Frase de Rafael Zafalon
Entre confete e silêncio Nas ruas nasce fevereiro com seus tambores solares, uma alegria ensaiada que aprende a sorrir mais alto que a fome. O país veste plumas para não ver as costuras abertas. Cada lantejoula cobre um buraco antigo do telhado. Chamam de festa popular — e é, porque o povo é especialista em sobreviver cantando. Mas há um cansaço escorrendo por baixo da tinta: um mapa rasgado em avenidas, um futuro vendido em três acordes. O pão chega em migalhas, o circo em carros alegóricos. A multidão aprende o refrão antes de aprender o porquê. Enquanto isso, nas casas quietas, a solidão assiste pela televisão um país que não cabe mais em si. Ninguém é tolo sozinho — é junto que a distração floresce. É mais leve dançar do que sustentar a pergunta. E assim fevereiro passa: o Brasil amanhece rouco, coberto de papel picado, sem lembrar o que tentava dizer.
No pensador.ai desde