Frase de Rafael Zafalon
O ofício do sofrimento Há quem trabalhe com ferro, há quem negocie o trigo do dia — eu assino recibos invisíveis de uma dor que não tem firma aberta. Bato ponto no escuro. Pontual, o peito comparece antes mesmo de mim. Ele conhece o caminho. Minha mesa é feita de memórias, minha ferramenta, o silêncio. Com ela aparo excessos de esperança, lixo fino que insiste em brotar. Aprendi técnicas: respirar enquanto pesa, sorrir enquanto rasga, responder “tudo bem” com letra legível. O sofrimento exige método. Não aceita amadores — cobra constância, cobra presença integral. Nos intervalos, tento descanso, mas ele confere meus passos como chefe antigo que mora dentro da casa. À noite arquivo o dia em gavetas que nunca fecham. O eco continua trabalhando depois que o corpo desliga. E ainda assim, no rodapé de cada jornada, há uma cláusula pequena: quem suporta o peso aprende secretamente a reconhecer o leve.
No pensador.ai desde