- AMOR DAS HORAS VÃS -
Meu amor das horas vãs
Acorda, não tenhas medo
Vem dar cor ao meu segredo
Como a aurora às manhãs.
Vem dormir no meu regaço
Vem dar luz ao meu olhar
Faz de mim o teu lugar
Do meu corpo o teu abraço.
Mas ao vires não te apresses
Deixa os medos no caminho
Passo a passo há um destino
Fado a fado há tantas preces.
Ao meu peito irás voltar
Como a aurora às manhãs
Não te importes de acordar
Meu amor das horas vãs.
- De um Espelho a outro Espelho -
Já não sou o que fui outrora
e é a vida quem o diz
passa uma e outra hora
e eu nem sei o que de mim fiz!
Vou d'um espelho a outro espelho
não é essa a minha idade
mas em todos sou mais velho
essa é toda a verdade!
Vou então viver a vida
como se me dissesse adeus a mim
não se marca a despedida
pr'a quem já tem marcado o fim!
Mas os dias vão deixando
uma coisa no sentido
que esta vida vai passando
mas nem tudo está perdido ...
HÁ PESSOAS QUE NOS MARCAM
Há pessoas que nos marcam bem na alma
pela força de serem baluartes!
Quando partem, quando Deus os chama,
fica algo deles em toda a parte ...
Fica o modo de sorrir e de falar,
as palavras cheias de silêncio e avidez
fica aquela arte tão profunda de ensinar,
não se pode amar a Deus de quando em vez.
E fica o cheiro de um perfume pelo ar
fica a tristeza cheia de saudade
as leves contas de um rosário a passar
e nós, impotentes, cheios de ansiedade.
E quando a morte enfim chegou para a levar
depois de tanto sofrimento, tanta luta,
a Fé apenas nos pede para rezar
num ultimo adeus à Dona Justa.
(Querida Justa Teles Rocha, siga esse Caminho tão bonito de que sempre nos falou: para Deus, com Deus e em Deus. )
TENHO UM VAZIO
Tenho um vazio dentro de mim
que se enleia ao meu sangue!
É tão meu, tão ao meu jeito,
que comigo dorme no meu leito ...
Que ninguém fale ... ninguém se espante.
Trago-o desde o dia em que nasci!
Foi no ventre de minha mãe
que cedo, nas águas, o senti.
Imerso em silêncio logo vi,
a solidão vivia em mim também ...
E dei um grito de carmesim
porque o vazio é um abismo
para o qual nunca se vê fim.
E a dor faz nascer o egoismo
como flores secas num jardim!
Contudo, a vida vai passando,
e mesmo assim, nada é diferente,
os meus olhos vão chorando
o vazio vai-se aninhando,
e eu, morrendo lentamente!
FOI-SE AO MAR
Ainda agora, é constante,
pela luz do meu olhar
que juro ver por um instante
o meu amor que foi ao mar.
Foi-se ao mar e não voltou
foi-se embora sem razão
tanta mágoa em mim deixou
dor, silêncio e solidão.
E deixou sonhos vividos
outros tantos p'ra morrer
os meus olhos tão despidos
sem vontade de viver.
Dei-lhe a vida que me deram
dei-lhe o mundo d'onde eu venho
todos pensam, não souberam,
que lhe dei tudo quanto tenho.
MINHA PÁTRIA
Tenho orgulho no meu Pais,
tanto orgulho, mal sabia,
corri mundo, nunca vi,
como a Gente, tal Poesia!
Até mesmo o Pôr-do-Sol
ou o nascer de cada dia,
entra o mar como um lençol
por esta Terra de Melancolia.
Tantos montes, tantos vales,
tudo em mim, vivo, à arder ...
Minha Terra não me abale
esta vontade de to dizer!
E mesmo até quando eu morrer,
não me importa de que mal,
oiçam todos o que vou dizer
que me enterrem em Portugal!
- SAUDADE DO CHIADO -
Que saudade do chiado
Dos seus dias solarengos
Da alegria d'um passado
Que dentro de mim tenho.
Das esplanadas ao vento
E Da beleza dessas ruas
Que saudade desse tempo
Dos poetas, das estatuas.
Da calçada portuguesa
Das igrejas em solidao
Trago a grande singeleza
Do bairro alto no coraÇao.
Trago os dias bem passados
Tantas horas de poesia
Tantos gritos arrancados
À ganância dos meus dias.
Da loucura dos meus sonhos
Tanta coisa foi perdida
Houve dias tão risonhos
Tanta mágoa apetecida.
E Tanta gente que passou
Pela sombra do meu fado
Foi-se embora e não levou
Esta saudade do chiado.
Ricardo Maria Louro
No Chiado em Lisboa
- SENTIDAS CONDOLÊNCIAS -
(más-caras)
Há pessoas que ao morrer
nada deixam pra lembrar,
só a certeza de saber:
nunca mais nos farão mal!
O mal que aqui fizeram
fez mudar tantos destinos
tanto ódio lhes tiveram
agora dizem ... coitadinhos!
Tantos pêsames pelo ar!
Tantas fotos ... condolências!
Venham todos sepultar
estas grandes excelências...
Não sei se pense nestes mortos
não sei se ria destes vivos
pois adoram velar corpos
dizerem que são amigos!
Nunca mais nos farão mal!
Grande certeza pra saber
nada deixam em Portugal
só lhes resta é morrer!
Uma coisa dou por certo
nesta minha reflexão
escreve Deus e é correcto
nas linhas da podridão!
P.S./ Todos colhemos o que plantámos ...
- AMAR SEM MEDO DA IDADE -
A manhã está suja de saudade!
E há lá coisa mais bonita
do que amar sem medo da idade,
viver, conforme o vento agita?!...
A vida é feita de ansiedades,
tantas vezes, de sonhos por cumprir,
mesmo assim, nas dificuldades,
ela ensina a nunca desistir.
Não importa de onde vimos
nem tampouco com quem estamos
só importa o que sentimos
e o lugar onde chegamos.
Pois conforme o vento agita
também se agita a saudade
e há lá coisa mais bonita
do que amar sem medo da idade?!
Pintura de Lisboa
É cedo, o Sol disponta no horizonte,
lá longe a madrugada adormece,
de braços bem abertos, por traz da ponte,
vejo o Cristo como estando numa prece.
E vejo o Tejo carregado de saudade
vejo a Graça que descansa na colina
é tal a magia em torno da cidade
que até Cristo num gesto se reclina.
E vejo as ameias do Castelo
essas que recortam o horizonte,
no Chiado oiço um Fado tão singelo
que vai de Santa Justa até à ponte.
São os poetas que gritam no peito
de quem vai passando p'las vielas,
há gente que se encontra a sós no leito
há tanta melancolia nas janelas.
É assim esta pintura de encantar
que tanto me encanta e enternece!
Minh' Alma como o Tejo vai pro mar
Canta, chora , dança, escreve e adormece ...
MATARAM O REI -
Mataram o Rei! Há sombras pelo ar ...
Há nevoeiro sobre as Quinas da Nação!
Mataram a Alma de Portugal!
A nossa Pátria perdeu-se do coração!
A Coroa dos Heróis desfez-se em pó!
Passámos a beber do mesmo graal:
o cálice de D. Amélia, tão só,
qu'inda assim perdoou a Portugal!
E de que fibra fora eleita tal Senhora,
que de lágrimas desfeita, sem destino,
tendo ao colo, amortalhado, o seu menino,
entregou o Coração a este povo,
sofreu calada, recomeçou de novo,
dia-a-dia, triste, só mas sonhadora?!
Ricardo Maria Louro
Em profunda Admiração a D. Carlos, a D. Luis Filipe e a D. Amélia de Orleães.
D. Amelia:
"A dor cobriu tudo. Esvaziou-me o Espírito. As recordações desapareceram. Estou incapaz de chorar. Inerte."
Controverso -
Percorremos um grande caminho,
suportamos muitas provações ...
Porquê de vivermos tão sozinhos
por andar às ordens dos corações?!
Porquê de envelhecermos sem razão?!
Só por estarmos à mercê do tempo?
O porquê de existir a solidão?!
Só por sermos frágeis como o vento?
Quem ataca a memória é o esquecimento,
quem acaba com a vida é a morte,
das duas, qual será maior tormento,
qual das duas trará a maior sorte?!
Só nos resta a condição que temos:
nunca nada ser o que desejamos,
d'onde vimos, onde vamos, não sabermos,
e perdermos tudo aquilo quanto amamos.
Um Vencido -
Eis que ninguém ao certo me conhece!
Nem os campos, os vales e os arvoredos,
ninguém conhece os meus segredos,
ninguém ouviu a minha prece!
Se alguém sabe quem eu sou, diga, por favor,
que há tantos anos que me sinto só,
no horizonte da distância, sem amor,
que me apetece morrer, regressar ao pó ...
Misteriosamente sou louco e sem trilho,
sou talvez de satanás um filho,
de Deus um enteado ou de ninguém!
Sou um filho do silêncio, monstruoso,
na terra , um eremita tenebroso,
um órfão abandonado, sem pai nem mãe.
Uma vida com mil vidas -
Esta noite tive um sonho!
Prisioneiro dos meus dias,
minha vida com mil vidas,
que eu vivi mas que não queria,
vi tão cheia de despedidas ...
Desencontrei-me dos teus olhos
cada vez que os procurei,
só vi dor e solidão
e aos versos que cantei
fechei as portas do coração!
Pus as mãos sobre o silêncio
fechei os olhos e rezei,
procurei no meu destino
nova esperança, nova lei,
p'ra seguir outro caminho.
Sobre mim caiu a noite,
dor, silêncio e solidão,
uma vida com mil vidas
tão completa de razão
tão cheia de despedidas.
O Tempo Passa -
O tempo passa pela gente
sem pensar se passa ou não
e a tristeza que se sente
envelhece o coração.
Passa a vida e a saudade
passa tudo sem excepção
e é no tempo da idade
que se encontra a solidão.
O tempo passa como louco
tudo passa pelo tempo
passa a vida pouco a pouco
como passa a voz do vento.
Sabe-se lá porque passamos
se nascemos para amar
esse Fado a que nos damos
há -de fazer-nos cá ficar.
Quando o tempo não passar
não haverá Rosas no caminho
ninguém saberá o que é sonhar
nem terá nenhum destino.
Não havendo nenhum destino,
tudo acaba, é natural,
morre o Fado 'inda Menino
cala-se a Voz de Portugal.
Pois que o Tempo vá passando
e vá passando docemente,
p'ra que o Fado vá cantando
as mágoas de toda a gente.
Dor Quadriculada -
Outra dor quadriculada ,
ordenada, posta em verso,
outra esperança queimada
que trago desde o berço.
Nova forma de doer
que eu já nem sei se presto
por não saber o que dizer
ou por não saber o resto.
Novas linhas a gemer
que gemem como as outras
e o que dizem sem dizer
vão dizendo como poucas.
Este não - saber - de - mim
dito em palavras sem estrada
são as pedradas sem - fim
desta dor quadriculada.
P.S./ ... ainda assim não podemos deixar de sorrir ...
É Natal -
É Natal nos sopés da madrugada!
É Natal na voz de cada Homem ...
Pelas ruas! Pelas casas! Há em mim,
como em todos, um apelo de ordem,
amemo-nos uns aos outros sem ter fim.
Tocam sinos na voz dos horizontes!
Há luzes que se acendem na escuridão ...
Há desejos que convergem para a Paz,
nasceu um Menino que esmaga a solidão,
e eu, ao longe, contemplando Monsaraz.
É Natal! E nós precisamos de Natais!
Precisamos que o Natal chegue aos Corações.
Que cada Homem saiba o que é o Bem ...
Que não viva apenas de paixões
e traga Amor no seu olhar também.
É Natal na Raiz do dia vão!
Aquele que nos esmaga sempre
que não sabemos por onde ir ou que fazer
ou que nos apetece regressar ao ventre
da nossa Mãe p'ra voltar a adormecer ...
É Natal nos vales da escuridão!
Aí onde a Luz precisa de brilhar.
Amemo-nos uns aos outros sem ter fim
porque nasceu um Menino p'ra nos salvar,
cultivemos o Amor como Rosas num jardim.
Dor Errada -
Fado Pinóia:
Já não quero solidões
nem tampouco sonhos falsos
eu não sei porque razões
me sinto amada nos teus braços!
Fado Lolita:
Disse adeus ao ver-te passar
disse adeus ao teu olhar
disse adeus talvez p'ra sempre,
nosso amor foi como o vento
um olhar, um pensamento
que nasceu dentro da gente.
Fado Alberto:
Como estou triste, óh Deus, como estou triste,
por tudo o que vivi, por tudo a que me dei ...
Porque teimas coração, porque insistes,
em que eu passe por aquilo que já passei ?!
Fado Calisto:
Já não quero uma paixão
sem saber d'onde ela vem
já não quero, estou cansada,
solidão é dor errada
no peito de quem a tem.
Fado Mouraria:
Mas em cada madrugada
já não dói o teu desdém
se eu p'ra ti não fui nada
tu p'ra mim não és ninguém!
O Fado como expressão maior da Alma Lusitana!
(Poema para a Rapsódia de Manuel de Almeida)
Dor dos meus Jejuns -
No branco silêncio de um depois
fica sempre um cheiro de vazio
porque esse alguém, p'ra onde foi,
não levou a saudade nem o frio.
E lá na rua onde morava
oiço ainda o eco dos seus passos
o cheiro a rosas que deixava
quando nos envolvia nos seus braços.
Às vezes, fechando os olhos, vejo ainda
aquele olhar que nos trespassava
e oiço aquela voz que nunca finda
dizendo o quanto nos amava.
Eram gestos, palavras incomuns
que ao fundo da infância davam paz
e fiquei livre da dor dos meus jejuns
minha alada e adorada Monsaraz!
Saudade em vão sentida -
Saudade em vão sentida
num adeus sem despedida
quando alguém parte p'ra sempre
e há qualquer coisa de espanto
na voz, no olhar, no canto
na Alma de quem o sente!
Quando alguém nos diz adeus
num momento, a sós, com Deus,
passam noites pela gente,
passa tudo o que fizémos
tanta coisa que dissémos
tudo acaba para sempre!
Só não morre a nossa história
feita de sombras e memória
à luz do sonho e do luar,
as manhãs ficam cansadas
as fontes amarguradas
e nós sozinhos junto ao mar.
E é no cais da despedida
que ao dizer adeus à vida
nos sentimos sem destino
e há um fado e outro fado
um lamento em vão cantado
que deixamos no caminho.
3 Espinhos ao Nascer -
Trouxe 3 espinhos ao nascer:
dor, silêncio e solidão
e quem haveria de dizer
que me ficariam no coração?!
No lado esquerdo da vida
levei a dor por companheira
e foi em cada despedida
que a senti ser mais inteira.
Do silêncio, a horas mortas,
fiz a cama dos meus dias
mudei coisas, fechei portas,
sempre triste, mas sorria.
Do Poeta trouxe a Alma
no meu punho, em minha mão
nunca soube o que é ter calma
nasci filho da solidão.
Egrégios Silêncios -
Nos egrégios silêncios de um adeus
tantos sentimentos ainda por viver
tantos sonhos que alguém disse serem seus
perdidos num amanhã por conhecer.
Há nos olhos evasivos de um mendigo
qualquer coisa de verdade e de cansado
e às vezes, na vida, somos sem-abrigo
embalando nos braços um passado.
E os egrégios silêncios são os gritos
das gaivotas enganadas pela vida,
que se partem com o vento, como vidros,
em horas de dolorosa despedida.
Talvez haja p'ra lá daqui outro amanhã,
mais inteiro, mais aberto que este mundo,
pois a esperança no silêncio não é vã
só nos resta adormecer lá bem no fundo.
Versos Repetidos -
Se eu pudesse daria novos mundos
ao mundo ...
Porque meu coração batendo vai
além de tudo!
As palavras não existem, estão ocas,
estão vazias na ponta do olhar de quem
as diz! Só há versos repetidos...
As palavras já não dizem do que antes
era; de quando o medo não pairava!
Se eu pudesse daria novos olhos
ao silêncio ... nova voz!
Novas estradas ao destino ...
Novos destinos ao amor ...
Novo amor a cada homem ...
Ah se eu pudesse ... se eu pudesse
daria novos mundos ao mundo ...