BALDARACCI
Laila,
Lá fora tem um mar,
Tem um mar de estrelas,
Têm estrelas do mar
Têm arraias, pipas, peixes papagaios
Tem um polvo gigante,
Um povo importante,
Tem um povoado onde urubu voa rasante
Farejando o lixo
Mas, o que importa?
Dorme teu sono de felino
Sonhando com os camundongos,
Mas saiba que o deus dos gatos é um rato
O deus dos gatos é um camundongo...
O deus dos tigres é um antílope...
O deus dos leões é um gnu
O Deus dos homens
Não é mulher nem homem...
povoa, povoa o meu olhar
a índia na lagoa
o menino na canoa
um barco nos conduz
a luz vermelha cor de telha nos cabelos ,
laranja nas unhas,
quantas testemunhas,
parece uma coisa à toa
mas há paz,
há paz...
a paz na turbulência
comportada do meu peito,
é um semi-leito,
é uma canoa,
eu não sei...não sei o que é isso
amo Messejana com suas mangueiras
e viadutos, José de Alencar e todos os seus índios
amo Messejana....
ESTRUME
Barulhenta a manada rasga a tarde
Torna opaco o horizonte de poeira
Arranha a vegetação,
A solidão perde parte do verde
Se perde no cinza de colinas distantes
O rio se torna uma flora de chifres
Uma armadilha pra paraquedistas
Quem seria o artista de tão bela aquarela
Aboia o vaqueiro com seu chapéu de coruro
Uma canção cansada de solidão
O gado não sabe o valor do silencio
Teme piranhas na correnteza
A beleza da vida descortina horizontes
Mãe Benta é a rainha da filosofia
Dentro do seu analfabetismo,
Pele parda um metro e sessenta:
"A vida é a vida... o resto é estrume
E o estrume faz florescer o campo..."
O QUE É O AMOR
nada do que disseram antes
nada do que dirão depois
nada do que calaram sempre,
nada do que bradaram os profetas
nada do que foi promessa
nada do que negaram sempre,
nada do que cantaram os poetas,
nada do que calaram os céticos
ouça com o olhar
apure o paladar
tenha sessenta sentidos
veja com a audição
nada do que disseram antes,
nada do que dirão depois
escute a videira, o farfalhar sob os seus pés
e colha o arroz...
Eu sei que o sofrimento molda a alma
A mágoa deságua o sentimento
E as lágrimas aliviam a dor
O amor suporta todo sofrimento
Perdoa sem guardar ressentimentos
Ressente sem guardar rancor...
Depois do fim do mundo, quando ocorrerá o juízo final
Os santos habitarão Angra
E nunca mais agruras, saudades nunca mais;
Era o que propunha tanto deslumbramento
Naquele final de tarde,
Os seios peras de Janice pareciam sustentar o ocaso
Já era tarde demais
E dentro dos seus pesadelos
Pesava o pesar de pesar a dor
Ele comeu a namorada
A mãe da namorada, a irmã mais nova,
A vó andava muito carinhosa
E o seu sogro lhe olhava estranho...
Ele comeu a namorada,
A mãe da namorada,
A irmã mais nova
E a tia lhe dava selinhos...
Já era tarde demais
E sua cabeça fervilhava
E no final de tarde
Quando a tarde doura as nuvens
E pinta róseo o horizonte
Seus desejos de poeta suplanta a filosofia...
Hoje a tia... a tia tinha um ângulo bonito;
Um passado que adivinhava
Um busto encantador,
Uma beleza singular
Que ainda não perecera no tempo,
Seria um bom momento, um condimento...
O que mais se faria em Angra,
Vista paradisíaca, comida afrodisíaca...
Estavam todos tão felizes...
Ele comeu a namorada ,
A mãe da namorada, a cunhada caçula, a tia...
A avó era muito simpática, o sogro meio um ogro
Se bem que olhando direito...
TALVEZ
eu nem te amo tanto assim
eu nem te amo tanto
eu nem te amo
talvez só um pouquinho ao amanhecer
quando um restia de sonho me induz
e depois só um pouquinho
porque ninguém é de ferro,
também preciso de carinho
preciso precisar o que preciso
talvez nem seja amor
mas se não for o que será ao entardecer
ao te querer por perto
o que será esse deserto
a te esconder de mim
o que será esse fim do mundo
ao não ter fim este querer
talvez eu ame mais a mim que a você
talvez eu queira mais
não ser amor este te amar enfim
eu nem te amo
eu nem te amo tanto
eu nem te amo tanto assim
Sad, sad, sad, sad, sad, sad, quase um anjo,
Chapa, chapada diamantina
Diamante rima com eternamente,
Meu olhar ausente, uma caverna
A guardar o sol e a dor eterna
Das luzes que na tarde
Arde a cair nos canyons;
Quase anjo, sad, sad, sad. sad, sad
Quem há de mudar o imutável
A não ser o tempo
O tempo de recolher as pedras,
De reconhecer as perdas
O tempo de colher as pedras preciosas
O tempo de descer a mina
De guardar o horizonte
Na silhueta feminina
A caçar mamutes como borboletas
Com a leveza e o romantismo de libélulas
A se espelhar no lago
Triste triste triste quase existe
A impossibilidade de poder
Buscar no tempo o olhar de ternura
No momento que por um instante de loucura
Aquele olhar me fez acreditar em anjos.
Acho que a noite é infinita
como o meu amor
e quando penso
que a noite é tão bonita
o dia já chegou
eu acho que te amo
eu acho que te amo,
não sei por quanto tempo
mas já faz tanto tempo
que eu acho
acho, faz mais de trinta anos...
as coisas que se faziam sempre rotineiras
as dores que me deixavam olheiras
a insonia a reanimar fantasmas...
a ideologia dessa gente se desfaz numa curva de esquina
a rima fica amarga, amarga a margarina
nos sobram gatos e problemas com asma
tenho uma saudade tão grande da minha infância,
saudade de retratos em família
as primas as tias a filha da vizinha...
revoluções, sonhos de democracia
sonhos que eram só utopias
essa liberdade é azeda, ácida e se dá fácil como uma messalina
propina por cargos, propina pelo silencio, propina pela calma
empenha-se um país, vende-se sua diretriz
prostitui-se uma nação, vende-se almas..
• Eles chegaram verdes, numa luz esverdeada, esverdeando a caatinga; reverenciaram o rio numa espécie de dança; a noite ficou tão fria ou uma febre aqueceu meu corpo de sustos e ansiedade. Choviam pedaços de luzes de todas as tonalidades e só caiam no leito do rio, a noite estava fantasmagórica alem da assustadora presença de Jupira num longo branco sob o cajueiro centenário: "as mentirinhas morrem afogadas no estio, as verdades florescem as margens do rio..." era uma espécie de ciranda que parecia envolver os invasores; atrás de uma pedra eu observava todo sibilar da nave que derramava luzes a um raio de trinta metros. Nuvens cobriram a lua e as estrelas e começou uma neblina; arrastei-me entre as vegetações até uma cabana próxima onde eu estava enquanto a chuva se tornava mais densa; percebi na cabana Jupira sob a chuva entre os extraterrestres, percebi que ela passava por uma verdadeira metamorfose e também ia ficando esverdeada, os traços do seu rosto, sua pele... jupira dançava com os verdes enquanto uma mangueira com um ruído diferente provavelmente abastecia a nave com a água do rio. Comunicavam-se de uma forma que eu não entendia. mas dava pra perceber: Jupira era um deles, eu só a reconhecia porque ainda estava sob o longo branco . cessou o ritual de dança, cessou também a chuva e o vento; os verdes adentraram a nave enquanto jupira se afastava ouvi então um zumbido ensurdecedor que me obrigou a tapar os ouvidos com os indicadores, por alguns instantes me afastei da porta e quando voltei percebi apenas jupira com o seu longo branco, sob o cajueiro com a sua ciranda esquisita:
•
• "as mentirinhas morrem afogadas no estio
• as verdades florescem às margens do rio..."
SAGA
Meu bem, me diz que a vida é bela
E o amor é como o diamante
Que reluz no teu dedo
E amar não tem segredo
É só se dar e acreditar no amanhã...
Me diz amor que seremos felizes
E não haverá dor nem deslizes
Na nossa história,
Nossas memorias
Serão lembranças inesquecíveis ...
Me diz amor que a vida é linda
E mesmo que não dure é infinda a sua saga
A vida é tão bonita
Que brinca de luzir no teu olhar
A luz da lua
Me diz amor que a rua é minha e tua
A noite é eterna e o amor é infinito...
MULHER
Eu te quero tanto agora
Como a aurora de ontem e anteontem,
Como a chuva de todos os invernos
Que alimenta o nordeste
Eu te quero como a tarde
Que arde de desejo
Sob o sol da primavera
Que as papoulas enrubesce
Eu te quero como as noites
Que alimentam os amante
Como as mães que seus filhos amamentam
Que amam seus maridos
E satisfazem seus homens
E se consomem nos partos
E morrem com seus abortos
Eu te quero como a vida
Que sai de suas entranhas
E sustenta a existencia da humanidade
Nesse ciclo que se renova
No teu beijo e abraço
Nessa essência de se dar e se fazer
MULHER
FANTASMAS
meu pai chegava do trabalho
sempre com algum alimento nas mãos
minha mãe alegre fazia uma oração
havia muita harmonia e poucos deslizes
era uma época que eu não sabia que éramos felizes
agora desbota o passado em fotos amareladas
meus fantasmas vão perdendo seus sorrisos suas faces
mas um ou outro olhar vai além de fotografias
se aconchega às reminiscencias do dia à dia
um dia meu pai chegou com um cara muito alto,
era um amigo do trabalho,
aquele cara seria o marido da minha irmã
e foram felizes para sempre,
sempre que foi possível
minhas últimas lembranças de meu pai
mostram ele num canto
com dificuldades pra respirar e muito pigarro
foram sequelas deixadas pelo cigarro
então numa tarde, na editora, enquanto eu empacotava a vida
um telefonema de minha mãe avisara que meu pai tinha partido...
jamais consegui empacotar aquele momento...
ESCOMBROS
De qualquer murmuro
eu faço um poema,
De qualquer silêncio
Eu faço um sussurro,
Nenhuma dúvida
Me deixa em cima do muro
E se tudo for quebrado
Nem tudo será escombros,
Carregarei sobre os ombros
O que restar do meu mundo;
Agora me escuta silenciar,
Me ver sumir,
Aquece o que eu tiver de sol
Porque nada é mais solitário do que ser sol
E a solidão é fria.
De qualquer mentira eu faço um poema
E a mentira sempre me deseja felicidade
Antes de me dar seu beijo de boa noite...
TRAVESSIA
A primeira vez que atravessei a rua
A rua era um rio, o rio solimões...
E do outro lado do rio
Eu era outra pessoa
A pessoa que atravessara o rio...
E do outro lado do rio
Tinha outros caminhos
Com todos as seus destinos e travessias
E todos os destinos e travessias
São cheios de histórias e aventuras
Assim eu aprendi a atravessar
Meus medos e inseguranças
Que desaguam como uma correnteza
Na imensidão do mar
A vida é essa imensidão
ANGÚSTIA ETÍOPE
A minha mãe rezava pra todos os santos
E para alguns deles cantava
Meu irmão era umbandista e queria fazer a cabeça,
Jogar búzios e trazer a pessoa amada...
A minha vó, como eu, era louca de perder a cabeça
E guardava as estrelas que podia
Num saco de papel crepom
Um dia saiu de casa
E tomou banho de mar na praia do Leblon,
Depois foi vista na mata do governo,
Desde então nunca mais apareceu
Agora a vejo de vez em quando pelas praças
Como vejo todos os que já morreram,
Carrega um saco cheio de luzes cambiantes...
Nossos destinos se perdem quando perdemos o tino
Acho que minha avó foi vítima da paixão,
Já que perdera o marido que um dia partiu
Meu irmão foi vitimado pelo coração
Morreu solitário, mas não sozinho
Minha mãe sempre cantou com muita afinação
As canções de amor e devoção que com ela aprendi
Herdei seus cabelos em desalinho
O olhar perdido no vazio
E a angústia etíope de nossos antepassados...
O OLHAR DE CATARINA
A beleza das coisas
Tem uma face obscura oculta,
O seu sorriso contente,
Tem uma tristeza secreta
A terceira margem do rio,
Na sua essência
Está submersa
Boas ações muitas vezes
Têm uma finalidade perversa
Assim me perco em divagações
Passo a noite a contemplar estrelas
E não entendo o olhar de catarina
Não entendo o seu universo
E por mais que eu filosofe e faça versos,
Não encontro uma rima
Passo a noite a contemplar estrelas
E não entendo o olhar de catarina...