades absolutas, onde quem duvida morre. Na escrita, há uma brecha. Uma fresta de lucidez. Um instante de verdade. Ali, diante da página, o poeta — como um semideus — nos apresenta a beleza honesta da dor. Ele nos representa como somos: seres humanos. Falhos, imperfeitos, mas humanos. E durante o tempo da leitura, sem nenhuma distração, sem nenhum pensamento alheio, nos conectamos com quem somos. Com nossa essência. E ao perceber isso, algo se transforma. Porque há uma catarse que acontece. Às vezes sutil, às vezes brutal. Mas acontece. Saímos da leitura mexidos, acordados. Descobrimos a força incrível que é ser humano. O poder que temos em mãos. A capacidade de sonhar — mesmo com tudo em ruínas. A pergunta é: o que vamos fazer com isso? Vamos tentar mudar o mundo, ou voltar à realidade mórbida, fingindo que nada foi dito? A poesia nos entrega uma verdade. E a verdade, uma vez vista, não pode mais ser ignorada.

⁠Sobre crescer e sobreviver Se desejamos crescer, é preciso romper barreiras. Não há como florescer na inércia.
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⁠Sobre crescer e sobreviver Se desejamos crescer, é preciso romper barreiras. Não há como florescer na inércia. Não se cresce abraçado ao vitimismo, nem ancorado na conformidade. E, sobretudo, não se cresce com medo. Medo de desagradar, de falhar, de ser mal interpretado — o medo de não caber na expectativa alheia é uma prisão disfarçada de prudência. Li, certa vez, que especialistas recomendam um exercício simples, mas profundo: escrever o que se pensa. Colocar no papel a imagem de quem queremos nos tornar. Construir-se em tempo real, com palavras como tijolos e sangue como argamassa. Eu fiz isso. A vida inteira. Construi um império de sonho. Mais de 40 livros. Cada um deles foi uma escada plantada no escuro. Sem eles, talvez eu fosse um anônimo completo — um homem comum, apagado por dentro. Mas é importante dizer: isso, por si só, não significa sucesso. Não falo de vitórias públicas. Falo de sobrevivência. Escrever foi meu modo de não desaparecer. Foi minha maneira de resistir ao apagamento interior que ameaça todos os que sentem demais. Transformei em palavra aquilo que o mundo tentava silenciar em mim. E isso, por mais que não me tenha dado aplausos ou riqueza, me deu algo ainda mais raro: consistência.

⁠Confissão de um artista incompreendido Eu só sou artista quando escrevo. Tocar, cantar — tudo isso, por mais que me habite, me degrada. Há um processo silencioso de deterioração da minha alma artística quando tento me expressar fora da palavra. Como se algo se perdesse no ar.…
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⁠Confissão de um artista incompreendido Eu só sou artista quando escrevo. Tocar, cantar — tudo isso, por mais que me habite, me degrada. Há um processo silencioso de deterioração da minha alma artística quando tento me expressar fora da palavra. Como se algo se perdesse no ar. Como se aquilo que eu sou, no fundo, não coubesse no gesto ou na voz. Minhas melodias? Eu as crio em catarse. Elas nascem do abismo, do indizível, mas raramente alcançam quem ouve. Alguns me dizem, com um sorriso breve: “muito legal.” Outros me parabenizam — por educação, talvez. Mas eu percebo. Eu sei. A língua que falo, com minha arte, não chega audível aos seus ouvidos. Eles não escutam o que eu ofereço. Escutam outra coisa. Um som qualquer. Um ruído bonito, talvez. Mas não escutam eu. É por isso que, quando escrevo, me sinto inteiro. Porque sei que um — um só já basta — um leitor, em qualquer tempo, há de entender. Há de perceber. Há de aprender a língua secreta do meu ditirambo. Porque a palavra escrita não exige pressa, não pede aprovação imediata. Ela se deixa ler por quem for capaz de ouvir o silêncio entre as sílabas. E é ali, nesse instante invisível, que eu sou artista por inteiro.

⁠Eis-me entre homens, meu irmão, na angústia e na dor de saber da finitude — e da inutilidade da vida
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⁠Eis-me entre homens, meu irmão, na angústia e na dor de saber da finitude — e da inutilidade da vida quando o assunto é a eternidade. Amo e odeio essa possibilidade. Convivo entre homens que, embora tente compreender, enxergo como fracos: almas perdidas no labirinto da consciência da morte. Cegos guiando cegos, todos buscam entender o que não é possível, e acima de tudo, tentam encontrar sentido naquilo que apenas repetem — como se a crença, por si, salvasse. Às vezes penso: talvez sejam como eu, alguém que aprendeu a repetir os erros ancestrais — a ilusão da crença de que há algum sentido na morte do homem. Sobretudo depois de se conhecer a sentença: “Tu és pó, e ao pó voltarás.” Me solidarizo com esses homens. Mas, ao contrário deles, na maior parte do tempo, eu nego qualquer sentido ao universo. Rejeito qualquer ideia cósmica ou estoica de metafísica — seja a da alma imortal, seja a da carne eterna, ou da saturação de algum prazer físico. Tudo é em vão. Seguimos como ovelhas para o abate, e todas as crenças desabam quando a razão nos assalta, como um raio que, vez por outra, ilumina demais.

⁠O fato é que todo ser humano, independente de sua função — artista, médico, poeta, professor, alpinista, pescador, pedreiro, engenheiro, presidente ou imperador —, vive simulando um projeto de vida. Todos, a seu modo, tentam iludir o tempo, como quem constrói uma ponte sobre o a…
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⁠O fato é que todo ser humano, independente de sua função — artista, médico, poeta, professor, alpinista, pescador, pedreiro, engenheiro, presidente ou imperador —, vive simulando um projeto de vida. Todos, a seu modo, tentam iludir o tempo, como quem constrói uma ponte sobre o abismo da morte. Acreditam, secretamente ou abertamente, que a finitude não é um problema sem solução. Buscam algo maior do que si mesmos: um gesto, uma obra, um afeto, um nome, uma fé — qualquer coisa que possa tocar a eternidade."

⁠HELENO (poema para meu pai) Não sei se o tempo te levou
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⁠HELENO (poema para meu pai) Não sei se o tempo te levou ou apenas te escondeu — num canto do corpo, num gesto meu. Tinhas mãos de lavra e mundo, silêncio denso, olhar profundo, e uma coragem que não gritava, mas era chão. Era chão. Morreste cedo demais pra mim, mas deixaste cedo o bastante pra nunca morrer de todo. Ficou teu modo de erguer o rosto, de não baixar os olhos ao medo, de fazer do pouco um gesto inteiro. Tu não sabias de poesia — mas tinhas verso nos ombros, rima nos passos, e um segredo de eternidade no modo exato de calar. E eu, que fiquei menino, fiz da tua ausência meu templo. Aprendi a te lembrar sem fotografia, a te honrar sem retrato, a te ouvir sem som. Heleno: nome de força quieta, de alma que não se despede. Tu foste antes que eu soubesse quem eu era — mas hoje, tudo em mim te repete

⁠Tael fita o céu Escrevo coisas sérias. Assuntos profundos.
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⁠Tael fita o céu Escrevo coisas sérias. Assuntos profundos. Negando a metafísica — enquanto Tael, meu gato, fita o céu pela janela. De cima da cama onde me sento, ele me observa, vez ou outra, com aquele olhar entre o espanto e o escárnio. Tenho a impressão de que zomba de mim. Seu silêncio parece conter uma sabedoria que me falta. Olha as estrelas com um assombro calmo, como quem já conhece os segredos que eu jamais saberei. E quando me encara, sinto uma tristeza piedosa naquele olhar felino, uma espécie de compaixão muda, como se dissesse: "Tu ainda buscas o que não se encontra." Tael está pleno. Sem desejos. Sem ansiedade. Sem angústia pelo tempo ou pela eternidade. E eu aqui — racional, pensante, errante — buscando uma resposta invisível que não existe. O que tenho de superior a ele, talvez, seja apenas essa razão que pergunta se a razão é necessária.

⁠O Encantamento A princípio, ele acreditou tê-la visto entre as colunas do templo. Não um templo de mármore — mas o da própria mente. Ali, onde as musas habitam como sombras antigas, ela surgiu. Seus olhos, tão serenos, pareciam conter os astros. Seu gesto mínimo, de afastar os…
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⁠O Encantamento A princípio, ele acreditou tê-la visto entre as colunas do templo. Não um templo de mármore — mas o da própria mente. Ali, onde as musas habitam como sombras antigas, ela surgiu. Seus olhos, tão serenos, pareciam conter os astros. Seu gesto mínimo, de afastar os cabelos do rosto, era um ritual solar. Ele pensou: É Ariadne. A filha dos deuses. A que guarda o fio do caos. Ele era artista. Não dos que vendem quadros em feiras nem dos que frequentam coquetéis. Era daqueles que se perdem no traço de uma linha, ou em uma frase que nunca termina. Vivia no exílio da lucidez, no limiar entre o sagrado e o delírio. E ela apareceu assim. Simples. Com um vestido qualquer. Mas para ele era sacerdotisa. Musa. Mistério. Sua mente parecia dançar sobre os abismos como uma acrobata dos ventos — e ele se encantou por aquela inteligência sem nome, por aquele silêncio que parecia conter todas as palavras do mundo ainda não ditas. — Você não é daqui — ele disse, certo de que falava com uma mulher vinda de outra esfera. Mas os dias passaram. E o que era véu foi tecido. O que era bruma, forma. A musa, aos poucos, se revelava humana. Com certezas comuns, opiniões previsíveis. Não havia abismo: apenas convicções. Ela acreditava em causas, em partidos, em fronteiras morais. Entre o sim e o não, ela nunca hesitava. Entre o bem e o mal, escolhia com pressa. Ele, que vivia das nuances, das contradições, do absurdo, sentiu uma dor sem nome. — Ela é binária — pensou. E doía. Não porque ela fosse assim — mas porque ele havia amado nela o que ela nunca fora. E então compreendeu: sua arte sempre fora isso — um esforço patético de ver divindade em quem só carregava o peso da humanidade.

⁠O Encantamento A princípio, ele pensou que ela fosse Ariadne — uma ninfa perdida entre os mitos e as constelações. Pensou que sua mente fosse um milagre oculto dos deuses, uma peça rara entre os destroços do caos. Via nela o brilho do improvável, como se cada gesto carregasse u…
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⁠O Encantamento A princípio, ele pensou que ela fosse Ariadne — uma ninfa perdida entre os mitos e as constelações. Pensou que sua mente fosse um milagre oculto dos deuses, uma peça rara entre os destroços do caos. Via nela o brilho do improvável, como se cada gesto carregasse um segredo antigo. Mas com o passar dos dias, ela foi se revelando... comum. Pessoa binária — presa na contemplação medíocre entre o sim e o não, entre o bem e o mal. Uma alma regida por manuais. Uma mulher como tantas. E ainda assim, ele a desejava. Não por aquilo que ela era, mas por aquilo que ele imaginava que poderia ser, se ela aceitasse se lançar com ele ao vazio. Ele queria a vertigem. Queria sair do chão com ela, voar — não sobre nuvens, mas sobre abismos. Queria perder-se e, no fundo da queda, encontrá-la. Ele era um homem subterrâneo. Habitava no silêncio, na contramão do tempo. Carregava na alma uma solidão antiga, quase mineral. Tinha feito do abismo seu ateliê, seu altar e sua casa. E nela enxergava a possibilidade de dança, de salvação, de ruína bela. Queria levá-la para esse mundo, onde a arte não tem preço e os gestos não pedem permissão. Queria que ela ouvisse o som da vertigem, o canto obscuro que move os artistas quando amam. Mas ela tinha sonhos — Sonhos com raízes, não com asas. Queria se casar, ter filhos, construir uma casa com varanda e cortinas. Queria um homem estável, domingos tranquilos e filhos com nomes decididos muito antes de nascerem. — E se não houver futuro? — ele perguntou, numa madrugada em que ela falava de imóveis e certidões. — Então a gente inventa um — ela disse, sorrindo como quem jamais compreendeu a pergunta. Ela não o entendia. Achava bonito o que ele dizia, como quem acha bonita a chuva ou a música triste — mas não desejava se molhar, nem chorar. Ele queria que ela rasgasse o destino e ardessse com ele num fogo sem nome. Mas ela dizia: — Você precisa crescer. E ele sentia que era exatamente o oposto: precisava desaprender. No fim, ela partiu. E ele ficou — com a ausência dela, com a vertigem não vivida, e com a verdade que o tempo traz como um veneno lento: não era ela quem havia sido pequena — era ele quem havia sonhado grande demais.

⁠Era outubro, na cidade velha de pedra, de areia e espanto. Foi de propósito — que sem querer — eu te olhei.
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⁠Era outubro, na cidade velha de pedra, de areia e espanto. Foi de propósito — que sem querer — eu te olhei. Você também, sem disfarce, me encarou. E eu pensei: o que é tudo isso? Artifício do acaso, ou um descuido da dor? O tempo parou. O céu ficou suspenso. A primavera se atrasou. A luz dos teus olhos me iluminou — quando dei por mim, era verão. Como parece ao vento eu sussurrei um monólogo Sem melancolia, nem saudade. Quando tudo terminou, como num sonho Inefável, eu aprendi a soletrar A palavra eternidade.

⁠O Último Grito do Velho Mundo (ensaio lírico-profético) O mundo não acabou de súbito.
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⁠O Último Grito do Velho Mundo (ensaio lírico-profético) O mundo não acabou de súbito. Ele se gastou. Como um círio queimando por dentro. Como a esperança que vira cinza sem ninguém perceber. Não foi a bomba, não foi o vírus. Foi o ego. Foi a pressa. Foi a mentira repetida até virar fé. As nações marcharam para o abismo de olhos bem abertos. Brindaram com vinho podre à vitória de um rei sem rosto, de um deus sem alma, de um futuro sem ternura. O homem construiu muralhas, mas esqueceu a casa. Construiu máquinas, mas esqueceu os filhos. Construiu impérios, mas esqueceu a si mesmo. O céu chorou. Mas ninguém levantou os olhos. Estavam ocupados demais com as telas. Com as senhas. Com os ídolos de carne e marketing. Veio o colapso. Mas não foi tragédia — foi revelação. A Terra cuspiu os venenos. O mar devolveu os corpos. As árvores negaram seus frutos. E mesmo assim, houve quem risse. Houve quem vendesse ingresso para assistir ao fim. O último grito não foi de dor. Foi de desespero. Foi de quem percebeu tarde demais que já não sabia amar. Que já não sabia parar. Mas — no ventre da escuridão, um resto de luz ainda tremia. Era uma criança. Era uma canção. Era uma palavra esquecida na boca dos justos. Aqueles que não negaram o coração, aqueles que enterraram os seus mortos com lágrimas, aqueles que ouviram a dor do outro como quem ouve a própria mãe. Esses não morreram. Dormiram. E o paraíso, em segredo, começou a sonhar com eles.

⁠ Tatuagem Invisível Jamais tatuei meu corpo — não foi medo, Mas por respeito à pele e ao seu clarão.
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⁠ Tatuagem Invisível Jamais tatuei meu corpo — não foi medo, Mas por respeito à pele e ao seu clarão. É nela que o silêncio se faz imensidão, É nela que se oculta o meu segredo. Quem sangra e não soluça, busca cedo Marcar na carne a dor, sua prisão. Mas minha dor gravou-se em dimensão Que foge ao ferro, ao traço, ao frio enredo. Só tenho uma inscrição — Iranete, amor — Cravada em mim no osso e na retina, No vão da alma onde o tempo se desfaz. E o mundo, ao me olhar, vê esse fervor: Um nome eterno em luz, sem tinta, Que só se lê no corpo feito em paz. Por Evan do Carmo

⁠O Último Grito do Velho Mundo — Capítulo I Ó tu, que escutas as trombetas antigas, que ressoam através dos séculos, Ergue teu olhar aos primórdios, quando o Verbo ainda repousava em silêncio,
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⁠O Último Grito do Velho Mundo — Capítulo I Ó tu, que escutas as trombetas antigas, que ressoam através dos séculos, Ergue teu olhar aos primórdios, quando o Verbo ainda repousava em silêncio, E a semente da Esperança, lançada na terra manchada, germinou entre espinhos. Desde o momento em que a serpente sibilou sua traição no Éden perdido, Quando a mulher foi marcada com o destino de um Filho que esmagaria a cabeça do dragão, (Gênesis 3:15 — o eterno conflito entre luz e sombra, entre o semente do mulher e o veneno da serpente) — Ali nasceu a promessa que ecoaria como um farol na escuridão do mundo. Eis que vieram os profetas, vestindo-se da voz do Altíssimo, Isaías, com seus olhos videntes, anunciou o nascimento do Rei, O varão que tomaria sobre si as dores do mundo, Ferido por nossas transgressões, pisado no pó da humilhação, Mas cujo cálice de sofrimento traria a vida a muitos. “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; E o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será Admirável, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.” (Isaías 9:6) Ele veio, o Messias prometido, entre os homens, Vestindo a mortalidade, abraçando o destino da cruz, E mesmo a morte não pôde retê-lo, pois o terceiro dia rompeu o silêncio do túmulo, A vitória sobre a morte, a luz que a escuridão não pode vencer. E os primeiros, na fé primitiva, tomaram para si o fogo do Espírito, Espalhando a nova aliança como faíscas no vento, Enquanto o mundo gentio girava sob o jugo dos impérios, E a sombra da besta se estendia, clamando por adoração e domínio. Mas as profecias não cessam — o Apocalipse se desenrola em rolos de fogo, A trombeta soa sete vezes, a grande tribulação se abate, E eis que o Armagedom se aproxima, o conflito final entre a luz e as trevas, Onde o Cordeiro e o Dragão travam sua última batalha, E o Reino eterno será inaugurado, para os que permaneceram fiéis. Ó tu, que choras pelo mundo caído, não desesperes, Pois até no último grito há promessa, E após a noite mais densa, o amanhecer do Reino se erguerá, Restaurando a criação, abrindo as portas do paraíso, Onde o homem e o divino se encontrarão novamente em paz.