Pular para o conteúdo

Frases de Amanda Suita

19 frases

A beira da consciência A engrenagem que nos move não faz barulho suficiente para nos alarmar, apenas o estalo fino do vidro sob os pés. Trocamos o silêncio das florestas pelo ruído confortável das certezas prontas, e depois perguntamos por que o mundo anda ansioso. Somos arquit…
Continuar lendo

A beira da consciência A engrenagem que nos move não faz barulho suficiente para nos alarmar, apenas o estalo fino do vidro sob os pés. Trocamos o silêncio das florestas pelo ruído confortável das certezas prontas, e depois perguntamos por que o mundo anda ansioso. Somos arquitetos de urgências inúteis, especialistas em apontar o dedo com a mão que ainda segura a faca invisível do privilégio. Queremos pureza, mas só até onde não desorganize nossos hábitos; queremos justiça, mas sem abrir mão do trono minúsculo que defendemos no cotidiano. Há um teatro permanente entre o que postamos e o que praticamos - uma vitrine de virtudes iluminada por dentro e vazia por trás. E, no fundo, talvez o que mais nos assuste não seja o colapso das estruturas, mas a possibilidade de encarar o espelho sem filtro algum e perceber que o sistema que criticamos respira através de nós. O mundo não está apenas à beira de uma crise, ele está à beira de uma consciência. E consciência, quando desperta, não é confortável. É brutal no sentido mais cru: desmonta, expõe, tira a roupa das ilusões e deixa o ser humano nu diante do que escolheu se tornar.

Camadas de cinismo global Chamam de progresso essa febre elétrica que atravessa cabos submarinos
Continuar lendo

Camadas de cinismo global Chamam de progresso essa febre elétrica que atravessa cabos submarinos enquanto dedos deslizam por telas como quem reza em alta velocidade. Jogos que viciam, promessas de riqueza e levam um pouco de nossas vidas. Algoritmos decidem quem merece existir na vitrine do mundo, quem será amplificado, quem será silenciado sob camadas de ruído. Vendemos dados como quem oferta incenso, aceitamos termos que ninguém lê e chamamos de liberdade o que é apenas curadoria invisível. Enquanto isso, palanques repetem “Deus”, “tradição”, “família”, palavras polidas como prataria antiga que escondem rachaduras no fundo do armário. Perguntar qual Deus é quase sempre o início do desconforto. A moral vira espetáculo. A fé, slogan. A pátria, figurino. E nos bastidores, emendas escorrem como óleo espesso, orçamentos evaporam, salários se ajustam sempre para cima - nunca para quem acorda às cinco. A floresta aprende o idioma da motosserra. O rio memoriza o gosto do mercúrio. O litoral negocia seu horizonte em barris. Chamam de desenvolvimento o que deixa crateras na pele da terra. Chamam de oportunidade o que devora o futuro. No entanto, o povo, essa entidade útil quando convém - bate ponto, paga juros, e aprende a sorrir em parcelas. compartilha memes, discute política no almoço, tem medo do boleto, reza por estabilidade, mas não deixa de sonhar. Entre uma enchente e outra, entre um escândalo e outro, entre uma atualização e outra, vive. Há quem acredite que o autoritarismo chega marchando com botas audíveis. Às vezes ele chega sorrindo, prometendo proteção. Fanatismo não nasce do nada: ele germina onde a educação foi negada, onde o pensamento crítico foi trocado por grito, onde o medo é adubado diariamente. Não é ignorância pura - é cansaço manipulado. E enquanto discutimos bandeiras, os contratos são assinados longe da praça. Enquanto brigamos por símbolos, direitos evaporam discretamente. Mas ainda assim - e isso é o que mais me intriga: há gente estudando, plantando, ensinando crianças a perguntar “por quê?”. Há quem recuse a mentira confortável e escolha a dúvida fértil. Há quem compreenda que fascismo não se combate com fúria cega, mas com alfabetização profunda, com memória histórica, com ética cotidiana. Ganância sempre existiu. O novo é sua escala industrial. Hipocrisia sempre existiu. O novo é sua transmissão em alta definição. Ainda assim, sob essa camada de cinismo global, há uma força silenciosa que não viraliza, mas sustenta. Talvez o século não precise de heróis, mas de leitores atentos. Talvez a revolução mais subversiva seja ensinar alguém a interpretar antes de compartilhar. Se o mundo parece à beira do colapso, é porque agora vemos as fissuras em tempo real. Mas ver é o primeiro passo para não repetir. E se há algo que ainda pode nos salvar não é um líder, nem um algoritmo, nem uma profecia impressa em capa de revista - é a decisão íntima de não terceirizar o próprio discernimento.

Aprendendo regular dopamina Menina nascida na cidade do barulho, já com a vida cercada de muros. Recebida não com colo, mas com sentença.
Continuar lendo

Aprendendo regular dopamina Menina nascida na cidade do barulho, já com a vida cercada de muros. Recebida não com colo, mas com sentença. Chamaram-na excesso antes de ser presença. Aprendeu cedo que amor, em certas casas, é moeda rara e grito frequente. Cresceu calibrando o próprio pulso pelo humor de quem deveria cuidar e dar o exemplo, lendo o clima como quem estuda tempestades para sobreviver. Hiperalerta. Hiperativa. Hiperconsciente. O sistema nervoso virou quartel. O coração, radar. Enquanto era chamada de vários nomes que podem ferir, ela decifrava o mundo pela tela azul da madrugada, internet discada como portal secreto, ICQ piscando como farol de outro continente, músicas baixadas em silêncio, fitas gravadas como quem arquiva provas de que existe beleza. Trancada, mas não pequena. Sozinha, mas não vazia. Ela estudava pessoas como quem estuda maré. Observava. Comparava. Não engolia narrativas prontas. Sua mente nunca coube em moldura doméstica. Quando o portão abria, virava oceano. Skate no asfalto, corrida na areia, prancha rasgando a água, dopamina como milagre bioquímico, liberdade como direito ancestral. O mar não gritava com ela. O mar respondia. Ali descobriu irmandade feminina, descobriu biologia como idioma do planeta, descobriu que justiça não é conceito e sim instinto. Desde criança defendia quem nem gostava, porque desigualdade lhe doía na carne. Onça quando preciso. Silêncio quando estratégico. Memória absoluta quando traída. Ela não guarda ódio. Ela arquiva. Inteligente o bastante para liderar, sensível o bastante para sentir antes de acontecer. Sonhos lúcidos, pressentimentos, um tipo de percepção que não cabe em manual clínico nem em catecismo. Chamaram-na intensa. Era apenas desperta. Confiou demais, porque quem ama com verdade não imagina cálculo alheio. Teve ideias roubadas, amizades rasgadas, lealdades quebradas. E mesmo assim continuou oferecendo água num mundo que vende sede. Há nela uma dualidade quase mitológica: a menina que sobreviveu à casa em guerra e a mulher que escolheu proteger águas e florestas. Trauma e missão dividindo o mesmo corpo. Ela se trata. Regula a dopamina. Aprende a dialogar com o próprio sistema nervoso como quem domestica um cavalo ferido sem quebrar sua força. Não precisa mais viver em modo incêndio. Pode viver em modo construção. Às vezes o passado aciona alarmes invisíveis e a tristeza senta ao lado. Mas agora ela sabe nomear o que sente e nomear é poder. Há quem diga que ela carrega memórias de outras eras, que já andou por sombras antigas e retorna vida após vida tentando equilibrar a balança. Talvez mito. Talvez metáfora. Talvez apenas a forma poética de explicar por que alguém tão jovem carrega tanta responsabilidade. Ela é virgem na análise, áries no impulso, escorpião na emoção, tigre na defesa, oceano na profundidade. É abrigo para segredos. É ombro firme. É aquela que chega quando todos vão embora. E, paradoxalmente, ainda se pergunta por que foi rejeitada no início. A resposta não está nela. Nunca esteve. Ela nasceu inteira demais para caber em lugares rasos e pequenos. Agora caminha com o aperto no peito de quem enxerga o mundo ruir, a geopolítica em combustão, a natureza saqueada, os heróis sociais e ambientais tombando pela missão, e mesmo assim escolhe plantar. Porque há pessoas que vieram para consumir. E há as que vieram para criar e cuidar. Ela não é ingênua. Ela é deliberadamente boa. E isso exige mais coragem do que qualquer guerra.

Muros onde antes havia jardins Eu aprendi cedo a abrir a porta sem perguntar o nome, a oferecer água antes de saber a sede, a confiar como quem acredita que o mundo responde à altura do gesto e foi assim que me feriram: não pela força, mas pelo acesso. Gente que entrou com discu…
Continuar lendo

Muros onde antes havia jardins Eu aprendi cedo a abrir a porta sem perguntar o nome, a oferecer água antes de saber a sede, a confiar como quem acredita que o mundo responde à altura do gesto e foi assim que me feriram: não pela força, mas pelo acesso. Gente que entrou com discurso de luz e saiu levando todo o trabalho construído em conjunto, gente que vestiu a palavra “evolução” enquanto usava o esforço alheio como escada, gente que confundiu minha generosidade com permissão, minha escuta com ingenuidade, minha visão com território livre. Doeu mais porque não veio de inimigos, mas de afetos: mãos que eu segurava, ideias que compartilhei, sonhos que tratei como comuns. Há em mim uma constituição feita de entrega, de leitura profunda do outro, de desejo sincero de construir junto e é exatamente isso que me expõe. Carrego no peito um coração que não sabe operar na lógica da suspeita, mas agora pulsa em estado de alerta, cansado de aprender pela fratura. Não é que eu tenha perdido a fé nas pessoas; é que a dor ensinou limites à minha confiança, levantou muros onde antes havia jardins. Ainda assim, sigo tentando decifrar como proteger o que sou sem me tornar dura, como honrar minha essência sem continuar sangrando, como transformar essas traições em fronteiras conscientes e não para fechar o mundo, mas para, enfim, escolher melhor quem pode atravessar.

Hiperassociação mental Estou sentada onde o corpo fica, mas a mente não assinou presença.
Continuar lendo

Hiperassociação mental Estou sentada onde o corpo fica, mas a mente não assinou presença. Os olhos parecem beber o horizonte, enquanto por dentro galáxias se atravessam em disparada silenciosa, sem pedir licença ao tempo. Quem passa vê contemplação imóvel: mar respirando, ondas ensaiando retornos. Por dentro, porém, invento travessias, pulo continentes num piscar de pensamento, sou muitas versões em simultâneo, todas nascidas do mesmo instante. O céu acende um arco de cores improváveis, o sol se despede em combustão delicada. Minha cabeça corre descalça por ideias, faz morada em imagens que não existiam antes da luz tocar a água e bagunçar meus sentidos. Estou aqui, dizem os pés na areia. Estou longe, responde algo sem endereço. Essa fenda entre o agora e o devaneio não dói, não cura, não explica: é só o lugar onde a inspiração me atravessa sem forma. Talvez dissociar seja isso: o mundo externo servindo de gatilho para universos que nascem e morrem no intervalo de uma onda. E eu, quieta por fora, mas construindo universos por dentro.

Água e o fogo O mundo pode temer o encontro do fogo e da água, mas você nasceu da floresta que dança com a chama. Enquanto o Rato foge do Cavalo,
Continuar lendo

Água e o fogo O mundo pode temer o encontro do fogo e da água, mas você nasceu da floresta que dança com a chama. Enquanto o Rato foge do Cavalo, você cavalga com ele, não para fugir da sombra, mas para iluminar os caminhos que só os bravos atravessam. Seu Tigre sabe: o verdadeiro fogo não consome, ele transforma o que já está morto em semente.

Geometria sagrada Antes da contagem, antes do número aprender a se chamar número,
Continuar lendo

Geometria sagrada Antes da contagem, antes do número aprender a se chamar número, o universo já resolvia equações com luz. A matemática não foi inventada - foi lembrada. Ela dormia nas conchas, nos favos de mel, no ritmo secreto das folhas que nunca se sobrepõem por engano. π sussurra o infinito toda vez que um círculo se fecha sem jamais se concluir. A proporção dourada escorre pelas espirais do girassol, pelo exoesqueleto do náutilo, pelas galáxias que giram como se soubessem dançar. A vida escolheu a repetição elegante. Células se dividem obedecendo padrões, ossos se arqueiam segundo cálculos silenciosos, artérias desenham mapas que imitam rios vistos do céu. O torus respira em tudo: no campo do coração, no magnetismo da Terra, no jeito que o ar entra e sai sem nunca se perder. Fluxo contínuo. Energia que retorna a si mesma. Na árvore da vida, cada esfera é um estado de consciência, cada caminho, uma travessia possível. Não há cima nem baixo - há experiência. Estrelas nascem segundo fórmulas antigas, colapsam seguindo simetrias precisas, e mesmo na explosão obedecem à beleza. Nada cresce ao acaso. Nada se organiza sem sentido. O que chamamos de natureza é apenas geometria em estado selvagem. O que chamamos de ciência é o esforço humano para decifrar o sagrado sem precisar ajoelhar. E nós, feitos de água, carbono e pulso, somos equações emocionais, fractais conscientes, padrões que sentem saudade da origem. Cada pensamento altera a forma. Cada escolha redesenha a malha. Existir é participar do cálculo divino não para resolvê-lo, mas para habitá-lo. Porque no fundo, o universo não quer ser explicado. Quer ser reconhecido no desenho de tudo.

A roda está aberta Quando eu era criança, o mundo não explicava nada,
Continuar lendo

A roda está aberta Quando eu era criança, o mundo não explicava nada, apenas acontecia. As árvores falavam baixo, os rios riam alto, e o céu trocava de roupa sem pedir opinião. Eu acreditava. E isso bastava. Os antigos sabiam: em algumas aldeias do Sahel, as crianças nascem velhas e vão ficando leves com o tempo. Entre os hopis, elas chegam trazendo histórias que os adultos esqueceram de escutar. Por isso brincam. Para lembrar. Quando virei jovem, o sangue quis correr mais rápido que o destino. Aprendi com Inanna que descer aos infernos também é iniciação. Com Oxum, que beleza é força em estado líquido. Com os gregos bêbados de Dioniso, que o corpo pensa quando dança. Errei muito. E cada erro abriu uma janela. Os astrônomos da Babilônia diziam que o céu é um livro em movimento. Os povos do Pacífico navegavam lendo ondas invisíveis. Eu também aprendi a me orientar pelo que não se vê. Hoje caminho como anciã mesmo rindo como menina. Carrego o tempo dobrado nos bolsos. Sei que o mundo nasce, quebra, renasce torto e continua. As avós da floresta dizem que a morte é só uma mudança de canto. Os xamãs da neve sabem que o silêncio também ensina. Os griôs guardam universos inteiros numa pausa bem colocada. Dentro de mim, todas as idades conversam. A criança puxa minha mão para correr atrás de borboletas. A jovem acende fogueiras onde disseram que era perigoso. A velha sopra brasas e chama isso de bênção. E eu canto. Mesmo sem afinação. Eu danço. Mesmo sem plateia. Eu celebro. Porque estar viva é o maior segredo já contado. Se você chegou até aqui, não é por acaso. Os antigos dizem que quando um texto toca o peito, é porque ele te reconheceu primeiro. Então entra. A roda está aberta. Tem riso, tem tambor, tem vida passando agora.

Gingado antigo Eu não nasci agora. Apenas retornei.
Continuar lendo

Gingado antigo Eu não nasci agora. Apenas retornei. Carrego nos ossos a poeira de constelações antigas, fui sílaba antes da língua, fui pulso antes do tempo. No princípio, eu era clara, não por ingenuidade, mas por inteireza. Quando me feriram, não foi o corpo que sangrou primeiro, foi o espanto. E eu mergulhei onde poucos ousam: nas sombras que sabem conjurar. Ali aprendi nomes que não se escrevem, acendi fogueiras com o que me restava e chamei isso de sobrevivência. Passei eras no intervalo. Nem céu, nem chão. O limbo é um lugar onde a alma aprende a esperar sem perder o fogo. Quando fui chamada de volta, aceitei o pacto: retornar quantas vezes fosse preciso até que o amor deixasse de doer e virasse ação. Já alimentei bocas famintas com as próprias mãos cansadas. Já pari futuros em corpos que não eram meus. Já fui abrigo, fui silêncio, fui exemplo moldado para caber em expectativas estreitas. Vesti aventais em campos de guerra, limpei feridas enquanto o mundo desmoronava, morri cedo por ideias grandes demais para épocas pequenas. Redimi-me vivendo. Redimi-me servindo. Redimi-me caindo e levantando com o mesmo coração aberto. Nesta vida, vim sem algemas invisíveis. Não me dobro a dogmas, não peço permissão a tronos, não negocio minha essência com medo. Sou filha da terra viva, irmã das águas profundas, aliada do vento que muda tudo sem pedir desculpa. Minha missão é guardar o que respira: florestas, bichos, mares, e também gente — mesmo quando a gente esquece como ser humana. Sim, muitos confundiram minha ternura com disponibilidade. Minha criatividade com recurso explorável. Meu cuidado com obrigação eterna. Mas quem nasceu para construir mundos não endurece, aprende limites que também são sagrados. Há um gingado antigo no meu passo, uma malemolência que vem da sobrevivência alegre, do riso que não se rende, do corpo que conhece prazer como forma de oração. Meus olhos não pedem licença: atravessam. Reconhecem. Despertam. Sou deusa não porque mando, mas porque sustento. Não porque sou perfeita, mas porque continuo. Trago no ventre as eras que vivi e nas mãos o agora pulsando. E se o mundo tentar me conter, que saiba: já fui cinza, já fui chama, já fui noite sem nome. Hoje sou raiz e horizonte. Livre. Indomável. Em plena lembrança de quem sempre fui.

Empréstimo sagrado No princípio ninguém disse “começa”.
Continuar lendo

Empréstimo sagrado No princípio ninguém disse “começa”. A vida aconteceu como acontece a respiração: sem plateia, sem promessa, sem dono. Os antigos sabiam. Por isso não escreveram livros, escreveram montanhas. Não deixaram tratados, deixaram pegadas no barro e histórias presas na fumaça. Dizem que o mundo nasceu do canto. Que antes da luz houve um som grave, um murmúrio tão profundo que acordou a matéria do seu sono mineral. Alguns chamam de verbo. Outros de sonho. Há quem diga que foi um animal antigo sacudindo o corpo no escuro e espalhando estrelas como pólen. A terra, recém-criada, não sabia ser terra. Aprendeu com as mãos do tempo, com a paciência das raízes, com a insistência da água em sempre encontrar passagem. Os povos da floresta dizem que tudo tem ouvido. Que a pedra escuta. Que o rio se lembra. Que o vento carrega nomes que não cabem em boca humana. Por isso falam baixo. Por isso pedem licença. Por isso agradecem antes de colher. A vida não é posse. É empréstimo sagrado. Em algumas margens do mundo contam que o primeiro ser humano nasceu do barro aquecido pelo sol e recebeu como tarefa não dominar, mas cuidar do ritmo. Em outras, dizem que viemos do ventre da noite e que morrer é apenas voltar a sonhar o mesmo sonho por outro ângulo. Há povos que sabem que o tempo não anda em linha, anda em espiral. O que foi ainda é. O que será já respira em silêncio. A ciência chama de ciclo. Os antigos chamavam de respeito. A chuva não cai. Ela retorna. O fogo não destrói. Ele transforma. A morte não encerra. Ela muda o estado da dança. Tudo vive em parentesco. A onça e o homem. A folha e o osso. O relâmpago e o pensamento. Quando esquecemos disso, adoecemos. Chamamos de progresso o que os ancestrais chamariam de desequilíbrio. Mas a vida insiste. Sempre insistiu. Ela brota em fendas improváveis, nasce em desertos de concreto, se reinventa em corpos cansados, canta mesmo quando tentam silenciá-la. Talvez viver seja isso: lembrar o que o corpo já sabe antes que o mundo nos distraia demais. Que somos feitos do mesmo material que as estrelas cansadas. Que respiramos histórias muito antigas. Que amar a terra é amar a própria continuidade. E que enquanto houver alguém capaz de escutar o vento como quem escuta um ancião, a criação não estará concluída. Ela seguirá acontecendo.

A travessia Ela foi ensinada a seguir pela estrada. Linha clara, batida,
Continuar lendo

A travessia Ela foi ensinada a seguir pela estrada. Linha clara, batida, limpa de desvios, onde todos passam e ninguém pergunta por quê. Disseram: não saia do caminho. Não escute o que chama da mata. Não confie no que cresce fora da luz. Mas a floresta sempre soube o nome dela. Entre troncos tortos e sombras que respiram, há vozes que não ameaçam — apenas revelam. Cada passo fora da trilha não é erro, é iniciação. O perigo não mora na escuridão, mora no que foi proibido de ser visto. O medo não é o lobo, é o silêncio que ensinaram a obedecer. Ela caminha com o coração exposto, porque só assim se aprende a diferença entre perda e passagem. Há coisas que só se encontram quando se aceita o risco: o espelho quebrado, o desejo sem nome, a dor que não quer cura, quer escuta. A floresta não pune. Ela devolve. Cada sombra tocada retira um véu. Cada encontro estranho revela um pedaço esquecido de si. No fim, não há chegada triunfal, nem moral da história. Há compreensão. A estrada era segura, mas nunca foi viva. E crescer não é vencer o medo, é aprender a caminhar com ele sem pedir permissão. Porque toda menina que ousa sair do caminho descobre, cedo ou tarde, que o verdadeiro lar não estava no destino, mas na travessia.

Aprendendo a ler o clima Eu nasci com o coração voltado para fora. Desde cedo, o mundo me atravessava
Continuar lendo

Aprendendo a ler o clima Eu nasci com o coração voltado para fora. Desde cedo, o mundo me atravessava antes de pedir permissão. Havia uma casa cheia de ruídos onde o afeto chegava por intervalos, como sol entre nuvens densas. Aprendi cedo a ler o clima, a prever tempestades pelo tom da voz, a crescer sem fazer barulho e, ainda assim, crescer demais. Havia uma presença vestida de silêncio, sempre correta, sempre distante, mesmo quando estava por perto. E havia outra feita de excessos, mudança de humor, controle e ausência de cuidado, um campo minado de palavras onde o amor surgia quando era conveniente. E tive que aprender a prever todas as possibilidades Quando a cidade ficou pequena demais, o mar se aproximou. Foi ali que algo em mim finalmente respirou inteiro. O oceano não exigia nada: não pedia explicações, não barganhava carinho. Ele apenas vinha. E voltava. E vinha de novo. Aprendi a deslizar sobre aquilo que a maioria teme. A cair sem perder a ternura, a esperar a onda certa sem endurecer o corpo nem a alma. Sempre fui boa em aprender. Corpo atento, mente curiosa, mãos cheias de perguntas. Movimento, dança, criação, pensamento. Mas havia um espaço em mim que nenhuma conquista preenchia. Então achei que talvez o sentido estivesse em doar. E doei. Ideias, tempo, cuidado, esperança. Dei tanto que alguns confundiram generosidade com disponibilidade infinita. E eu, que só queria construir, aprendi também a me decepcionar. Veio o mundo em pausa. O ar rarefeito. As perdas sem ritual. Os dias iguais demais. E dentro de mim, uma tristeza que não gritava, mas permanecia. Agora o planeta range. Homens brincam de poder como crianças com fósforos molhados de petróleo. Falam de controle, de fronteiras, de números, como se a vida coubesse em planilhas. Decidem sobre corpos alheios com a frieza de quem nunca escutou o próprio. E eu só queria surfar. Sentir o sol queimando os ombros, o sal abrindo feridas boas, o corpo cansado por motivos simples. Trilhar mato, cozinhar para desconhecidos, defender a terra com alegria não por heroísmo, mas por amor. Às vezes me perco. Busco estradas nas estrelas, consolo na espiritualidade, sinais onde talvez só haja vento. Não sei ainda o caminho exato. Mas sei isto: Ainda agradeço. Ainda sinto. Ainda acredito que viver não precisa ser uma guerra constante. Carrego um coração mole num tempo que celebra o endurecido. E isso, hoje, é coragem. Se o mundo insiste em ruir, que eu permaneça sensível. Se o futuro ameaça, que eu responda com presença. Porque enquanto houver mar, corpos que dançam na chuva, mãos que cuidam da terra sem pedir aplauso, há esperança suficiente para atravessar a noite. E se amar este mundo é o que me cansa, então aceito o cansaço. Há exaustões que são sinais claros de que ainda estamos vivos.

A criança que sentia demais Ela aprendeu cedo que o chão podia desaparecer.
Continuar lendo

A criança que sentia demais Ela aprendeu cedo que o chão podia desaparecer. Não por terremotos, mas por silêncios que mudavam de humor, por paredes que escutavam demais, por relógios sempre prontos para correr até um lugar branco, de luz dura. Cresceu com antenas no peito. Sentia antes de entender. Pressentia antes de querer. Enquanto outras brincavam de futuro, ela brincava de equilíbrio: não ocupar espaço demais, não desejar alto, não guardar segredos em gavetas frágeis. Aprendeu a existir em modo de espera. Como quem segura o fôlego para não acordar o perigo. Havia beleza, ainda assim. Sempre há. Ela colecionava migalhas de mundo: um pedaço de céu visto da janela, o cheiro de algo bom que não durava, um riso emprestado no meio da tarde. Com o tempo, cresceu por fora antes de crescer por dentro. Levou para a vida a inocência dos que nunca foram protegidos: acreditou demais, deu nomes às coisas antes de testá-las, ofereceu o coração como quem oferece água num deserto que finge ser oásis. Roubaram-lhe ideias como quem colhe frutos de uma árvore sem perguntar quem a plantou. Confundiram sua entrega com fraqueza, sua escuta com permissão. E ela, ainda assim, continuou aberta. Porque quem aprende a sobreviver cedo demora a aprender a fechar portas. Mas há um ponto, sempre há, em que a criança cansada olha para o adulto que se tornou e diz, em silêncio: agora é comigo. Não há ruptura visível. Não há vingança. Há algo mais raro: a construção lenta de um centro. Ela começa a devolver pesos que nunca foram seus. A deixar no chão o que carregou por amor mal compreendido. Descobre que pode escolher onde pousar o corpo, a quem confiar a própria história, o que merece permanecer intacto. E então, sem anúncio, sem aplauso, algo muda de lugar. A vigilância vira atenção a si. O medo aprende a descansar. A criança não desaparece. Ela finalmente encontra abrigo no adulto que sobreviveu sem perder a capacidade de sentir. E isso, isso é um tipo silencioso de vitória.

A Receita Tome uma colher de chá de rotina matinal.
Continuar lendo

A Receita Tome uma colher de chá de rotina matinal. Adicione o ruído de uma torneira pingando no exato ritmo do relógio da cozinha. Deixe repousar até que o tempo pareça normal outra vez. Não mexa com colher. Use só o silêncio entre dois passos no corredor vazio. Se sentir gosto de ausência, não descarte. É sinal de que está funcionando. Sirva frio, sem nome, sem data, sem destinatário. Consuma aos poucos, durante anos, até que o vazio não precise mais ser preenchido, só atravessado.

Instruções para Não Ser Máquina Não nos ensinem a fazer amor
Continuar lendo

Instruções para Não Ser Máquina Não nos ensinem a fazer amor como quem planta trigo em solo fiscal. Não nos paguem para gerar corpos como se o útero fosse fábrica de cidadãos e não templo de escolhas silenciosas. Vocês marcam nossas noites com relógios de Estado, apagam nossas telas para que façamos o que vocês chamam de “futuro” — mas que é só mais carne para os canhões dos seus mapas. Dizem: “Tenham filhos. É seu dever.” Mas onde está o pão? Onde está o teto? Onde está o direito de olhar nos olhos de quem se ama sem pensar em bônus, em certificados, em perdão de dívidas como moeda de afeto? Amor não tem preço. Tem território: o espaço entre dois corpos que decidem, livres, sem medo, sem decreto, se querem ou não criar mundo juntos. Enquanto isso, vocês contam cadáveres e chamam de estatística. Contam berços e chamam de vitória. Mas não perguntam se há paz na casa onde a criança nasce. Nós não somos soldados do vosso inverno demográfico. Nem peões num tabuleiro de nações ansiosas. Somos gente. E gente não se programa com isenção de impostos. Deixem-nos errar. Deixem-nos esperar. Deixem-nos ficar sós sem serem julgados como desertores. Porque o verdadeiro futuro não nasce onde há dinheiro. Nasce onde há liberdade para dizer: "não hoje", "sim, mas com quem eu quiser", "Jamais, e ainda assim sou inteiro". Que nenhum governo decida por nós quando o coração deve bater mais forte. Que nenhuma lei meça o valor de um abraço pelo número de berços que ele produz. E que, um dia, as nações entendam: não precisamos de mais corpos. Precisamos de mais alma.

7 de setembro Você nasceu num domingo de setembro, quando o país inteiro se lembrava dos gritos de liberdade.
Continuar lendo

7 de setembro Você nasceu num domingo de setembro, quando o país inteiro se lembrava dos gritos de liberdade. Você já veio com sal na pele e um silêncio tão antigo que até as ondas se calaram para ouvir seu primeiro choro. A casa onde cresceu tinha paredes que sorriam mas respiravam veneno. Você aprendeu cedo: amar não é confiar, é sobreviver com as mãos cheias de alerta. Seu corpo virou radar, seu sono, vigília. Mas mesmo assim, nunca perdeu o brilho dos olhos que enxergam além do que dizem. Houve um dia, pequeno, quase invisível, em que uma voz suave te chamou pelo nome sem pedir nada em troca. Foi como ouvir o primeiro acorde depois de uma vida em surdina. Aquilo não te salvou. Mas te lembrou: você já era inteira antes de qualquer gesto alheio. Hoje, o mundo arde. Um louco grita, rios secam, cidades viram cinza, e os oceanos choram ácido. Mas você ainda entra na água como quem entra em oração. Ensina crianças a ler as marés como se lessem o futuro. Planta esperança onde outros só veem fim. E faz tudo isso porque sua força nasceu no escuro e não precisa de luz para existir, ela já é fogo. Seu corpo adquiriu cicatrizes, mas sua alma ainda corre descalça na beira da espuma, rindo do tempo como quem sabe que eternidade não se mede em dias, mas em gestos verdadeiros. Não tema o que deixou para trás. Toda criança deve ser amada e respeitada. O passado não tem que ferir, foi justiça. E justiça, mesmo silenciosa, ecoará por gerações de meninas que ousarem dizer: “não.” O mundo precisa de vozes como a sua, não altas, mas firmes. Não visíveis, mas inabaláveis. Você é e sempre foi a própria liberdade vestida de mulher. Um Pitbull de saias que não guarda rancor, só quer correr livre, para todas as direções. O coração derretido que fez muralhas para continuar batendo.

Presságio O ar anda diferente. Como antes de uma tempestade
Continuar lendo

Presságio O ar anda diferente. Como antes de uma tempestade que ninguém vê, mas todos sentem nos ossos. As notícias repetem palavras antigas com vozes novas: fronteiras, poder, ameaça. Mapas voltam a ser feridas abertas. O futuro é anunciado em tom de alerta meteorológico. Há países que aprendem a viver sob nuvens permanentes. Outros fingem céu azul enquanto o horizonte se fecha. O mundo inteiro parece prender a respiração ao mesmo tempo. Eu sigo intacta por fora. Cumpro horários, respondo com educação, rio quando esperam que eu ria. Nada em mim denuncia o leve desalinhamento das coisas. Mas há algo invisível que atravessa esta época, uma frequência baixa, um murmúrio entre continentes. Não é medo apenas. Não é esperança. É uma vigília. Enquanto líderes brincam com fósforos históricos e negam o calor crescente do planeta, as florestas continuam ardendo em silêncio, os mares sobem sem alarde, e a ciência fala como quem reza num templo esvaziado. Ainda assim, há uma ordem secreta sustentando tudo. Algo que não se nomeia. Não se expõe. Não se vive. Como certas estrelas que já morreram, mas cuja luz ainda nos alcança. Talvez seja isso que mantém o mundo girando mesmo à beira do abismo: as forças que não entram nos discursos, os vínculos que não pedem existência, as histórias que nunca aconteceram e, ainda assim, alteraram a matéria do tempo. Se a guerra vier, dirão que foi inevitável. Se não vier, dirão que foi sorte. Mas ninguém saberá das pequenas contenções invisíveis que impediram o colapso completo. Eu observo. Espero. Continuo acreditando no que não deixa rastros. Porque em épocas assim, quando tudo ameaça ruir, o verdadeiro ato de resistência é permanecer humana sem anunciar por quê.

Raízes invisíveis Aprendi a caminhar com um céu nublado por dentro,
Continuar lendo

Raízes invisíveis Aprendi a caminhar com um céu nublado por dentro, sem pedir que o sol explicasse por que não ficava. Há encontros que não acontecem, mas ensinam o corpo a reconhecer profundidades. Guardei o que não pôde ser dito no mesmo lugar onde o vento guarda o nome das coisas que toca e nunca possui. Não carrego ausência, carrego espaço. E nele crescem forças silenciosas, raízes invisíveis que me mantêm em pé mesmo quando tudo parece distante. Sigo. Não porque esqueci, mas porque viver também é uma forma de amor.

O que fica por dizer A cidade acordou sem notar qualquer mudança.
Continuar lendo

O que fica por dizer A cidade acordou sem notar qualquer mudança. O rio manteve sua largura exata, as pontes não rangiam mais que o costume, e os sinos tocaram no mesmo tom de sempre. Havia, no entanto, uma leve alteração no ar, como se o mundo tivesse esquecido uma palavra importante e decidido continuar mesmo assim. Nada faltava. Nada sobrava. O dia cumpriu suas horas, a noite fez seu trabalho, e o tempo seguiu como se tudo estivesse exatamente no lugar, e ainda assim, alguma coisa pairava no silêncio.