Frase de Amanda Suita
A roda está aberta Quando eu era criança, o mundo não explicava nada, apenas acontecia. As árvores falavam baixo, os rios riam alto, e o céu trocava de roupa sem pedir opinião. Eu acreditava. E isso bastava. Os antigos sabiam: em algumas aldeias do Sahel, as crianças nascem velhas e vão ficando leves com o tempo. Entre os hopis, elas chegam trazendo histórias que os adultos esqueceram de escutar. Por isso brincam. Para lembrar. Quando virei jovem, o sangue quis correr mais rápido que o destino. Aprendi com Inanna que descer aos infernos também é iniciação. Com Oxum, que beleza é força em estado líquido. Com os gregos bêbados de Dioniso, que o corpo pensa quando dança. Errei muito. E cada erro abriu uma janela. Os astrônomos da Babilônia diziam que o céu é um livro em movimento. Os povos do Pacífico navegavam lendo ondas invisíveis. Eu também aprendi a me orientar pelo que não se vê. Hoje caminho como anciã mesmo rindo como menina. Carrego o tempo dobrado nos bolsos. Sei que o mundo nasce, quebra, renasce torto e continua. As avós da floresta dizem que a morte é só uma mudança de canto. Os xamãs da neve sabem que o silêncio também ensina. Os griôs guardam universos inteiros numa pausa bem colocada. Dentro de mim, todas as idades conversam. A criança puxa minha mão para correr atrás de borboletas. A jovem acende fogueiras onde disseram que era perigoso. A velha sopra brasas e chama isso de bênção. E eu canto. Mesmo sem afinação. Eu danço. Mesmo sem plateia. Eu celebro. Porque estar viva é o maior segredo já contado. Se você chegou até aqui, não é por acaso. Os antigos dizem que quando um texto toca o peito, é porque ele te reconheceu primeiro. Então entra. A roda está aberta. Tem riso, tem tambor, tem vida passando agora.
No pensador.ai desde