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Frases de Antero de Quental

35 frases

Meus dias vão correndo vagarosos, Sem prazer e sem dor parece Que o foco interior já desfalece
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Meus dias vão correndo vagarosos, Sem prazer e sem dor parece Que o foco interior já desfalece E vacila com raios duvidosos. É bela a vida e os anos são formosos, E nunca ao peito amante o amor falece... Mas, se a beleza aqui nos aparece, Logo outra lembra de mais puros gozos. A outros céus aspira: Se um momento a prendeu mortal beleza, É pela eterna pátria que suspira... Porém, do pressentir dá-ma a certeza, Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira, Eu sempre bendirei esta tristeza!

Ideal Aquela que eu adoro não é feita de lírios nem de rosas purpurinas,
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Ideal Aquela que eu adoro não é feita de lírios nem de rosas purpurinas, não tem as formas lânguidas, divinas, da antiga Vênus de cintura estreita. Não é a Circe, cuja mão suspeita compõe filtros mortais entre ruínas, nem a Amazona, que se agarra às crinas dum corcel e combate satisfeita. A mim mesmo pergunto, e não atino com o nome que dê a essa visão que ora amostra ora esconde o meu destino. É como uma miragem que entrevejo Ideal, que nasceu na solidão, Nuvem, sonho impalpável do Desejo...

Mãe Mãe - que adormente este viver dorido, E me vele esta noite de tal frio,
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Mãe Mãe - que adormente este viver dorido, E me vele esta noite de tal frio, E com as mãos piedosas até o fio Do meu pobre existir, meio partido... Que me leve consigo, adormecido, Ao passar pelo sítio mais sombrio... Me banhe e lave a alma lá no rio Da clara luz do seu olhar querido... Eu dava o meu orgulho de homem - dava Minha estéril ciência, sem receio, E em débil criancinha me tornava, Descuidada, feliz, dócil também, Se eu pudesse dormir sobre o teu seio, Se tu fosses, querida, a minha mãe!

Nirvana Viver assim: sem ciúmes, sem saudades, Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
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Nirvana Viver assim: sem ciúmes, sem saudades, Sem amor, sem anseios, sem carinhos, Livre de angústias e felicidades, Deixando pelo chão rosas e espinhos; Poder viver em todas as idades; Poder andar por todos os caminhos; Indiferente ao bem e às falsidades, Confundindo chacais e passarinhos; Passear pela terra, e achar tristonho Tudo que em torno se vê, nela espalhado; A vida olhar como através de um sonho; Chegar onde eu cheguei, subir à altura Onde agora me encontro - é ter chegado Aos extremos da Paz e da Ventura!

Sonho Oriental Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha, Muito longe, nos mares do Oriente,
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Sonho Oriental Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha, Muito longe, nos mares do Oriente, Onde a noite é balsamica e fulgente E a lua cheia sobre as aguas brilha... O aroma da magnolia e da baunilha Paira no ar diaphano e dormente... Lambe a orla dos bosques, vagamente, O mar com finas ondas de escumilha... E emquanto eu na varanda de marfim Me encosto, absorto n'um scismar sem fim, Tu, meu amor, divagas ao luar, Do profundo jardim pelas clareiras, Ou descanças debaixo das palmeiras, Tendo aos pés um leão familiar.

Mors Amor Esse negro corcel, cujas passadas Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
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Mors Amor Esse negro corcel, cujas passadas Escuto em sonhos, quando a sombra desce, E, passando a galope, me aparece Da noite nas fantásticas estradas, Donde vem ele? Que regiões sagradas E terríveis cruzou, que assim parece Tenebroso e sublime, e lhe estremece Não sei que horror nas crinas agitadas? Um cavaleiro de expressão potente, Formidável, mas plácido, no porte, Vestido de armadura reluzente, Cavalga a fera estranha sem temor: E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!" Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

Contemplação Sonho de olhos abertos, caminhando Não entre as formas já e as aparências,
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Contemplação Sonho de olhos abertos, caminhando Não entre as formas já e as aparências, Mas vendo a face imóvel das essências, Entre ideias e espíritos pairando... Que é o Mundo ante mim? fumo ondeando, Visões sem ser, fragmentos de existências... Uma névoa de enganos e impotências Sobre vácuo insondável rastejando... E dentre a névoa e a sombra universais Só me chega um murmúrio, feito de ais... É a queixa, o profundíssimo gemido Das coisas, que procuram cegamente Na sua noite e dolorosamente Outra luz, outro fim só pressentindo...

Hino à Razão Razão, irmã do Amor e da Justiça, Mais uma vez escuta a minha prece.
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Hino à Razão Razão, irmã do Amor e da Justiça, Mais uma vez escuta a minha prece. É a voz dum coração que te apetece, Duma alma livre, só a ti submissa. Por ti é que a poeira movediça De astros e sóis e mundos permanece; E é por ti que a virtude prevalece, E a flor do heroísmo medra e viça. Por ti, na arena trágica, as nações Buscam a liberdade, entre clarões; E os que olham o futuro e cismam, mudos Por ti, podem sofrer e não se abatem , Mãe dos filhos robustos, que combatem Tendo o teu nome escrito em seus escudos!

Com os Mortos Os que amei, onde estão? Idos, dispersos, arrastados no giro dos tufões,
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Com os Mortos Os que amei, onde estão? Idos, dispersos, arrastados no giro dos tufões, Levados, como em sonho, entre visões, Na fuga, no ruir dos universos... E eu mesmo, com os pés também imersos Na corrente e à mercê dos turbilhões, Só vejo espuma lívida, em cachões, E entre ela, aqui e ali, vultos submersos... Mas se paro um momento, se consigo Fechar os olhos, sinto-os a meu lado De novo, esses que amei vivem comigo, Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também, Juntos no antigo amor, no amor sagrado, Na comunhão ideal do eterno Bem.

Evolução Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo tronco ou ramo na incógnita floresta...
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Evolução Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo tronco ou ramo na incógnita floresta... Onda, espumei, quebrando-me na aresta Do granito, antiquíssimo inimigo... Rugi, fera talvez, buscando abrigo Na caverna que ensombra urze e giesta; O, monstro primitivo, ergui a testa No limoso paúl, glauco pascigo... Hoje sou homem, e na sombra enorme Vejo, a meus pés, a escada multiforme, Que desce, em espirais, da imensidade... Interrogo o infinito e às vezes choro... Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro E aspiro unicamente à liberdade.

O Palácio da Ventura Sonho que sou um cavaleiro andante. Por desertos, por sóis, por noite escura,
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O Palácio da Ventura Sonho que sou um cavaleiro andante. Por desertos, por sóis, por noite escura, Paladino do amor, busco anelante O palácio encantado da Ventura! Mas já desmaio, exausto e vacilante, Quebrada a espada já, rota a armadura... E eis que súbito o avisto, fulgurante Na sua pompa e aérea formosura! Com grandes golpes bato à porta e brado: Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! Abrem-se as portas d'ouro com fragor... Mas dentro encontro só, cheio de dor, Silêncio e escuridão - e nada mais!

Oceano Nox Junto do mar, que erguia gravemente A trágica voz rouca, enquanto o vento
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Oceano Nox Junto do mar, que erguia gravemente A trágica voz rouca, enquanto o vento Passava como o vôo do pensamento Que busca e hesita, inquieto e intermitente, Junto do mar sentei-me tristemente, Olhando o céu pesado e nevoento, E interroguei, cismando, esse lamento Que saía das coisas, vagamente... Que inquieto desejo vos tortura, Seres elementares, força obscura? Em volta de que idéia gravitais? Mas na imensa extensão, onde se esconde O Inconsciente imortal, só me responde Um bramido, um queixume, e nada mais...

Na Mão de Deus Na mão de Deus, na sua mão direita, Descansou afinal meu coração.
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Na Mão de Deus Na mão de Deus, na sua mão direita, Descansou afinal meu coração. Do palácio encantado da Ilusão Desci a passo e passo a escada estreita. Como as flores mortais, com que se enfeita A ignorância infantil, despojo vão, Depois do Ideal e da Paixão A forma transitória e imperfeita. Como criança, em lôbrega jornada, Que a mãe leva ao colo agasalhada E atravessa, sorrindo vagamente, Selvas, mares, areias do deserto... Dorme o teu sono, coração liberto, Dorme na mão de Deus eternamente!

À Virgem Santíssima Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia N'um sonho todo feito de incerteza,
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À Virgem Santíssima Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia N'um sonho todo feito de incerteza, De nocturna e indizível ansiedade, É que eu vi teu olhar de piedade E (mais que piedade) de tristeza... Não era o vulgar brilho da beleza, Nem o ardor banal da mocidade... Era outra luz, era outra suavidade, Que até nem sei se as há na natureza... Um místico sofrer... uma ventura Feita só do perdão, só da ternura E da paz da nossa hora derradeira... Ó visão, visão triste e piedosa! Fita-me assim calada, assim chorosa... E deixa-me sonhar a vida inteira!

Tese e Antítese I Já não sei o que vale a nova idéia,
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Tese e Antítese I Já não sei o que vale a nova idéia, Quando a vejo nas ruas desgrenhada, Torva no aspecto, à luz da barricada, Como bacchante após lúbrica ceia... Sanguinolento o olhar se lhe incendeia; Respira fumo e fogo embriagada: A deusa de alma vasta e sossegada Ei-la presa das fúrias de Medeia! Um século irritado e truculento Chama à epilepsia pensamento, Verbo ao estampido de pelouro e obuz... Mas a idea é n'um mundo inalterável, N'um cristalino céu, que vive estável... Tu, pensamento, não és fogo, és luz! II N'um céu intemerato e cristalino Pode habitar talvez um Deus distante, Vendo passar em sonho cambiante O Ser, como espectáculo divino. Mas o homem, na terra onde o destino O lançou, vive e agita-se incessante: Enche o ar da terra o seu pulmão possante... Cá da terra blasfema ou ergue um hino... A idéia encarna em peitos que palpitam: O seu pulsar são chamas que crepitam, Paixões ardentes como vivos sóis! Combatei pois na terra árida e bruta, Té que a revolva o remoinhar da luta, Té que a fecunde o sangue dos heróis!