Frase de Rafael Zafalon
A noite infinita Eu amo a noite. Amo-a como quem ama um segredo que só se revela aos que ousam fechar os olhos do mundo. Quando o dia se impõe, com sua pressa branca e seus ruídos, eu me entristeço — não por medo da luz, mas porque a noite dura pouco, escorre pelos dedos como tinta rara que não se pode refazer. Ah, se dependesse de mim, a lua não minguaria jamais. Ela duraria anos, décadas, sonhos inteiros. Eu a penduraria no alto como um selo de eternidade, um brasão de prata sobre o céu escuro, e decretaria: que nunca amanheça. Porque é na noite que o silêncio tem voz. Que as memórias caminham sem sapatos. Que as feridas respiram sem serem vistas. A noite não me exige máscaras. Não cobra respostas. Não me mede, não me pesa, não me chama de excesso. Ela me aceita vasto, inteiro, imperfeito como as crateras da lua — e ainda assim luminoso. Se eu pudesse, assinaria um tratado com o tempo: em troca de todos os meus dias apressados, dai-me uma noite sem fim. Uma noite que dure o suficiente para que a tristeza adormeça, para que os sonhos amadureçam, para que o amor encontre coragem. Eu amo a noite. E fico bravo porque ela dura pouco. Mas enquanto houver um fragmento de sombra no horizonte, erguerei meus olhos como quem guarda um reino secreto — sabendo que, mesmo breve, ela sempre volta.
No pensador.ai desde