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Frases de Antero de Quental

35 frases

Amor Vivo Amar! mas d'um amor que tenha vida... Não sejam sempre tímidos harpejos,
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Amor Vivo Amar! mas d'um amor que tenha vida... Não sejam sempre tímidos harpejos, Não sejam só delirios e desejos D'uma douda cabeça escandecida... Amor que vive e brilhe! luz fundida Que penetre o meu ser — e não só beijos Dados no ar — delírios e desejos — Mas amor... dos amores que têm vida... Sim, vivo e quente! e já a luz do dia Não virá dissipa-lo nos meus braços Como névoa da vaga fantasia... Nem murchará do sol á chama erguida... Pois que podem os astros dos espaços Contra débeis amores... se têm vida?

Sempre o futuro, sempre! e o presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste,
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Sempre o futuro, sempre! e o presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste, E só farte o desejo um bem ausente! Ai! que importa o futuro, se inclemente Essa hora, em que a esperança nos consiste, Chega... é presente... e só á dor assiste?... Assim, qual é a esperança que não mente? Desventura ou delirio?... O que procuro, Se me foge, é miragem enganosa, Se me espera, peor, espectro impuro... Assim a vida passa vagarosa: O presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra mentirosa.

Abnegação Chovam lírios e rosas no teu colo! Chovam hinos de glória na tua alma!
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Abnegação Chovam lírios e rosas no teu colo! Chovam hinos de glória na tua alma! Hinos de glória e adoração e calma, Meu amor, minha pomba e meu consolo! Dê-te estrelas o céu, flores o solo, Cantos e aroma o ar e sombra a palmar. E quando surge a lua e o mar se acalma, Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo! E nem sequer te lembres de que eu choro... Esquece até, esquece, que te adoro... E ao passares por mim, sem que me olhes, Possam das minhas lágrimas cruéis Nascer sob os teus pés flores fiéis, Que pises distraída ou rindo esfolhes!

Logos Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias
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Logos Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias Com um nimbo de afectos e de idéias, Que são o meu princípio, meio e fim... Que estranho ser és tu (se és ser) que assim Me arrebatas contigo e me passeias Em regiões inominadas, cheias De encanto e de pavor... de não e sim... És um reflexo apenas da minha alma, E em vez de te encarar com fronte calma, Sobresalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te... Falo-te, calas... calo, e vens atento... És um pai, um irmão, e é um tormento Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te!

Voz Interior (A João de Deus) Embebido n'um sonho doloroso,
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Voz Interior (A João de Deus) Embebido n'um sonho doloroso, Que atravessam fantásticos clarões, Tropeçando n'um povo de visões, Se agita meu pensar tumultuoso... Com um bramir de mar tempestuoso Que até aos céus arroja os seus cachões, Através d'uma luz de exalações, Rodeia-me o Universo monstruoso... Um ai sem termo, um trágico gemido Ecoa sem cessar ao meu ouvido, Com horrível, monótono vaivém... Só no meu coração, que sondo e meço, Não sei que voz, que eu mesmo desconheço, Em segredo protesta e afirma o Bem!

Transcendentalismo Já sossega, depois de tanta luta, Já me descansa em paz o coração.
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Transcendentalismo Já sossega, depois de tanta luta, Já me descansa em paz o coração. Caí na conta, enfim, de quanto é vão O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa. Penetrando, com fronte não enxuta, No sacrário do templo da Ilusão, Só encontrei, com dor e confusão, Trevas e pó, uma matéria bruta... Não é no vasto mundo — por imenso Que ele pareça à nossa mocidade — Que a alma sacia o seu desejo intenso... Na esfera do invisível, do intangível, Sobre desertos, vácuo, soledade, Vôa e paira o espírito impassível!

No Circo Muito longe d'aqui, nem eu sei quando, Nem onde era esse mundo, em que eu vivia...
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No Circo Muito longe d'aqui, nem eu sei quando, Nem onde era esse mundo, em que eu vivia... Mas tão longe... que até dizer podia Que enquanto lá andei, andei sonhando... Porque era tudo ali aéreo e brando, E lúcida a existência amanhecia... E eu... leve como a luz... até que um dia Um vento me tomou, e vim rolando... Caí e achei-me, de repente, involto Em luta bestial, na arena fera, Onde um bruto furor bramia solto. Senti um monstro em mim nascer n'essa hora, E achei-me de improviso feito fera... — É assim que rujo entre leões agora!

Divina Comédia Erguendo os braços para o céu distante E apostrofando os deuses invisíveis,
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Divina Comédia Erguendo os braços para o céu distante E apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: — «Deuses impassíveis, A quem serve o destino triunfante, Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inestinguíveis, Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis, N'um turbilhão cruel e delirante... Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente? Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses, com voz inda mais triste, Dizem: — «Homens! por que é que nos criastes?»

Mea Culpa Não duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia;
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Mea Culpa Não duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia; Que o homem suba e vá da noite ao dia, E o homem vá subindo insecto o seixo. Não chamo a Deus tirano, nem me queixo, Nem chamo ao céu da vida noite fria; Não chamo à existencia hora sombria; Acaso, à ordem; nem à lei desleixo. A Natureza é minha mãe ainda... É minha mãe... Ah, se eu à face linda Não sei sorrir: se estou desesperado; Se nada há que me aqueça esta frieza; Se estou cheio de fel e de tristeza... É de crer que só eu seja o culpado!

Solemnia Verba Disse ao meu coração: Olha por quantos Caminhos vãos andámos! Considera
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Solemnia Verba Disse ao meu coração: Olha por quantos Caminhos vãos andámos! Considera Agora, desta altura, fria e austera, Os ermos que regaram nossos prantos... Pó e cinzas, onde houve flor e encantos! E a noite, onde foi luz a Primavera! Olha a teus pés o mundo e desespera, Semeador de sombras e quebrantos! Porém o coração, feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do pensar tornado crente, Respondeu: Desta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão, se isto é vida, Nem foi demais o desengano e a dor.

Idílio Quando nós vamos ambos, de mãos dadas, Colher nos vales lírios e boninas,
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Idílio Quando nós vamos ambos, de mãos dadas, Colher nos vales lírios e boninas, E galgamos dum fôlego as colinas Dos rocios da noite inda orvalhadas; Ou, vendo o mar, das ermas cumeadas, Contemplamos as nuvens vespertinas, Que parecem fantásticas ruínas Ao longo, no horizonte, amontoadas; Quantas vezes, de súbito, emudeces! Não sei que luz no teu olhar flutua; Sinto tremer-te a mão e empalideces O vento e o mar murmuram orações, E a poesia das coisas se insinua Lenta e amorosa em nossos corações.