Ditados -
Quando a vida está cansada
dá-lhe espaço p'ra te ver
que ela mostra nova estrada
p'ra que a possas entender.
E deixa que ela escute
o teu grito de saudade
não há bem que sempre dure
nem mal que nunca acabe.
E porque a vida não se aninha
nem se dá a quem não espera
por morrer uma andorinha
não acaba a Primavera.
E há sempre uma quimera
que nos tira a confiança
quem espera desespera
quem espera sempre alcança.
Tantas bocas que antevêem
mentindo a toda a gente
mas olhos que não vêem
coração que não sente.
Na verdade a compaixão
é água mole em pedra dura
mas com Amor no coração
tanto bate até que fura.
Sobre a vida derramadas
tantas culpas que sentimos
mas as águas passadas
já não movem os moinhos.
E quem só vive em solidão
é seco e não tem trilhos
mas quem se dá ao coração
tem nos filhos os cadilhos.
Quem toma o que não é dele
é um cego sem saber
mas pior cego é aquele
que não vê e não quer ver.
Portas do Mundo -
Porque se fecham para mim
todas as portas do Mundo?!
Por que trago estas dores sem fim
e, na voz, um grito profundo ...
E porque me dão amarguras
todos os olhos que encontro?!
Por que as palavras impuras,
habitam tristes, meu canto ...
Porque serei um condenado
desde a hora em que nasci,
triste e perdido, na dor do Passado?!
Por que visto um silencio maior ...
Por que não importa o que perdi ...
Só importa encontrar o Amor ...
Detalhes -
Naquela casa ao fundo
vim à vida como sou
e lá morreu o meu avô
num silencio profundo.
Alta noite em solidão
passa a vida em sopro lento
passo eu e passa o tempo
só não passa o coração.
Faz doer lembrar que a morte
nos deixa secos e tão sós
naquela casa , por sorte,
sempre lembro os meus avós.
E quando um dia eu partir
não me chorem por favor
já me basta toda a dor
de ter vivido sem sorrir.
Só Isto -
Será que vim ao mundo p'ra ser só isto?!
Um filho do vazio sem tecto nem chão ...
Ser confuso sem saber se resisto
até que a morte me queira dar a mão!
Será que vim ao mundo p'ra ser só isto?!
Alguém que nada tem e nada é ...
Pois sigo o meu caminho e persisto
embora tenha mais cansaço e menos Fé!
Será que vim ao mundo p'ra ser só isto?!
Este tormento inútil e infinito
de soluços que tenho por castigo?!
E nada pode ser o meu abrigo!
Ninguém consegue ouvir o quanto grito!
Será que vim ao mundo p'ra ser só isto?!
Imagens Inventadas -
A minha voz já está gasta
e a minha vida refém
e há uma força que arrasta
o meu corpo também!
E sou despido de todas
as imagens inventadas
levo a vida sem forças
sobre águas passadas!
Tudo em mim é inútil
porque a dor é maior
estar num mundo tão fútil
pejado de dor!
Um Pouco de mim -
Minha vida nunca foi um mar de rosas
onde o rio dos meus cansaços pudesse desaguar,
mas sim, um vendaval de ondas furiosas,
onde, no mar alto, só vi sonhos naufragar!
E nunca estive à mesa onde se come,
nunca fui capaz de ter ou dar amor,
nunca fui à cama onde se dorme,
nem senti o balsamo de uma flor!
Que inferno colossal o destino me entregou!
Pobre vagabundo com roupas de jasmim
que alicerça nos poemas a revolta que o gerou ...
E levo aos ombros o peso desse desdém ...
Nos versos d'Alguém, há sempre um pouco de mim,
pois o que sou e não sou, tantos foram também!
Auto do desencontro -
Quando o meu amor chegar,
se chegar e eu já tiver morrido,
esse alguém há-de amar
como se eu nunca tivesse existido!
Que talvez nem por mim sofra!
E como poderá sofrer se chegar
e eu já tiver partido?!
Destinado a encontrar tudo vazio ...
... de mim ... sem mim ...
Absorto! Alguém sem rosto, cujo corpo,
é morto!
Na verdade alegro-me por sentir que a
minha morte não traz pena!
Se eu morresse agora e soubesse
que chegavas amanhã,
partia sem demora,
só por saber que chegarias
e que meus versos se cumpriam!
Hoje morreria ...
Tu chegavas depois de hoje ...
Depois de amanhã nada acontecia ...
Tudo estático, igual, como sempre,
como dantes.
Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah ...
Deixem-me rir desta sequência ...
Ela foi a minha vida ... nua e crua ...
Para mim sempre se fez gente ...
Sempre se fez rua ...
Alguém bate à minha porta ...
Que faço?!
Acabo os versos?! Abro a porta?!
Ou adormeço simplesmente?!
Se acabar os versos quem bate à porta
pode partir ...
Se abro a porta quem sabe o que será?!
O tal Amor? A Morte? ...
Se for amor, não acabo os versos e a´
minh'Alma não se cumpre!
Se for a Morte, os versos serão cumpridos
mas p'ra sempre inacabados ...
Que faço?! Que faço?!
Alguém abriu a porta ...
Vou voltar-me para trás.
Se for o vento terminarei os versos
e o meu ser estará completo.
Se não os acabar sabereis que encontrei
o tal amor
ou
a Morte,
a Morte,
a Morte ...
Hora de Revolta -
Mais um dia igual aos outros ...
Passa o tempo e nada traz ...
Sinto que vivo entre loucos ...
E que a vida nada mais me dá!
E o porquê de tanta crueldade?
Olhos miseráveis sem compaixão
pejados de vazio e de maldade
que vestiram no meu corpo a solidão!
Porquê?! Porquê?! Porquê?! Malditos
sejam eles e as suas descendências!
Hão-de pela vida comer meus gritos!
Hão-de tristemente enlouquecer
como praga que os consome em ardências,
e eu, vivo ou morto, hei-de ver ...
O Amor é ...
O amor é como a água
que corre sem parar
num caudal de solidão
no pulsar de um coração
para as águas do mar.
O amor é como a vida
que se dá de par em par
que por vezes é paixão
outras tantas ilusão
de nossos olhos a chorar.
O amor é como a rua
onde passa quem passar
onde chega quem partiu
d'onde parte quem sentiu
tanta dor no seu olhar.
O amor é como as rosas
nas margens do cansaço
umas vezes entre flores
outras tantas entre dores
no leito ou no regaço.
O amor é como a morte
vem de longe num rumor
à procura d'um Poeta
que fala, que confessa
tanta coisa sem pudor.
Afinal o que é o Amor?! ...
É uma coisa inacabada
que alegra e magoa
que nos deixa ir à toa
à deriva pela estrada.
Ninguém me diga nada -
Hoje venho aqui falar da minha mágoa ...
Da ânsia que me esventra e consome ...
Ninguém me diga nada!
Ninguém a queira entender, porque nem eu,
tampouco, lhe dei nome ...
Esta amargura de onde vem?! Não sei! ...
Mágoa, vazio, solidão ...
Talvez uma euforia a que me dei ...
Dor e agonia de um pobre coração - sem chão!
Porque habita ela em mim se a desconheço?!...
Talvez seja o principio de um amor, ou talvez,
novamente, a revolta de ter nascido!
A tristeza de me ver perdido,
num corpo que passa,
num mundo que em nada, por nada,
me abraça! ...
Pode ser tudo e pode se nada!
Por isso afirmo mas não juro! ...
Viver assim é tudo da vida quanto sei .
E se nada mais me é dado saber,
resigno e não insisto.
E não me questionem!!!
Deixem-me fazer o meu papel de louco ...
Não fui nada! Não sou nada! Nunca serei nada!
Porem, muito me agrada ser, nesta angústia de
ser tão pouco ...
Pedido de Amor -
Dá-me os teus olhos profundos
que eu dou-te os meus em troca
como os teus não tem o mundo
nem mesmo um santo de roca.
Quando estamos separados
passa a vida, passa o tempo
e meus olhos magoados
duas pombas ao relento.
E deixa tudo se apagar
até meus sonhos vencidos
lá dentro do teu olhar
estão os meus olhos perdidos.
Quando um dia eu partir
não me chores por favor
ter vivido sem sorrir
já bem basta meu amor.
Ai -
Ai esta insatisfação que me habita
ai esta angustia que me come
ai esta amargura que se agita,
no meu peito, sem nome!
Ai esta loucura que eu visto
cheia de escárnio e solidão,
ai este não-sei-se-resisto
à dor que me esventra sem razão!
Ai esta mentira que eu vivo,
ai este pecado que eu sou,
um pobre coitado, vencido ...
Que vive a vida escondido,
perdido e calado, despido,
pois a esperança na vida, voou!
Olhos de Silêncio -
Nos meus olhos de silencio
há dois ecos de saudade
dois martírios consagrados
pelo peso da idade ...
Nos meus dedos levo a culpa
dos amores que não toquei
e se a culpa me matasse,
estava morto, eu bem sei ...
E porque fomos mal-amados,
nunca fomos bons amores,
só Poetas ilibados ...
Mas "ser Poeta é ser mais alto!"
É ser dono das minhas dores
quando aos versos nunca falto!
Pedido -
Dá-me um pouco de amor
que o silencio já não basta
leva tudo, leva a dor
por onde a vida me arrasta.
Dá-me um pouco de Lua
que a noite não é minha
a culpa não é tua
perdi a Alma que tinha.
Dá-me um pouco de vida
porque a morte vai chegar
levará, de mim, perdida,
a luz do meu olhar.
Dá-me um pouco de paz
ó Senhor da Cruz de pau
pois de mim o que será
se o meu caminho for mau!
Dá-me um pouco de esperança
p'ra vencer a solidão
que me tira a confiança
e me afunda o coração.
Ó Senhor dos meus cansaços
ó Senhor do meu Destino
toma sempre nos teus braços
cada passo do caminho.
Àquela quina -
Àquela quina da cidade
onde a mágoa se alevanta
moro eu, mora a saudade
e também Florbela Espanca.
É o nome da Praceta
ali de fronte à minha casa
que um dia foi eleita
pelo nome que hoje abraça.
E porque escuto a condenada
que tanto fala na Praceta?!
Tantos versos pela estrada.
Uma voz que não se deita.
Vejo no teu rosto -
Hoje vejo no teu rosto
tanto tempo que passou
tanta vida que viveste
tanta esperança que secou!
Hoje vejo nos teus olhos
tanta raiva do passado
tantas culpas que carregas
e convivem lado a lado!
E quanta Morte; quanta Vida
nos habitam sem piedade
nesta loucura sentida!
Mas como o sonho é maior,
a solidão e a saudade
dão lugar ao nosso amor!
Fui -
Fui de cansaço em cansaço
de solidão em solidão
nem a esperança de um abraço
só vazio no coração.
Fui de poema em poema
de loucura em loucura
na verdade que o tema
sempre foi amargura.
Fui de boca em boca
procurando um coração
e só a loucura mais louca
levei triste na mão.
Fui alguém que ninguém viu
uma Alma ressentida
fui um preso que fugiu
das amarras da vida.
Convento da Orada -
Em plena planície Alentejana
há um edifício antigo que se ergue.
A paz que da fachada ele emana
não deixa indiferente quem lá segue.
Há nele um aroma místico de paz
que atravessa a nossa caminhada,
nas várzeas da solitária Monsaraz
alevantasse o Convento da Orada.
Intimo, extenso, pesado mas profundo ...
No seu silencio escutam-se as vozes
de mil frades perdidos pelo mundo.
E passa o tempo, a vaidade, a solidão,
só não passam os olhos tristes e ferozes
de D. Nuno, junto à cruz, em oração.
Inter - Mundos -
Inter-Mundos vivem corpos
peregrinos da esperança
alguns vivem como mortos
outros ganham confiança.
Outros tantos não se lembram
que o silencio é o caminho
e talvez até se esqueçam
de encontrar outro destino.
Na verdade não me lembro
quando a vida me deu vida
do destino me dar tempo
de encontrar a Fé perdida.
E porque a morte chega tarde
quando os gritos são profundos
tanta gente com saudade
que vive triste Inter-Mundos.
Antes de Nascer -
Foi tudo um sonho desfeito
que passou na minha vida
e erguendo as mãos ao peito
adormecido no leito
nem uma esperança em mim havia!
E vivi tanta mentira
sobre a luz de um triste corpo
pois a vida tudo tira
e nunca mais ninguém me vira
esperando alguém naquele Porto!
Aconteceu sem esperarmos
aconteceu sem acontecer
tudo parou ao pararmos
passou tudo sem passarmos
morremos antes de nascer!
Um ser errante -
Naquela Janela de fronte
há uma vida aprisionada
sem vontade nem horizonte
de voltar a ser amada!
Na verdade um Ser errante
alguém por trás de uma prisão
que entre as grades delirante
já não pensa em salvação!
E em que mais pensa aquele ser,
naquela Janela de fronte,
que ao fim do dia posso ver?!...
Não pensa mais do que penso eu
que em liberdade constante
me sinto preso neste breu! ...
Até Quando -
Vou beber da tua boca
ai amor que timidez
e que loucura tão louca
saber que a vida é tão pouca
para te amar outra vez.
Vou beber do teu silêncio
vou bebe-lo à tua voz
e que verdade tão pura
acreditar na loucura
d'um dia a menos tão só.
Meu amor dos olhos negros
que te afastas como a sorte
leva a tristeza que tenho
que trago em mim e sustenho
tal qual o medo da morte.
E levo aos ombros um tormento
que me arrasta pelo chão
não ter outro pensamento
não ser mais que este lamento
que dá meu corpo à solidão.
Ai amor o meu olhar
tão longe do teu porto
passa a vida a procurar
e quantas horas a chorar
só pensando no teu rosto.
Há tantas dores naufragadas
que ninguém pode aconchegar
tantas lágrimas cansadas
tanta gente abandonada
que está no fundo do mar.
À Mesa da Vida -
Hoje comi cansaços à mesa da vida
bebi silêncios de folha caída
esperei um amor que afinal já não vem!
Ontem a minha infância que triste memória
parecia distante, tão longe essa história
mas sinto-me só, dos seus olhos refém!
Trago no coração tanta mágoa perdida
trago a minh'Alma à mesa da vida
não vejo o caminho, não tenho ninguém!
Ai os meus sonhos são tristes e vagos
folhas caídas à margem dos lagos
o vento as levou e a vida também!
Retaguarda -
E há dilemas que habitam o vazio
há vontades no corpo dos passantes
há verdades que sentimos como frio
e mentiras que nos fazem ser errantes!
Há desejos que nos ocultam cada culpa
induções que a poesia tanto aguarda
cada dor que nasce de uma luta
é um verso que está na retaguarda!
E tudo o que há em mim vem da poesia
da fome que o meu corpo me trazia
na vontade d'ir além do que é doer!
E há em nós uma ingente melancolia
talvez um cansaço que pesa o dia-a-dia
na indomável loucura que é viver!