Frase de Amanda Suita
Presságio O ar anda diferente. Como antes de uma tempestade que ninguém vê, mas todos sentem nos ossos. As notícias repetem palavras antigas com vozes novas: fronteiras, poder, ameaça. Mapas voltam a ser feridas abertas. O futuro é anunciado em tom de alerta meteorológico. Há países que aprendem a viver sob nuvens permanentes. Outros fingem céu azul enquanto o horizonte se fecha. O mundo inteiro parece prender a respiração ao mesmo tempo. Eu sigo intacta por fora. Cumpro horários, respondo com educação, rio quando esperam que eu ria. Nada em mim denuncia o leve desalinhamento das coisas. Mas há algo invisível que atravessa esta época, uma frequência baixa, um murmúrio entre continentes. Não é medo apenas. Não é esperança. É uma vigília. Enquanto líderes brincam com fósforos históricos e negam o calor crescente do planeta, as florestas continuam ardendo em silêncio, os mares sobem sem alarde, e a ciência fala como quem reza num templo esvaziado. Ainda assim, há uma ordem secreta sustentando tudo. Algo que não se nomeia. Não se expõe. Não se vive. Como certas estrelas que já morreram, mas cuja luz ainda nos alcança. Talvez seja isso que mantém o mundo girando mesmo à beira do abismo: as forças que não entram nos discursos, os vínculos que não pedem existência, as histórias que nunca aconteceram e, ainda assim, alteraram a matéria do tempo. Se a guerra vier, dirão que foi inevitável. Se não vier, dirão que foi sorte. Mas ninguém saberá das pequenas contenções invisíveis que impediram o colapso completo. Eu observo. Espero. Continuo acreditando no que não deixa rastros. Porque em épocas assim, quando tudo ameaça ruir, o verdadeiro ato de resistência é permanecer humana sem anunciar por quê.
No pensador.ai desde