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Frases de Evan do carmo

1.430 frases

⁠Como gaivota no céu, um cometa seduz, A bailarina se move, se solta no ar, No palco da vida, seus passos conduz
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⁠Como gaivota no céu, um cometa seduz, A bailarina se move, se solta no ar, No palco da vida, seus passos conduz E faz a arte sutil de se equilibrar. Cada giro, um voo livre, um suspirar, Seu corpo, sopro etéreo, rima dissonante, Seus braços, a poesia de se reinventar, Em cada salto, um verso instigante. Seus pés tocam o chão com firme doçura, Deslizam suaves como fina melodia, É dança, é luz, é mar, é coragem e ternura. Bailarina, sua beleza é arte que apraz No palco da vida, força e candura De um sonho que ao vento se faz.

⁠Soneto da Vida Plena Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, não ouve a música do ar,
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⁠Soneto da Vida Plena Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, não ouve a música do ar, quem não encontra graça em si, se apaga, e ao amor-próprio, deixa de amar. Morre lentamente quem se deixa escravo do hábito, dos mesmos trajetos, fiel, quem não muda a marca, não arrisca o novo, ou não conversa com um estranho, cruel. Morre lentamente quem faz da TV um guia, quem evita a paixão e o mundo inteiro, e prefere a certeza, a sombra fria. Morre lentamente quem evita o mistério, quem se queixa do destino, o tempo é traiçoeiro, e abandona o sonho, antes de vê-lo inteiro.

⁠Assim cantava a cotovia, eu, poeta triste, ouvia encantado, sem saber o canto certo, pensava, que sublime melodia,
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⁠Assim cantava a cotovia, eu, poeta triste, ouvia encantado, sem saber o canto certo, pensava, que sublime melodia, e o espanto me levou ao som encoberto. Aproximando-me, para ver a fonte, vi-a então, a ave de luz divina, que, ao voar, me deixou em um horizonte, um deserto árido, onde o sol declina. Seu canto era uma sinfonia de estrelas, uma dança etérea em ondas de luz, que encantou meu ser com notas singelas. No deserto, onde o sol se esconde e reduz, permaneci buscando, sob o céu profundo, a mágica voz que trouxe beleza ao meu mundo. Evan do Carmo

⁠Nas sombras dos morros, histórias cruas, De uma cidade que dança entre luzes e breus, Violência oculta nas vielas, ruas,
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⁠Nas sombras dos morros, histórias cruas, De uma cidade que dança entre luzes e breus, Violência oculta nas vielas, ruas, Rio de Janeiro, onde o sonho perdeu. No alto, palácios de zinco e saudade, Onde a vida resiste, à margem do olhar, Em becos estreitos, o grito da cidade, Ecoa silencioso, difícil de calar. As crianças brincam, sem medo do perigo, Num mundo que esconde, um caos desmedido, Entre balas perdidas e o amor bendito, Semeiam esperança, num terreno erguido. Nos olhos dos jovens, a revolta brota, Uma guerra invisível, sem fim, sem derrota, Onde cada esquina, guarda uma história rota, De um futuro incerto, que a fé não adota. O caos social, um monstro adormecido, Desperta a cada aurora, faminto, destemido, Na luta diária, um povo esquecido, Busca na poesia, um refúgio perdido. O Rio de Janeiro, ferido, encantado, Contrastes que brilham, num cenário desenhado, Onde o belo e o feio, num quadro mesclado, Retratam a cidade, num verso apagado. Os morros que cercam, são guardiões da verdade, Espelhos de um Rio, que clama liberdade, Entre becos e tiros, mora a realidade, De uma cidade partida, em eterna dualidade.

⁠No Meio do Não É um poema que não, um poema que falta,
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⁠No Meio do Não É um poema que não, um poema que falta, que no meio se quebra, e no meio, é. É verso que não se encontra, sombra que dança sem corpo, e mesmo assim és lábio que nunca toco. Poema que nega e me afirma, é o avesso que se revela, nome que se cala e, no entanto, arde no meio do peito. Um poema que se escreve ao não, que vive do entre, do meio, onde és e não estás, onde me consomes, ausência-presente. Oh, não, de fogo e silêncio, um eco sem som, és o que me falta e me sobra, és o meio de tudo que não. Mas no meio, no meio, que não.

⁠Néctar da uva, teus lábios, teu sabor, um vinho raro que escorre no beijo, doçura que inunda, sacia desejo,
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⁠Néctar da uva, teus lábios, teu sabor, um vinho raro que escorre no beijo, doçura que inunda, sacia desejo, na taça entre dentes, teu corpo e calor. A pele encosta, madura e macia, como o fruto da vinha em plena estação. No toque suave, desponta a ousadia, no corpo que pede, murmura paixão. Esse gosto velado, suave e quente, explode em sentidos, poema enebriado; nas bocas que se encontram, no vinho latente, me perco em teu néctar, suco consagrado.

⁠Eu sei Eu sei, que você é tudo que tenho,
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⁠Eu sei Eu sei, que você é tudo que tenho, e não há engenho intelectual quando digo isso. Ao acordar, quando lhe sirvo o café, sinto que o dia só começa quando seu olhar repousa em mim. Ah, meu anjo, minha sorte, meu guia neste escuro existir. Quis voltar ao poeta simples de outrora, livre do peso das palavras pensadas, mas já não sei ser sem sentir.

⁠Teu Olhar Teu olhar tem força que me faz Nos seus labirintos me perder.
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⁠Teu Olhar Teu olhar tem força que me faz Nos seus labirintos me perder. É em vão que tento ir atrás De um vendaval que faz chover. Teu olhar, às vezes, me domina, Outra hora me põe a correr. Teu olhar é luz que me fascina, Nos teus braços quero adormecer. Dormir o sono eterno pra não mais sonhar, Te encontrar no inferno do meu delirar. Dormir o sono eterno pra não mais sonhar, Pra fugir do inferno do meu delirar. Nos teus olhos quero me encontrar. Teu olhar tem força que me faz Nos seus labirintos me perder. É em vão que tento ir atrás De um vendaval que faz chover. Teu olhar, às vezes, me domina, Outra hora me põe a correr. Teu olhar é luz que me fascina, Nos teus braços quero adormecer.

⁠O Peso do Mundo A medida das coisas, o peso do mundo, abismo profundo onde o mar se desfaz.
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⁠O Peso do Mundo A medida das coisas, o peso do mundo, abismo profundo onde o mar se desfaz. As costas do homem, forjado do barro, o medo da morte, açoite voraz. A busca insalubre nas ondas do vento, sonhos abortados, perigos sangrentos. A paz, utopia no vasto existir, a sorte que foge, um monstro a engolir. Davi e o gigante, um conto farsante que não se refaz. No campo terreno, a luta se perde, o forte e o fraco bebem o mesmo veneno.

Sairemos mortos, todos, deste planeta. Como viemos a ficar nesta situação? Um plano metafísico, uma obra de experimentação,
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Sairemos mortos, todos, deste planeta. Como viemos a ficar nesta situação? Um plano metafísico, uma obra de experimentação, Um ensaio crítico sobre redenção. O homem condenado, Pecado que não cometeu, Culpa de Adão, A fruta do saber, Medo de viver, A falta de razão. Tudo é delírio, Abismo sem conforto, Um mar em desespero, Um cais sem pôr do sol. Um sopro no deserto, A praga do divino? Um filho sem destino, Maldito natimorto.

⁠O Riso da Razão A razão nos trouxe longe demais. Fez-se lâmina, espelho, consciência.
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⁠O Riso da Razão A razão nos trouxe longe demais. Fez-se lâmina, espelho, consciência. Inventou nomes para o que morre, catalogou a tragédia, pesou a sombra, criou a ilusão do controle. Mas a morte ri. Riu de Sócrates quando bebeu o veneno, riu de Hamlet segurando o crânio, ri agora de nós, tão lúcidos, tão preparados, tão certos de tudo que se esfarela. A arte nasce dessa consciência: sabemos que vamos morrer, então escrevemos. O poema é a voz do desespero mas também do desafio. Dissimula a finitude, mas não a nega. Rabisca no ar um sentido impossível, um mapa para lugar nenhum. E ainda assim, rimos. Porque entendemos o jogo. Porque, no fim, a única resposta à morte é este delírio lúcido— este poema.

⁠Riso ao Ar Livre Esperamos o que não vem, erguemos muros para o vento,
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⁠Riso ao Ar Livre Esperamos o que não vem, erguemos muros para o vento, nos calamos para dizer nada. O tempo, cego e mudo, tropeça nas próprias pegadas. Rimos— não do mundo, mas dentro dele, não por graça, mas por ruína. A palavra falha, repete, cai como pedra no abismo e volta em eco de gargalhada. Beckett escreve silêncio, Kafka lê a tragédia e ri, Nietzsche dança na beira do abismo. Deleuze escancara a porta e nos joga para fora: o pensamento precisa respirar. Riso esquizo, riso seco, o cômico do além-do-humano. Entre os escombros da certeza, só resta essa alegria dura, essa centelha, esse clarão. E no fim— quando tudo desmorona, quando o palco está vazio, quando a última palavra falha— só nos resta rir.

⁠O desejo da mariposa A mariposa não teme a morte, anseia a luz como quem sonha o eterno.
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⁠O desejo da mariposa A mariposa não teme a morte, anseia a luz como quem sonha o eterno. Seu voo é um verbo que se conjuga em chamas, um desejo faminto de tocar o impossível. Ela não conhece a linguagem do medo, apenas o chamado incandescente, um segredo gravado em suas asas como um poema que se desfaz no fogo. Na lâmpada, no círio, na estrela, tudo nela é pressa de ser centelha, de ser faísca e se tornar universo, de arder até o nome se apagar no vento. E então, no último tremor das asas, quando o brilho a devora sem piedade, ela se torna o que sempre quis: luz sem corpo, incêndio sem fim.

⁠A Mariposa e a Luz A mariposa dança no abismo da noite, cativa de um sol que não nasce.
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⁠A Mariposa e a Luz A mariposa dança no abismo da noite, cativa de um sol que não nasce. Seus olhos são fome de lume, seu corpo, um verso prestes a queimar. Ela não pergunta ao fogo quem é seu dono nem teme o abraço da lâmina ardente. É desejo sem fronteira, um grão de poeira sonhando ser tudo. O tempo não pesa em suas asas, pois tudo o que vive já nasce em ruína. A vida é uma ânsia de brilho, um voo cego rumo ao cerne do nada. E, quando, por fim, toca o imponderável, não há grito, nem sombra, nem fuga. A luz a devora num sopro sem nome, a sede de eternidade, em silêncio, a consome.

⁠Morre o homem, mas ecoa seu nome, na trilha de lama que um dia pisou. Morre o homem, mas resta a história,
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⁠Morre o homem, mas ecoa seu nome, na trilha de lama que um dia pisou. Morre o homem, mas resta a história, não é drama – é destino, é dor. Morre o homem, mas ficam seus feitos, nas marcas do tempo que ele deixou. Morre o homem, mas vive a memória, nos corações que tocou com amor.

⁠Crepúsculo de Ouro O sol despede-se em fogo e mel, derramando luz sobre os ombros da cidade.
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⁠Crepúsculo de Ouro O sol despede-se em fogo e mel, derramando luz sobre os ombros da cidade. As montanhas, sombras líquidas, respiram o último suspiro do dia. Um raio tímido dança no vidro, sussurra segredos ao vento morno. O céu veste ouro, veste brasa, desfaz-se em luz antes do adeus. E a noite, lenta, estende os braços, balsâmica promessa de silêncio. Mas o sol, eterno, dorme apenas, guardado nos olhos de quem o viu. Evan do Carmo.

⁠Poema para Matheus Nachtergaele No palco, ele não pisa — ele flutua, entre o sagrado e o profano, entre o verbo e o silêncio.
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⁠Poema para Matheus Nachtergaele No palco, ele não pisa — ele flutua, entre o sagrado e o profano, entre o verbo e o silêncio. Carrega nos olhos a vertigem dos séculos, no peito, a febre dos que fazem da arte um destino. A dor não o curva, o abismo não o afoga. Ele dança sobre os cacos da ausência, recolhe os vestígios de um nome que nunca partiu, e os devolve ao mundo em cena, em chama, em fúria. Seu corpo é verso, sua voz, uma carta esquecida, um eco de todos que amaram sem resposta. Ele encarna o que o tempo desfez, e do esquecimento faz rito, faz oferenda. E quando as cortinas se fecham, a luz permanece, porque há almas que não pertencem ao mundo, mas insistem em iluminá-lo, como se viver fosse um último ato de redenção.

⁠Tudo é Hábito Tudo é hábito, costume que gera vício, e o que se faz demais nos faz refém.
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⁠Tudo é Hábito Tudo é hábito, costume que gera vício, e o que se faz demais nos faz refém. O vinho aquece, adoça a alma, mas em excesso, curva o homem, faz da taça uma jaula invisível. O amor é luz quando livre, mas quando prende, queima, fere, e o ciúme, sombra de seu brilho, se arrasta lento, como fera à espreita, pronto para devorar. O amante apaixonado, se não contido, pode se tornar destino e maldição. Já não ama, exige, já não sonha, vigia, transforma o desejo em sentença. A busca pelo saber ilumina, mas quem vai fundo demais pode perder o chão, trocar a dúvida pelo vazio, e o mistério pela descrença. Até a fé, se imposta, deixa de ser fonte e vira peso. Crer demais sufoca, crer de menos nos faz naufragar. E a criação, que deveria ser alívio, se torna cárcere do próprio pensamento, se não houver pausa, respiro, se não houver o equilíbrio entre a chama e a brisa. O paladar se perde na fartura, e o desejo se esvai no excesso. Tudo demais vira veneno, e o que era doce, sereno, transforma-se em sal no próprio ventre.

⁠Na vida, tudo demais quer existir, mas é preciso saber reverter, transformar, como arte de ofício,
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⁠Na vida, tudo demais quer existir, mas é preciso saber reverter, transformar, como arte de ofício, e buscar o que liberta, que alivia. Pessoas de vida, pessoas de morte, uns merecem pérolas, outros não, como diz o provérbio: não jogue pérolas aos porcos. Mas há quem, em sua total apatia, não mereça poemas, nem flores, tão imunes ao amor, tão cegos nos desamores, que não aplaudem, não batem palmas. Essas pessoas não devem ser tratadas bem, mas ainda assim, tratamo-las com gentileza, porque nossa conduta não é deste mundo, falamos do belo, mostramos o que é puro, mesmo que o mundo fique mudo. A minha maldição é ensinar poesia aos brutos, filosofia aos estúpidos, amor aos indultos. Amor em forma de indulto, talvez, não sei, só sei que o gesto de amar se faz com quem sabe receber. E quem não sabe, recebe o silêncio.

Canto e Abismo Me sinto perdido, arrebatado,
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Canto e Abismo Me sinto perdido, arrebatado, quando escuto tua voz. O som que de tua boca sai me guia— e sempre me lança ao abismo. Espanto e desespero me perseguem. O violino, o mais metafísico dos instrumentos, ressoa sobre uma base de piano. Teu canto lírico, suspenso no ar, é fôlego e esperança. Caminho sob a sombra de um passado que não esqueço. Morro, adormeço, mas não sonho. Vivo a realidade cruel do abandono. Ah, que cão sou eu, esquecido na noite chuvosa! Meu destino é árido, minha cova, rasa. Não há salvação para quem ama, nem para quem perdeu a hora da partida e o encanto da chegada. Ah, minha triste figura, minha desventura, minha sorte desalmada.

⁠Ser o que sou Sou o universo em tons diversos, em mil cores, no balé eterno das estrelas finitas.
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⁠Ser o que sou Sou o universo em tons diversos, em mil cores, no balé eterno das estrelas finitas. Sou o todo de ontem e a soma do agora, o peso e o voo, o fardo e a febre, medo e desengano entrelaçados. Sou luz que arde, sombra que dança, ferida que abre, navalha que estanca. Sou você, sou o outro, estou por dentro, estou por fora. No espelho me vejo — sou cais e mar, o que resta e o que há de faltar. Sou abismo, sou pranto, sou riso de insânia, sombra que resiste à indomável aurora.

⁠A Força Está no Verbo, Não na Língua A grandeza da escrita não repousa no ornamento das palavras, mas na intensidade do verbo que as conduz. A língua, por mais rica e vasta que seja, é apenas o veículo; o verbo, a força. A beleza estética que buscamos na escrita não está no des…
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⁠A Força Está no Verbo, Não na Língua A grandeza da escrita não repousa no ornamento das palavras, mas na intensidade do verbo que as conduz. A língua, por mais rica e vasta que seja, é apenas o veículo; o verbo, a força. A beleza estética que buscamos na escrita não está no deslumbre de uma construção complexa, mas na capacidade de um verbo bem colocado de transformar, de ressoar, de mover. É no verbo que reside a verdadeira elegância do escritor, aquela que não se preocupa com adornos, mas com a pulsão do significado. Quem escreve com profundidade sabe disso: não se trata de mostrar erudição, mas de fazer com que a leitura se torne uma experiência visceral. O verbo é a chave que abre as portas da percepção, que torna o conceito tangível, que incita a reflexão e desperta o sentimento. Ele não precisa de adornos porque sua força é direta, crua, atemporal. É no verbo que se revela o que está oculto, o que se sente sem palavras, o que ainda não foi dito, mas que, ao ser proferido, encontra a verdade. A língua, com suas regras e estrutura, é apenas o campo onde a batalha se trava. Mas é o verbo que, ao ser usado com precisão e intenção, tem o poder de mudar o curso do pensamento, de provocar uma epifania, de imprimir na mente do leitor uma marca indelével. Como uma lâmina que corta sem esforço, o verbo, por sua natureza, age e reage. Ele é a centelha da ideia, a faísca que acende a chama da interpretação. A elegância do escritor não está em palavras vazias, mas em sua habilidade de manobrar o verbo com maestria, de fazer da linguagem um instrumento não de ornamentação, mas de ação. O escritor não deve buscar o enfeite; ele deve buscar a precisão. Um verbo, bem escolhido e colocado, possui a mesma força de uma obra-prima: simples, mas profunda; direta, mas cheia de camadas. É essa simplicidade, carregada de peso, que faz o escritor verdadeiramente elegante. O verbo é o pulsar da escrita. Ele nos envolve com sua potência, com sua capacidade de criar, de destruir, de transformar. Ele é o que realmente importa.

⁠Nicotina Poesia crônica, cigarro cubano Prosa de Neruda, lascívia de Caetano
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⁠Nicotina Poesia crônica, cigarro cubano Prosa de Neruda, lascívia de Caetano Um canto, lugar único no mundo Um tenor no máximo da sua entonação Um acorde perfeito, música de Wagner Encantamento de Isolda e Tristão Sonoridade efêmera que apetece Destoa, enlouquece alma em combustão Meu espírito demente sem ação. Um perfume cítrico e agreste Nicotina que impregna o coração.

⁠Pedras de Silêncio Quantas pedras no caminho, silêncio de granito a bloquear os passos,
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⁠Pedras de Silêncio Quantas pedras no caminho, silêncio de granito a bloquear os passos, abismos do não dito, vácuo entre as palavras, o incômodo que reverbera na ausência, pausa que pesa mais que o grito. São pedras que travam a jornada, despertam o torpor, adormecem a razão e o afeto, e nesse deserto sem verbo, brotam vermes na casa, na alma, no corpo, na mente, na relação, consumindo o que não foi pronunciado. Quando a comunicação se cala, o verbo, exilado, deixa órfãos os sentidos, e o silêncio se torna cárcere, sepultura do diálogo. Mas quem haverá de quebrar as pedras? Que mão será martelo e trará do eco do silêncio uma palavra nova, inteira, capaz de reconstruir o espaço vazio, onde a pausa se transforma em ponte, e o verbo renasce, vivo e perfeito?