Frase de Rafael Zafalon
Quarto sem testemunhas Amar foi escrever cartas sem endereço de volta. Eu as deixava na mesa do mundo e o mundo nunca respondeu. Meu nome não ecoa em ninguém — é só um som que gasto para provar que ainda existo quando falo sozinho. Os dias passam como móveis velhos, ocupam espaço, não contam histórias. O relógio trabalha mais do que eu. Não tenho sonhos: apenas intervalos de sono. Não tenho amigos: apenas pessoas que passam sem notar que passei também. Há uma cama que me reconhece, sabe meu peso, minha forma de desistir da noite sem fazer barulho. Tenho medo não do fim, mas do apagamento — de virar objeto entre objetos, lembrança nunca inaugurada. Amar sozinho é aprender a diminuir até caber no canto da própria vida. Ainda assim, às vezes a manhã insiste em abrir a janela sem pedir licença. E quando a luz entra, mesmo sem promessa, ela prova baixinho que nem tudo desistiu de mim.
No pensador.ai desde