Frase de Rafael Zafalon
O amor não começa com um encontro. Começa antes — como a luz das estrelas que já morreram e ainda assim nos alcança. É uma física invisível, uma gravidade que inclina os destinos sem pedir licença às órbitas. Dois corpos caminhando distraídos e, de repente, o universo resolve aproximá-los. Não é incêndio — é brasa que aprende o nome do vento. Não é tempestade — é maré que entende a lua e sobe, paciente, pela areia do outro. Amar é deslocar o eixo do mundo sem que o mundo perceba. É dividir o pão e, sem alarde, dividir também o medo. É tocar a mão alheia como quem segura a própria queda. O amor é um idioma que se conjuga no plural do futuro: “nós seremos”. Mas também é arqueologia — escava as ruínas da infância, beija as rachaduras da memória e transforma cacos em vitrais. Não há ciência que explique por que um olhar atravessa como se abrisse portas antigas. Nem por que um nome, dito baixo, possa reorganizar a anatomia do dia. O amor é um risco. E ainda assim, é o único risco que nos escreve. Ele exige coragem de mar aberto: a coragem de não ser ilha, de permitir que outro continente encoste em nossa costa e mude o desenho dos mapas. Há quem o confunda com posse — mas o amor não aprisiona: ele sustenta. Não amarra: ancora. Amar é aceitar que o outro é mistério e ainda assim escolher ficar. É compreender que nenhuma pele abriga o infinito, mas que, juntos, podemos tocá-lo. E quando o tempo — esse escultor implacável — esculpir rugas na face do mundo, o amor permanecerá como um fio invisível costurando dois silêncios num só respiro. Porque no fim, quando todas as palavras forem insuficientes e toda a glória for pó, restará o gesto simples: uma mão procurando outra na escuridão — e encontrando.
No pensador.ai desde