Por Semear -
Aqui estou!
Tombado e inútil
ao relento dos meus dias ...
Perdido e vazio
sobre as águas da vida
às margens de um rio
que o destino me deu!
Estou seco! Sem nada!
Não tenho sequer
o abraço de um silencio
ou o beijo d'uma esperança ...
Eu sou esse Porto por achar,
essa vida por viver,
essa terra por semear!
Amor por caridade -
Se o teu amor, por caridade, me dás,
deixa estar, não o quero em mim a palpitar,
não quero sobras do que fica com quem estás,
antes só, do que ter de ti o que sobrar!
E já não há lágrimas nos meus olhos
excessivamente abertos! Eles bem te seguem!
Dás a tantos, teu amor aos molhos,
e a mim, só os restos que não querem!
Amor por caridade não tolero,
pois há muito quem me queira por aí,
simplesmente, por ti, sou eu que os não quero.
Que te fique na alembrança o que te dei,
tantos versos deste amor que te escrevi
e que ao fogo da revolta entreguei.
Sem resposta -
Porque trago um coração
com vontade de parar?!
Porque trago a solidão
dos meus dedos a pingar?!
Porque trago no destino
tantos fados p'ra cantar?!
Tantas pedras no caminho
como dores p'ra chorar?!
Porque sinto esta agonia
como sendo o próprio frio?!
Esta noite que é meu dia
nas margens do vazio?!
Estou cansado de estar só
d'ir aos tombos pela vida
digo adeus calando a voz
só me resta a despedida!
Deambulatório -
Às vezes a Vida parece ingrata
porque nada acontece
e em tudo se esbarra
na inutilidade de existir ...
E o vento grita de noite,
a cada esquina, a cada canto,
e a noite, calada, vagueia,
negra, vazia, intacta, nua ...
E a mágoa é como um vicio,
doença terminal que nos destrói,
e há sombras, muitas, tantas
que procuram, chorando, por mim ...
E a rua?! Por quem espera aquela rua
do principio até ao fim?!...
Nela ... nada acontece ...
Asa Quebrada -
Sou um pássaro ferido
num voo de asa quebrada
sou um filho esquecido
numa casa abandonada.
Sou andorinha sem ninho
que se perdeu da Primavera
passageiro sem destino
que da Vida nada espera.
Ai de mim que estendo a mão
numa agonia profunda
ao embalar a solidão
num barco que se inunda.
E o que fica não sou eu
nem tampouco o que escrevi
fica a dor que Deus me deu
do que sonhei e não vivi.
Olá, Adeus -
Foi tão bom encontrar-te
e tão triste esse momento,
foste embora mal chegaste
olá, adeus ao mesmo tempo!
Ao chegares, mal te vi,
já dizias, vou partir,
nem sei bem o que senti
não te podia impedir!
E o meu coração parou
e tudo parou também
alguém partiu e não voltou
daquelas bandas de além!
E de nós dois o que ficou?
Só a dor desse tormento!
O meu coração parou
parou tudo ao mesmo tempo!
Rosas e Luar -
Nestes dias esquecidos e calados
em que os olhos parecem não falar
neste tempo de silêncios magoados
trago fome de Rosas e Luar.
Nestas horas vestidas de saudade
em que se ouve tanta gente a soluçar
trago cinzas cobertas d'ansiedade
e tanta fome de Rosas e Luar.
Nas espáduas do destino está a esperança,
em mim, só há fome de Rosas e Luar,
há falta de alegria e confiança ...
Já nem as pedras me suportam ao passar!
Para mim não há vida nem bonança,
só há fome de amor, de Rosas e Luar ...
Chorar alguém -
Quem morre ou vai embora
eis que nunca levará
a saudade de quem chora
e se arrasta em vão por cá.
A saudade é triste e sã
porque a morte é longa e fria
mas que loucura tão vã
chorar alguém dia-a-dia.
E já que a morte é nossa
e o silencio que ela traz
que a vida dê mais força
a quem fica só por cá.
Gente que nasce do frio -
Há gente que nasce do frio
como a bruma ensanguentada,
triste, só, dilacerada
sobre as águas do Rio.
Gente que nasce do nada
como as ondas do mar
como o vento ao tocar
numa casa abandonada.
Gente que nasce a chorar
como as aves dos Céus
como os olhos de Deus
cansados de esperar.
Gente que nasce perdida
como alguém que ao morrer
não consegue esconder
quanto dói a despedida.
Quando se vive e não sentiu
que a dor nos dá força,
o destino baloiça
e mata gente de frio.
Deixem Passar -
Deixem sofrer quem d'amargura vai vestido,
quem de sonhos vai despido, deixem passar,
deixem falar quem na vida está vencido,
sem mãe nem pai, como um barco a naufragar!
Deixem cantar quem ao Fado deu a voz,
quem tem olhos cor de medo, sem nada,
no silêncio d'um destino, acompanhado e só,
vivendo a vida numa casa abandonada!
Deixem passar quem à mágoa deu o nome,
quem plantou no coração a rosa brava,
que cresce na demência que o consome!
Deixem ouvir o grito das entranhas
que ressoa de uma alma em vão cansada
e deixem-no passar por entre as madrugadas!
Em minha casa -
Procuro em minha casa
encontrar alguém que me oiça
pois minh'Alma não fala
mas pensa tanto, tanta coisa ...
E o que fala ninguém ouve
o que sente também não
entre uns pratos de couve
só há copos de mão em mão.
Tantos segredos sobre a mesa
nas cadeiras lado a lado
e o que dizer da sobremesa
só há medo em cada prato.
Não se fala! Não se entende!
Foi azar ou foi engano ...
É tão diferente da gente
que nem parece um Ser Humano.
Este Livro -
Este Livro que vos deixo
é de mágoas e saudade
o que há em mim de sem vontade
que tantas vezes está por baixo!
Já não é nenhum segredo
vejam bem que triste sorte
nem me lembro que há a Morte
nem da vida tenho medo!
E às vezes ponho e minto
nestes versos que me dão
o que vivo mas não sinto ...
Pois os versos nunca são
mais que a hora que os pressinto
um travo amargo a solidão ...
Revelação -
Um pintor pôs numa tela
um lamento por adorno
fez do mar uma aguarela
na pressa de ter retorno.
Um poeta pôs nos versos
a saudade endiabrada
mas o mar secou-lhe os beijos
no frio da madrugada.
Um fadista pôs no canto
a mentira de um amor
mas na voz ficou-lhe o pranto
que fica depois da dor.
Como as ondas que se enrolam
do mar alto até à margem
minhas dores já não pesam
são no mar uma miragem.
Triste Confissão -
Estou cansado da loucura
de um sentir que grita em vão
no meu peito que amargura
já não bate o coração.
Já não pulsa o meu destino
só há dor, contradição,
chorem pedras do caminho
que sou filho da solidão.
Há tanta gente na rua
procurando o que virá
também eu vou de Alma nua
caminhando ao Deus dará.
E se um dia tu souberes
que eu parti p'la barra fora
chora tudo o que puderes
vou sentir-te a toda a hora.
Eu Nasci -
Eu nasci do silencio das nortadas
que se adensa pelos campos solitários,
das tormentas, aguaceiros, trovoadas,
das tristes badaladas dos velhos campanários.
Eu nasci daqueles que nunca morrem
mas convivem com a morte dia a dia,
do silencio daqueles que não dormem,
das mães que os filhos choram, da poesia.
Eu nasci do Sol-Poente que desponta
a cada dia, orgulhoso, sobre o mar
e se deita, sempre, sobre as águas a chorar.
E tanta madrugada que a Minh'Alma conta
em que na demência dos sentidos me perdi,
apodrecido, jaz no ventre de quem nasci.
Grito na voz -
A noite chega de longe
e traz um grito na voz ...
Um lamento de onde?
Vem do Rio até à Foz!
E eu que vivo tão só
procuro um amor profundo
e oiço esse grito na voz
por entre as paredes do Mundo!
É um lamento constante
que me parece estar só
na noite, fria, distante ...
E quanto dói o coração,
quanto dói a nossa voz
quando se veste a solidão ...
Silêncio que me abraça -
Vislumbrei o teu olhar
por entre dor e escuridão
mas o caminho p'ro tocar
só podia ser o coração.
Por ali a solidão
parecia não ter dono
perdi de vista o coração
fiquei só, ao abandono.
E minha vida hoje segue
como segue tanta vida
ora triste, ora alegre
ora aqui, ora perdida.
Também segue o desespero
que se aninha a quem amar
e as horas que te espero
custam muito a passar.
Até a vida já não passa
nem a morte é certeza
e o silencio que me abraça
é mais triste que a tristeza.
Ainda Espero -
Ainda espero por ti
numa cama de cetim
em lençóis de solidão,
a minha esperança vazia
a minha história tão fria
sem Alma nem coração.
Tantas rosas proibidas
tantas lágrimas perdidas
há na dor do meu olhar,
numa cama sem ternura
estão meus olhos de amargura
em teus olhos a bailar.
Estes versos são um grito
uma saudade que agito
como as ondas, mar revolto,
do que fui e já não sou
do que dei e já não dou
são um grito, um grito solto.
Amor sem nome; amor sem rosto -
Um amor sem nome
um amor sem rosto
chegou e levou-me
o coração do corpo.
Um amor sem fé
um amor tão só
se é verdade ou não é
vou prende-lo a nó.
E estar só o que é?!
Condição ao nascer
que vestida de fé
termina ao morrer ...
E o amor passou-me
tão perto do corpo,
um amor sem nome
um amor sem rosto.
Assim -
Tenho sede de amor
tenho fome de ti
em meu corpo de dor
os teus olhos vesti.
E vesti amargura
plantei-a em mim
esperar-te é loucura
nesta fome sem fim.
E vesti o vazio
como a noite que chega
vou morrendo de frio
esteja eu onde esteja.
No meu corpo de dor
na verdade senti
tanta sede de amor
tanta fome de ti.
Precisava -
Queria tanto que alguém gostasse de mim ...
Esta ansiedade no meu corpo já não quero!
Precisava ser amado até ao fim,
pois ser poeta, nesta vida, não tolero!
Precisava de um olhar no meu olhar
alguém que me visse como alguém
queria tanto dar silencio ao meu penar
e arrancar do meu sentir tanto desdém!
Dizem que sou fraude, sou mentira,
que mereço ir à forca ...
Pobre de quem tanta pedra me atira!
Mas eu sou como a água, vem e vai,
não fura a pedra pela força,
mas pela persistência com que cai!
Campa Vazia -
Numa campa triste e fria
há um corpo sepultado
que já não tem poesia
pela Morte naufragado.
É o corpo de um Poeta
já sem luz no seu olhar
e uma rosa que não seca
está na campa a soluçar.
Tão só, abandonado,
cheio de dor e solidão
naquela cova parado
está um pobre coração.
Até os versos que escreveu
não passaram d'um momento
mil instantes que perdeu
mal morreu o pensamento.
E até o epitáfio
já se foi da lousa branca
e o seu corpo tão frio
sem memória nem lembrança.
Pois viveu no lado errado,
passo a passo, dia a dia ...
Estará o Poeta sepultado
nesta campa triste e fria?!
Diz a voz daquela gente
que tal cova está vazia
porque uma estrela cadente
o levou da campa fria.
A Luiz de Camões.
Num dia de ninguém -
Da vida que me deram
sobrou pouco para mim
só os sonhos que não quiseram
e o que resta além do fim.
Tantas vidas, tantas calhas
sem amor nem coração
que só me deram as migalhas
caídas pelo chão ...
E eu sozinho nesta escola
mendigando caridade
fui vivendo só de esmola
com destino à saudade...
Mas num dia de ninguém
numa triste madrugada,
prometi: Serei alguém
com tão pouco ou mais que nada!
Espirito Cansado -
No meu Espirito cansado
há muito d'amargura e solidão
e até aquelas horas do passado
alvoroçam o meu pobre coração!
E há gritos, palavras e punhais
que se escutam em mim de lés-a-lés
sonhos que não voltam nunca mais
espinhos no caminho que ferem os meus pés.
É mentira o que me diz a tua voz,
a rua já não fala, a noite já não vê,
e eu, aqui, sou resto, tão só, tão só.
O caminho é longo e doloroso
cheio de buracos e abismos,
e eu, perdido, triste e ansioso ...