Frase de Rafael Zafalon
O Dono da Estufa Na cidade de vidro havia uma estufa onde cresciam homens em fileiras retas — raízes presas a crachás, folhas presas ao relógio. O jardineiro vestia linho claro e falava sobre produtividade como quem fala do clima: sem jamais olhar o céu. Regava apenas a própria varanda. Nos corredores, o ar era contado em parcelas invisíveis — cada respiração descontada do salário. As plantas amarelavam não por falta de água, mas pelo excesso de sede alheia. Ele bebia a empresa em taças largas, degustando relatórios como vinhos raros, e confundia lucro com eternidade. Um dia mandou vir um sino — um leiloeiro de voz firme, treinado para anunciar destinos e dar preço ao silêncio das coisas. O homem do martelo aprendeu o eco das paredes, mediu o peso do tempo, deu valor até ao pó suspenso. Mas o jardineiro, entediado, trocou o sino por outro qualquer, não por falha, não por custo, não por razão — apenas pelo prazer de provar que até a palavra lhe pertencia. E assim ficou a estufa: homens podados antes de florescer, cadeiras polidas como lápides, e um dono sentado ao sol artificial num trono feito de folhas arrancadas. No livro-caixa não constava o vento. No balanço não cabia o cansaço. Mas à noite, quando as lâmpadas cessavam de mentir, as raízes conversavam sob o chão e sabiam — nenhuma planta sobrevive ao jardineiro que se alimenta do jardim.
No pensador.ai desde