Sinal De Deus
O caminho que leva
Suspiro no ar
Um pé na terra
E o outro no mar,
Vento que sopra
Em qualquer direção
É fe que mora aqui dentro
E nunca vai desabar,
O carinho que eleva
Em qualquer coração
Moradia que releva
Qualquer estado de conservação,
O caminho é o destino
E aflito é o menino
Que segue sozinho
Num louco e triste desatino,
Pelas escadas da vida
Pelas ondas do mar
E o suspiro do ribeirão,
Fazendo o menino chorar
Desde muito pequenino
Já soltava o pranto no chão,
A mão da vida era muito pesada
E a criança não podia aguentar
Ela sempre caía da escada
Sem ninguém pra te amparar,
É destino malino
E jornada
É vestígio de pó
E resto de nada
Mas viver era sempre um capricho
Um aprendizado meio esquisito
Não tinha brincadeira
Nem banho no riacho,
Só tinha vendaval
E braços acenando a bandeira
É como se eu vivesse
E ninguém soubesse
Que eu existo,
Mas assim que o dia amanhece
Já tô na estrada
E os meus sonhos persiste
O meu caminho
Só quem sabe sou eu
Ninguém deitou no meu ninho
Pra entender de dor como eu,
Que viu a vida valente
Surrando a cara da gente
Jogando poeira nos olhos
E nos obrigando a olhar pra frente,
Sem conhecer o fim
Nem a estrada onde ir
Esquecendo do sim
E batendo sempre em porta errada
Foi vida e destino se cruzando
Foi mágoa e o tempo levando
Pela correnteza do tédio
E o tempo
Que se perdia sonhando
Foi voz que dizia que não
E força que insistia a lutar
Contra toda e qualquer multidão
Que no chão queria derrubar
Caminhei,
Como jamais quis andar
Lutando e aspirando a pé
Com um passo bem devagar
Mas seguindo sempre com fe
Foi chão
Foi grão
E migalhas
Quase um lixo
Quase sem pão?
Um corte de navalhas
Deixava sempre aberto
Dentro do peito um vão
Que já parecia um deserto
Foi quando eu avistei uma luz
Tocando na minha direção
Eu já fiz logo o meu sinal da cruz
E confesso que foi tanta emoção,
Era um sinal de Deus
Avisando que estava no fim
Toda aquela peregrinação
Com vozes do além
Dizendo que sim,
Pra um coração
Que já agradecia
Gritando bem alto amém
Porque não mais padecia.
Amor Amigo
Um amor amigo
Aos poucos foi sendo descoberto
E apesar de abrigo
Ao mesmo tempo deserto,
Congelando minha calma
Minha vontade regressa
De cair em seus braços
Te possuindo depressa
Um amor amigo
Que fale da primavera
Um enroscar contigo
Uma certa quimera,
Que apavore num grito
Quando o calor
do meu corpo no seu
De paixão se queimar,
Vão pensar que é perigo
E pintar de outra cor
Porque um amor amigo é assim
Sem luz e sem cobertor,
É cheirando a jasmim
É receio e pavor
Tem dias que ele faz festa
Tem dias que é só horror
E um pedido de socorro
Tão logo se manifesta
Assim como quem perdeu
O seu rumo
Dando com a porta na testa
Um amor amigo acontece
Pega a gente de surpresa
Ele quase nos enlouquece
E manda pra longe a tristeza,
O seu corpo aqui me aquece
E eu me pergo na sua beleza
Um amor amigo
É coisa que cresce
Aqui dentro da gente
É por natureza
Um amor amigo é banho de rio
É a coisa mais singela
É vento que sopra macio
Balançando até a janela,
É coisa que não tem explicação
Quando acontece
Alimenta o coração
E de sufoco a gente padece,
Querendo mais do que se espera
Pedindo colo em vez de mão
É um faz de conta já era
Que não passa só de ilusão.
Me Leve Pra Qualquer Lugar
Me leve em seu raio de sol
Na beleza plena do seu olhar
Clareando como um farol
Como chuva no chão a molhar,
Me leve no sal
Do teu paladar
Na sua boca confusa
E no seu medo de andar,
Me leve na fuga
E faça de mim tudo sempre igual
Todo dia me abusa
Mas não me deixa de amar,
Me leve sem medo
E me traga outro beijo
Tudo é tão cedo
Mas com tanto desejo
Já não dá pra esperar,
Me leve
E me traga de volta
Nas voltas do seu abraçar,
De tão louca
Solta me leve
No breve espaço
Que me deixa louco
Solto maluco no ar,
Me leve na tua dança
E na tua maneira de pensar
Me guarde na tua lembrança
E na sua boca louca de beijar,
Me leve na sua lambança
E na sua maneira de se lambuzar.
Calmaria
De calmaria
Berra o homem
Quando reza avemaria
E quando corre do lobisomem,
Porque no caminho
Sempre deixa seu erro
E ao invés de consertar
Ele fica de porre
E por esse mundo ele some
Acabando de arrebentar
De calmaria morre o homem
Que não sabe amar
Por descuido ou vaidade
E por não acreditar
O seus passos na areia
É a sua perdição
É como um corte na veia
E não se ter compaixão,
De calmaria corre o homem
De natureza duvidosa
Por ter medo do passado
Vivendo em contradição
De calmaria ele chora
Por ter medo do mundo
Pelo que acontece lá fora
E que reflete por dentro bem fundo
De calmaria ele morre
Sem socorro
E quando ele corre
Sempre dá de cara pro morro
De calmaria ele é mito
É recado
É palpite
E quando aflito
É pra sempre abandonado.
A Fúria Da Razão
Um dia eu tive que reclamar
Das coisas que só me faziam mal
Não dava mais pra deixar
Aquele barco de novo a remar,
E fingir pra mim mesmo
Que estava tudo bem
Tudo normal
Tive que mostrar
Qual era o seu lugar
E impedir que outra vez
Voltasse e fizesse tudo igual
Não dava mais pra aguentar
Tanta hipocrisia
E tanta coisa fora de lugar
Tanta coisa era um perigo
De se ter medo até de entrar,
Pela gelosia
Dava sempre pra espiar
O que se escondia naquele abrigo
Que pra gente não queria mostrar
Não era faca, aço
Nem facão,
Não era barco, abraço
Só coração
Espantado como ele só
No vai e vem
Dessa confusão,
Num estado de dar dó
Com rosto molhado
Sem direção
Um dia eu tive que reclamar
Colocar a boca no trombone
O meu instinto é amar
E nunca falar em telefone,
Comigo é olho no olho
É o meu jeito de reagir
E também de começar,
Malandro tu não tenta fugir
Porque o meu grito é tão alto
E tu não queira imaginar,
A doçura tem meu jeito normal
Quando ninguém me atrapalha
E me trata sempre por igual
Mas nunca banque o canalha
Atropelando o meu ideal,
Porque se não você vai conhecer
A fúria da minha razão
Que dentro de mim
Nessas horas dão sinais
E faz prevalecer
O que vem do coração,
E todo dia aqui dentro
Já bate sem fim,
É batuque de assustar
E até parar a multidão.
O Mistério Da Vida
O mistério da vida
Só a morte explica
Pelo tamanho do corte
E a ferida que fica,
Pelos caminhos sem sorte
E pela saudade sentida
O mistério da vida
É uma viagem no tempo
Uma lembrança atrevida
Um sentimento retido
É uma chama que se acende
E nunca quer apagar
É uma falta
Que poucos compreende
Mas no peito
De quem sente
Ela quer sempre rasgar,
E quando ela exalta
É maior que dor de dente
Faz a gente correr
E até mudar de lugar,
Quando ela aperta é feito serpente
Nessa hora a gente quer morrer
Já que nunca mais pode abraçar
E nunca mais vê pela frente,
O mistério da vida
Ninguém nunca vai entender
Porque existe a despedida
Se queremos tanto viver,
Porque tanta luz se apaga
Muito antes de nascer
Silêncio nessa hora é o afago
É o que dá pra entender,
Pela largura da dor
É o que se aguenta dizer
O mistério da vida
Quase não dá pra escolher,
É a fase mais dividida
Porque só nos resta morrer
Nem as horas vão poder mudar
Nem o tempo vão poder dizer,
Um dia a gente vê tudo acabar
E quase nada deu pra viver.
Rock In Roll
Eu ouço um canto sem voz
Em algum lugar desse mundo
Uma multidão e um ser atroz
Vivendo calado no submundo,
Uma pausa me enche de calma
Mas não demora e já vem a pressa
Querendo furtar
Minha alma confessa
Trazendo agonia
Com essa dor impressa
Eu quero fugir
Eu quero cantar
Não me deixe cair
Só me deixe sonhar,
Eu quero tua boca
E quero caminhar
Eu quero fugir
E também quero amar
Eu te ofereço uma rosa
E uma viola eletrônica
Toma teu rumo
E deixe de prosa,
Primeiro escreve com sumo
Um lindo e raro poema
E depois escreve uma crônica
Usando o rock como tema
Amanhã eu quero acordar
E outra vez rever meus conceitos
Chega de me acomodar
Com os meus defeitos,
É chegado o dia
E a hora de mudar
Amanhã eu quero ir mais longe
Sem hora prevista pra voltar
Curtir essa vida tão "lounge"
E não esperar esse mundo acabar
Amanhã eu só quero ter pressa
Se ela for fiel a ficar
Nada mais me interessa
Nem mesmo se o mundo acabar
Amanhã eu quero ir pro rock
Pra ver se fecha esse corte
Que a vida abriu
Quando inventou a morte,
Fechando os olhos de quem sorriu
E o destino daquele
Que contava com a sorte
Amanhã eu quero
Muito mais do que hoje
Amanhã eu espero
Muito mais do que ontem,
Amanhã eu quero
E não pela metade
Amanhã eu espero
E não é por vaidade
Por isso eu bebo rock
E respiro fumaça
Fumaça do som
E do vidro que embaça,
Porque é esse o meu dom
Embriagar no rock in roll
E esquecer da cachaça
Depois esperar do amanhã
Lembranças marcantes
De uma gente sã
Com seus amores distantes,
Que abraçaram e partiram
Por esse mundo afora
E quando insistiram
Já era hora de ir embora
O rock chegou
Como quem chega e chora
E assim te fez caminhar
Por essas linhas tortas,
Deixando pra trás
Quem chegou agora
Pronto para amar
E nos trazer aquela paz,
Entrando por essas portas
De quem sempre pede mais
No vai e vem pra algum lugar
O rock é quem manda
E quem sempre corre atrás
Rock in roll de manhã
Meio dia e depois do jantar
Rock in roll tá na veia
Tá na lã
E no jornal,
Todo dia é pra gritar
E fazer tudo sempre igual
Porque rock in roll ta feira
E na liga da justiceira
Que completam meus dias
Como brincadeira,
Nos trazendo alegrias
Na quantidade de uma cachoeira
Por isso eu bebo
E respiro rock,
Eu me requebro
E me desloco
É a magia
Da minha locura,
Onde o meu cérebro
Faz barulho
Mas eu sei que é só alegria
E no fim muita doçura.
Mascote Da Amizade
Se eu pudesse
Eu guardava o teu sorriso
E não deixava
Ninguém chegar perto,
Ter você é tudo que eu preciso
É a dose mais pura
De água no deserto
Se eu pudesse
Eu te guardava na lua
Pra que ninguém tocasse em você
E só o teu brilho chegasse na rua,
Como quem chega
E ensina a viver
Se eu pudesse
Eu te carregava pra mim
E a minha vida entregava
Em suas mãos,
Como quem entrega sem fim
Com a mais pura e louca emoção
Seu sorriso irradia a multidão
Seu caráter transmite sensatez
É coisa que não se paga
Com um milhão,
Nem dá pra levar tudo de uma vez
Porque junto a tudo isso
Vem a sua bondade,
Que é mais que um compromisso
É pura sinceridade
Se eu pudesse
Eu te protegia da chuva
E te escondia do sol
Quando o inverno chegasse
Eu te trazia lençol
E defendia da rua,
De todo perigo
Eu defendia também
Você é um grande amigo
E sabe ser do bem,
Assim como você
Aqui outro não tem
Você é o mascote da amizade
O vento que sopra
Em qualquer direção,
Você é amigo de verdade
E contigo não há desonra
Nem tampouco decepção
Amizade é acordar de manhã
E achar tudo engraçado
Amigo é ser natural
E está sempre do nosso lado,
Segurar a nossa mão
Quando mais precisar
Sem olhar os nossos defeitos
Tratando todos por igual
Se eu pudesse
Eu te levaria comigo
Pro fim do mundo
E aonde mais precisasse,
Te guardaria em meu abrigo
Quando esse mundo acabasse.
Vida Louca
Meus olhos são aquele morro
E o pó é como cachoeira
A boca pede socorro
E o sangue quando ali escorre
É como água na biqueira,
Não sei quem vive
Não sei quem morre
Eu só sei que é livre
Assim como quem corre,
Viver nunca foi brincadeira
A vida sempre teve lá seus aclive
Eu sou a boca
De quem não morde
E o poder de quem não têm,
Eu sou tudo o que você procura
Na falta que me faz também
Acorde a sua locura
Porque o amanhã já vem,
Adote aquela doçura
Pra quem um dia te olhar
Poder dizer amém
Os meus olhos são uma cidade
Numa noite de carnaval
É uma bela amizade
Em pleno canavial
Que vai cortando com a mão
Pra fazer aquele açúcar
Misturando mel com paixão
Até aguçar o que se quer
Nem que seja perdão
Ou ilusão se puder,
Perto do que não vai
Longe do que já vêm
Na pureza de todo dia
No sentido do que não sai
A locura já detêm
E o poder da alegria
Cada vez ficando pra trás
Longe do que não sobe
Perto do que só cai,
Pano que nunca encobre
Menina louca de saia
Confuso destino destraia
E aos poucos um dia descobre
É a vida louca que se vê
Perto do sol que já tá pra nascer
Eu vim na sombra da lua
Muito antes de tudo escurecer,
Pelo o que se faz na rua
Diz que te ensina
E ainda da prazer
Prazer de se ter na cintura
O que devia esquecer
Isso é perto da locura
De quem não têm o que fazer,
Quando a doçura já amarga
O jeito mesmo é correr
Enquanto dá tempo
E os amigo não te larga
Os meus olhos
São os retratos do mundo
Aflição de quem olha
Desespero de quem não vê
Perdição lá no fundo
Decepção se não crê
Aventura de amargar
Nuvem negra em pleno deserto,
Rio a naufragar
Nunca errado
Sempre tão certo
É o preco que temos a pagar
Quando o enredo é incerto
Dá vontade é de afogar
Pra nunca mais chegar perto.
Felicidade
Felicidade é coisa rara
Daquelas que a gente
Quer segurar com as mãos
E nunca mais soltar,
A gente quer guardar no coração
E por aí andar
Com ela estampada na cara
Felicidade é uma pedra preciosa
Uma amiga meio delicada,
As vezes ela é ansiosa
E chega te dar cutucadas
Felicidade é água de rio
Que corre tranquila alegre e macia,
Felicidade nunca é vazia
Tem sempre mais alguém
A compartilhar dessa alegria,
Pois ela é sempre contagiante
E só ela faz melhor o seu dia
Pra você seguir adiante
E sair da nostalgia
Felicidade é bem querer
É luz divina no amanhecer
Felicidade é chuva no teto
É luz que faz
O nosso sonho crescer,
Só ela é quem refaz
De uma vez por completo
Um campo inteiro
Tão lindo a florescer.
Retirantes
Somos o pó
De uma vida em ruínas
E uma gente
Sem disciplinas
Tentando desatar esse nó
Somos a rampa do morro
E cara mais suja no chão,
Somos enfim aquele choro
Sem a chave do mundo na mão
Somos relâmpagos
Invernos e refrão
Que o trovão da vida
É um poema
Pra moça sem coração
Que vive sempre iludida,
Fazendo dos seus dias
Um dilema
No breu confuso da noite
Sem amor, amigos ou paixão
Somos a voz
Que se solta em vão
Um ser feroz
Na escuridão,
Somos a correnteza
E aquela multidão
Vivendo de incertezas
Querendo tocar
O sol com as mãos,
Somos enfim uma fortaleza
E toda aquela confusão
Somos a liberdade
E toda a solidão
Prisioneiros da desigualdade
E da falta de compaixão,
Pois o mundo é um motor
Que gira em rotação
Onde a verdade
As vezes se esconde
E no peito ainda mora uma dor,
Somos enfim essa multidão
Com essa falta de amor
E perdão
Que a vida as vezes
É como um trator
Um certo quinhão
Pra quem tem outra cor
Nós somos a falta
Que preenche o vazio
A solidão que exalta
E o sucesso um tanto tardio,
Somos o regresso
De quem vem de longe
Trazendo na mala
Sonho e esperança
E também algum documento,
Mulher sempre fica na sala
E criança vem com o tempo
Quando a coisa aqui melhorar
Eu coloco todos na bagagem
E também carrego pra cá,
Pra ver o sol nascer mais bonito
E beleza vai ser trabalhar
Pra se sonhar com o infinito
Primeiro é preciso buscar
Pra depois louvar com o bendito
O que de fato pôde encontrar
Do pó do nordeste sem chuva
Onde só tem curva e peste
Eu vou direto é pra cidade grande
Pra que algo de bom
Lá se manifeste,
Apesar do barulho do som
Diferente de lá do nordeste
Onde tudo era só silêncio
E tão calmo o nosso agreste,
Levo comigo o meu dom
Que tenho há milênios
Uma forma assim de presente
Vinda de uma força celeste
Pra quem tá na vida sem rumo
E longe da casa da gente.
Voz Ativa
Depois a gente inventa
Uma outra maneira de falar
De uma forma que não arrebenta
Nos obrigando a calar,
Já que tudo que a gente diz
Dizem que é proibido
É coisa que contradiz
A um ser assim tão sabido
Depois a gente inventa
Uma maneira de falar
Porque todo rei
Tem sangue na venta
E quase nada ele quer escutar,
E por isso eu já não sei
Se eu falo,
Canto ou berro
Pra que um dia congele
Na garganta um calo
De tanto vomitar o que eu quero
Depois a gente inventa
Uma direção
Uma luz que levanta
E acenda teu coração,
Que já anda meio escuro e perdido
Vivendo em contradição
Depois a gente inventa
Uma palavra
Que seja tão só
Mas sempre dona da gente,
Que toma conta de nos dois
Quando levantar aquele pó
E nada mais se ver pela frente
Coisa dura tormenta
Palpite cego valente
Palavra arisca confusa
Diagonal do tempo serpente,
Que vibra cai
E não sai
Nos vãos desse cais
Já recai,
Quando perdido se acha que vai
E a boca intrusa
Num segundo retrai
Depois a gente inventa
Uma outra maneira de calar
Dessa vez um tanto diferente
Daquela que se tem de falar,
Que surdo que é surdo lamenta
Um dia não poder escutar
Pelos ares vai sempre voando
Algo que o povo dizia
Quando os homens
Na terra voltando
Ouvia somente o que queria
Parte que não preenche
Voz que não alimenta
É esse o mais puro vazio
De quem consente por fora
E se cala por dentro,
É nessas horas
Que eu já não sei
Por que será que ainda aguenta
E não abre esse jogo agora,
Todo dia só aumenta
E um segundo já demora
É coisa que o coração inventa
E logo já quer gritar,
Por tudo que tá engasgado
E já não dar pra esperar
Voz maluca quer correr
Quer cair na tentação
De quem fala por viver
Por gritar um coração
Que palavra enche o mundo
Enche mais que o ribeirão
E se não grita quer morrer
É como viver na escuridão.
Toda Brincadeira
No fim toda brincadeira
Vira coisa séria
Assim como todo país
A sua bandeira simboliza a miséria,
No fim toda brincadeira
Sempre pede bis
Mas um dia ela vira coisa séria
E já não é mais aquela
Que a gente sempre quis,
No fim toda brincadeira
Esconde algum mistério
Como cadeira
Que se empilha no escuro
E pra cair já está por um triz,
No fim toda brincadeira
Sempre vira uma escola
Cada gesto é uma cordilheira
É como tirá um coelho da cartola,
Fazendo dessa brincadeira
O nosso canto e a viola
Pra sempre um eterno aprendiz,
É o saber que se leva
Pra qualquer lugar
Dentro da sacola.
A Música Em Mim
Quando muito ainda era pouco
E pouco era quse nada
Quando cantar era um sufoco
E se insistisse levava pedrada,
Eu bancava o louco
E cantava até nas calçada
Quando eu gritava
E ninguém me ouvia
A minha voz flutuava
E quase nada dizia,
Era susto
Era covardia
Mas mesmo assim
A música eu abraçava
E quando cantava
Eu ia até o fim
Porque sem a música em mim
Me falta um pedaço
É como se você
Dissesse que sim
E eu já não soubesse
Mais o que eu faço,
Sem música
O meu mundo escuresse
É como gostar de alguém
E não ganhar seu abraço
Quando eu canto
No mesmo instante eu danço
Por isso te causa um espanto
Mas é dengo maluco
Que só faz bem
À um coração tão manso,
Porque o seu sorriso
É um encanto
E quem se olhar encanta também,
É quase preciso
É como remanso
Quando mais ainda era menos
E escutar já tanto fazia
Eu sempre ficava sereno
E nunca perdia a alegria,
Porque minha viola
Era sempre contente
Como um pássaro na gaiola
Cantando sempre o que sente,
Porque a música em mim
Me faz tão bem
É o viver mais distante
E ao mesmo instante presente.
Escravos Da Maldade
Além de muito sol
Muito sal
E pouco mel,
A vida me fez assim
Me cravou no peito um anzol
E me deixou de cara pro céu,
Quando você partiu
E me deixou
E nem quis saber o que era certo,
Foi quando pegou fogo de vez
Em todo amor que era seu
Deixando tão longe
Tudo que era perto,
Além de muito medo
Muita mágoa
E pouco desejo,
O mundo te aponta o dedo
Te joga dentro da lagoa
E sempre nega aquele beijo
Te deixando atoa
Além de muito sofrer
É muito pouco
O seu querer,
Me enche de esperança
Fazendo todo que louco viver
E logo cair nessa dança
Além de muito cair
Poucos braços pra te levantar
Alguns por não querer sair
Outros pelo prazer de te maltratar
Além de pouca liberdade
Muita luta
E pouca igualdade,
Pouca gente nos escuta
Somos escravos da maldade,
Onde grita a melodia
Nos confins dessa cidade
Onde os loucos correm pra gruta
Assassinando a alegria,
Pela falta de verdade
Nessa louca rebeldia
Além de muito suor
Muita carreira
Nenhum pouco menor,
Tanta sujeira
E tanto sujeito sem dó
Que corta, mata e aproveita
O bem bom de estar só,
Na loucura travessa sujeita
De sempre se esconder à direita
Sem nunca deixar rastro,
Vestígio nem pó.
Aprendiz
Espero que você
Tenha aprendido a lição
Pra que tanto b-a-ba
Não tenha sido em vão,
Espero que você
Tenha se arrependido
Pra que tanta comunhão
Não tenha servido pra nada,
Espero que você
Tenha entendido o recado
Pra que tanta confusão
Não tenha sido pecado,
Espero que você se entregue
De corpo, alma e coração
Pra que tanto esfregue, esfregue
Não seja só paixão
Pra não ficar parecendo
Que o amor tenha acabado
Quando só restou ilusão,
Com tanto sangue fervendo
Espero que você
Tenha rezado no sábado
Pra que tanto vem me ver
Não seja só perdão.
Animação
Hoje eu quero brasa
No meu aconchego
E vento pra me animar;
Sem esse olhar de mundo cego
Que segura a minha asa
E não me deixa voar,
Hoje eu quero a luz
Que clareia um coração
Capaz de irradiar uma casa
E tirar o capuz
Dos olhos dessa paixão,
Pra que a gente finalmente
Consiga se amar
E não ser mais o intruso
Em frente ao portão
Hoje eu quero
A mais linda melodia
E só da tua boca eu espero
O canto que faça
Melhor o meu dia,
E que toda fumaça
Seja o mistério da vida
Aonde se esconde
Toda e qualquer alegria,
E que a chuva não caia
Antes do sol sair
Pois eu tenho medo da vaia
Que possa insistir,
Assim como o bonde
Que passa apressado
E o homem diz
Não querer mais ir
Hoje eu quero a vida
De um passarinho
Onde o vento te convida
E a liberdade faz seu ninho,
Que meu canto seja a glória
A clarear todo caminho
Capaz de curar uma ferida
E o meu canto entrar pra história
Hoje eu quero o abraço da noite
E o olhar sincero lá das estrelas
Pra quando esse mundo me olhar
Verá que a luz é como açoite
A brilhar nos olhos dela,
Hoje eu quero no espaço
Um cantinho bem guardado
Pra que o meu corpo
Em seu abraço cela
E sinta o prazer também
De um dia ser amado
Hoje eu quero festa
E muito barulho
Quero um abraço bem apertado
Mesmo de quem me detesta
Mesmo que seja um bagulho,
Animação é o que me convêm
Pois eu não vir a esse mundo
Pra agradar ninguém
Eu quero é curtir a vida
E se você quiser
É só me acompanhar também,
Eu te prometo a minha amizade
E defender de todo perigo
Mas a minha sinceridade
Sempre te impõe castigo,
Pois quando eu abro a minha boca
Eu falo sempre a verdade
E se isso te incomoda
Talvez é você que não sirva
Pra entender o que é liberdade
E muito menos pra ser meu amigo.
O Meu Amigo Travesso
O meu amigo travesso
Outra vez correndo perigo
Ele está de volta a um começo
Aonde tudo começa contigo
Amigo maluco, travesso
Que apuro!
Você é o susto
Que alimenta a amizade
É o barulho que assusta
E acorda toda cidade
Diante de tudo isso
Toda manhã é preciso cuidado
Amigo travesso,
Maluco, pirado
Toda manhã
Eu preciso um bucado
De está pertinho de você
E amigo assim
É pra se ter dentro guardado
E assim pra sempre vai ser
Nunca aqui dentro ter fim
Mesmo que o mundo tiver acabado.
Nepotismo
Um dia o nepotismo se apaixonou perdidamente pela família,
Dizendo agora canta teu galo que o meu já tá no terreiro,
Cuspiu a valentia na cara dos fracos
Deu um nó na gravata
E também em nossa garganta,
Ateou fogo no sonho e arrancou toda ilusão,
Nos sangrou com o teu silêncio
Depois de envenenar os nossos desejos,
Prometeu o céu mas derrubou o mundo,
Trouxe quem tava longe
Pra que a bagunça ficasse completa,
Enganou a multidão
Que um dia pulou e sacudiu
Pela tal da união,
Foi quando eu vi tudo se acabar
E tanta coisa sucumbiu
Nova maneira de pensar
Tragicamente em mim reagiu,
Porque não era hora
E nem lugar,
Mas quando o meu chão se abriu
Eu vi por você toda luta ir embora
E só me restou afogar.
Sina
A estrada era longa
E parecia nunca chegar
Os olhos distantes
Eram aqueles faróis
Que a noite carregava
Como se o dia nunca fosse raiar,
E o vento era como os pneus
A correr macio no asfalto
É como se a brisa nunca existisse
E só o barulho pudesse escutar,
E assim entrei na madrugada
Correndo sem sair do lugar
Olhando ao meu lado
Quem sofria em disparada
E os meus olhos com sono
Já queriam fechar,
Como se perdessem o trono
E quisessem repousar.
Cortesia
Não quero te ver triste assim
Tristeza assim não combina
Não quero que seja teu fim
Acabar tão triste, menina,
Eu quero te ver sorrir
Eu quero te ver correr
Não quero que façam por mim
O que eu não consegui por você,
Mas me leva na tua gandaia
E me deixa apagar teu facho
Me dá um nó em tua saia
E me leve no teu requebrar,
E quando você sai
E eu não te acho
Não sei o que será de mim
Seu riso corta como uma navalha
E sua boca fala como um arlequim
Não quero te ver tão louca
De louco já basta eu
Não quero te ver tão rouca
De tanto me chamar de seu,
E quando eu beijar a sua boca
Já pode vir buscar o que é teu
Antes que eu saio de touca
Antes que eu viro um ateu
Menina linda de lança
Prazer o meu nome é confiança
Se eu te pego de jeito eu te laço
E no seu dedo
Eu coloco uma aliança,
Depois eu te aperto
Com o meu abraço
E pra sempre
Vai ficar na lembrança,
Porque é tão forte
O nosso passado
É um elo feito de aço
E por sorte
Me tem amarrado.
Mudança
Será que foi eu quem me perdi nessa mudança ou foi a sua mudança quem me perdeu?
Será que eu estava dormindo
Ou foi o sonho quem morreu
Eu só sei que eu vi tudo partindo
Quando aquela multidão desceu
Tinha muita gente cantando
E muita gente fingindo
O menino já vinha chorando
E a mudança estava tinindo
Será que foi eu
Quem ficou para trás
Ou foi o sol quem se escondeu
Eu só sei que roubaram
A minha paz
E tudo o que a gente viveu
Será que foi eu
Quem esperava demais
Ou foi o claro da manhã
Que dessa vez escureceu
Eu só sei que nunca mais
Eles foram os mesmos
E a ninguém mais ele obedeceu
Escondeu de mim o cais
E aquela bala de hortelã
Será que foi o destino
Com cara de gente grande
Pensou que a gente era menino
Dizendo olha pra frente e ande
Eu só sei que foi bagunça
Muita luta saiu fumaça
Ali eu conheci sua dança
Mas hoje por você eu perdi a graça
Pelo tamanho da muamba
E o teor da desgraça
Mudança esquisita
Pra quem esperava ser diferente
Se não houvesse os parasitas
Pra impedir que meu barco
Remasse sempre pra frente
Mas nem sempre é o que se quer
Tem sempre uma moda
Uma linha torta e aflita
Nessa mudança marota
De quem come a soda
Palita os dentes
E depois arrota.
É Tudo Que Eu Vejo
Eu vi tanta gente crescendo
E tanta gente morrendo
Vi tanto rio secando
E tanto peixe correndo,
Vi tanta água se acabando
E tanta multidão apressada
Algumas lutando por quase nada
E outras por tão pouco
Levando quase tudo,
Vi mistério gritar como surdo
E tanta promessa
Ser feita no escuro,
Vi tanta lógica perdida no fundo
E tantos rabiscos tortos
Na parede do muro,
Vi tanta bestage
E tantos outros corpos
Fazendo parte
Da mesma estalagem
Eu vi midingo correndo
Sem ter pra onde ir
E tanta coisa ele querendo
Sem saber como conseguir,
Por exemplo um pão
Pra ele estar comendo
E uma cama pra ele dormir
Tudo isso eu vejo
Todo dia com frequência
Lhe falta carinho,
Um abraço e um beijo
Lhe falta ternura
E pra quem te olha a decência,
Pra uma só criatura
Que já padece pedindo clemência
Eu já vi de tudo nessa vida
Coisas até que os meus olhos
Não queriam enxergar,
Tanta coisa estranha
Num só lugar
Todo dia me apanha
E me leva
A outra maneira de pensar,
Porque os meus olhos
Já não querem ver mais
Tanta treva
E tantas formas de penar,
Tanta loucura que só nos leva
Para trás
Nos deixando perdidos na relva
Naquele abandonar,
De quem diz adeus
E até nunca mais.
O Que Há De Melhor Em Você
O que dirá essa gente
Quando a enchente passar
O que fará a semente
Se você não regar,
O teimoso vai ser
O que você atiçar
Seja do bem
E pague pra ver
Atice em você
O que há de melhor,
Ninguém vai te amaldiçoar
Se você crê
No que faz
E a cada dia faz por querer
Ou gostar,
Irreverente é quem faz
Tudo isso por viver
Ou amar,
O resto aos poucos acontece
Basta você querer
E no sonho acreditar.