Meu sábado clareou na lida.
A devintona surfava:
uma curva de nível, outra,
outra, outra,
escapulindo de tocos e cupins.
Com o sol na cacunda
descia atrambolhada a pastaria
da vargem do Piancó.
Fui lá conferir o gado.
E pariram mais quatro.
A Chorosa, a Neguinha, a Baleia e a Patroa.
Por quatro também multipliquei
o meu sorriso.
Curei umbigos, bicheirinhas.
Apartei, vermifuguei...
Agora estou deitado no ladrilho da varanda.
Respirando os vapores perfumados
vindos da cozinha.
Fundo, o meu estômago tagarela
entoa protestos em esperanto.
Respondo-lhe em pensamento:
Espere que “A fome é o melhor tempero”.
Mal amainada a chuva
fui revisitar
duas amoreiras.
1deleite, 2, 3, 4...
Essa, a derradeira: mentira!
Essa, a derradeira: mentira!
Gotas defluíam do céu,
dos galhos.
Rubras, doces, sanguíneas:
AmorAs.
Puxando e sorvendo.
Puxando e sorvendo.
Lábios dulcificados, abatonados.
Língua preta.
Uma no chão,
duas na mão.
Duas na mão,
duas na mão...
E os meus dedos
de tabelião tardio.
Depois de um magnífico capellini
acompanhado de um chileno honesto
instalou-se a lombra.
Deitado na rede da varanda escorro em devaneios.
Meus pensamentos lentos desembarcarão logo, logo
na planície do sono profundo.
É preciso.
Álacre e lestamente virá o show do Ratto.
Enfim a cidade sairá da mesmice sertaneja.
Preservarei meus olhos marrons
para o brilho dourado e alegre do whiskey.
E que venha a noite com suas sombras protetoras,
seu acalanto cheio de segredos vorazes,
sua volúpia de mil dedos.
Escolhas e rolhas.
O peso do que queremos.
O peso do que podemos.
A coragem de abandonar o desimportante,
de abraçar o mais ponderoso.
A comodidade do sonho
ou a incerteza da ação?
Você é o que escolhe ser
e, mais, o que não consegue escolher.
A pressa da realidade, o direito à preguiça.
A não escolha é escolha.
A inércia é ato.
Colocar rédeas na vida ou ser por ela levado?
Nem nunca pensamos nisso.
Nem sempre nos damos conta dos
fios invisíveis manipulando nosso destino,
atados à cruz que não cabe na nossa mão.
Apenas o oráculo vermelho
vaticinará futuros prováveis
somando o nosso desejo
ao intransponível muro da realidade.
Somos o que sonhamos ser e o
cotidiano se encarrega de transmutar
quereres em biografia.
Então é hoje?!
Num piscar de olhos
Esvaíram-se tantos anos.
De planos, de vontades, de sonhos!
Alguns tantos invernos floridos...
Felicidades escorridas no tempo
que nem paramos para nos dar conta.
Caminhos e vírgulas.
E segue essa nossa nau rumo
ao indefinido desejado..
Assim eu te deixo
meu abraço de grumete, padrinho:
apertado,
mensageiro de alegrias e de prazeres.
Desejo mesmo que, como na minha lembrança,
Aquele sorriso mouro da sabedoria inocente
continue no seu rosto
para todo o sempre.
Feliz Aniversário!!!
Os culpados que pagassem
pelas suas culpas,
os inocentes que continuassem a dormir
seu sono dos justos.
Isso sim deveria ser comum
nos nossos dias ditos democráticos,
não o contrário.
Eis que o Nosferatu dormirá uma vez mais
em hermético ataúde.
Sua caixa de pandora não se abriu
para a felicidade do povo.
Seu saco de iniquidades fechou-se
em um nó cego.
Agora é seguir com os olhos no futuro.
Não, não falta quase nada para coroar
a nossa alegria.
Esperaremos pela chuva para derramarmos
nossas lágrimas de contentamento.
Entrementes, estamparemos pela cidade
nossos melhores sorrisos comemorando
o desterro da quimera,
a inumação temporária do caos.
Que "buena onda" amigo!
A felicidade só namora quem tem olhos para ela.
E assim é: seu otimismo contagiante
faz a alegria transbordar à sua volta.
Todos nós poderíamos,
assim como você,
viver um pouquinho disso.
É botar um tico de ternura no olhar,
algum sorriso nos lábios,
que corpo e alma se fecharão
pra qualquer tristeza.
A máquina está montada para perpetuar
essa estrutura podre
onde políticos só representam a si mesmos
e a quem os financia.
Seria ingênuo pensar que votar nulo
faria parte do jogo.
Quem o faz, e eu me incluo nesses,
é para manifestar a profunda insatisfação
com toda essa farsa.
E até é alentador imaginar
se a população fizesse isso em peso
como é que se justificaria a existência
desse circo.
Fico curioso, imaginando se o voto
fosse facultativo no nosso país.
Dó.
Chorava aos berros o bezerrinho preto.
De fome e da ausência da mãe.
Roubaram a Julieta, a vaquinha de meu afilhado,
lá na Cachoeira de cima.
Ela, mesmo parida, estava enxutona, boa de carnes.
É mesmo um despautério. O ladrão de gado amansou.
Já é a quinta cabeça que ele nos rouba em três meses.
E o safado é conhecido na vizinhança.
Está enriquecendo a custa do alheio.
Polícia? ... Na Comarca nem temos mais investigadores
e os militares não dão conta da cidade.
Fica a saudade do tempo da jagunçada.
O cabra ficava mês inteiro de tocaia
a espera do gatuno.
Dois ou três balotes: e o danado ia roubar
lá nas pastagens do inferno.
Aí a ladroagem parava.
Eleição é sempre uma pocilga. Chafurdam,
chafurdam, jogam lama uns nos outros...
E nós,
cegos palhaços,
achamos que é circo.
Ficamos assistindo ao espetáculo inertes,
sem nada fazer,
fingindo que não nos diz respeito.
Espectadores torcendo para a vitória
do porco corrupto mais cheio de dentes,
ou com a pança mais anafada.
Quando haverá alguma de democracia direta
nesse país?!
Nossos olhos brilham.
E não é esperança.
É apenas tristeza.
Tristeza de saber de
tudo e não agir.
Que Zeus, o amontoador de nuvens,
feche logo as cortinas do tempo,
liberte algumas hordas de coriscos rugidores
e faça derramar todas as lágrimas dos céus.
Pra matar a sede da terra,
pra tingir de verde a pastaria gris,
pra gatafunhar sorrisos nos meus lábios,
pra clarear os olhos entristecidos
das minhas mimosas.
Violáceas as piscadelas da lua.
Cheia, clara, insinuante.
Todos os lobos uivam enquanto
as sutilezas do seu olhar
perfuram o meu fígado.
Viscosidades que lambem o desejo.
Sorrateiros entumescem bicos
e vidraças inexpugnáveis.
Tão perto,
tão longe.
Geladas inutilidades.
Te abraçar salvaria algumas
das minhas almas.
Seus beijos me mandariam para
o inferno.
Resta nada,
quase nada.
Um último tubo de ar
na profundidade do oceano
ocre.
Um derradeiro olhar
de soslaio
nas sombras
agigantadas pela lua.
Um último querer
escondido entre meu copo
e o impossível.
Não devemos usar casos isolados
como justificativa agigantada
para arrimar nossas próprias ideias.
Um torcedor do fluminense num espaço
majoritariamente flamenguista
seria igualmente hostilizado.
O que não quer dizer que todos
os rubro-negros são fascistas,
não é?!
Precisamos tirar a venda da paixão
para nossos olhos enxergarem
os espaços entre as letras.
O sono pesa minhas pálpebras de chumbo.
Morfeu me puxa os pés enquanto meus dedos
automáticos escorrem pelo teclado.
É hipnótico.
Um mais-que-um-vício.
Meu cérebro corroído por taturanas vermelhas.
Imagens, palavras: ir-e-vir-e-ir-e...
Dormir é desconectar.
Desconectar é viver.
E viver não é preciso.
Naveguemos, pois, Pessoa.
Amanhã retumbarão culpas.
Outra jornada A la recherche
du temps perdu.
Mas vá!
Melhor que os bispos da Universal,
melhor que o ópio da zona baixa.
Ou não?
Acabarei mesmo por me entregar.
O peso é demasiado.
Dos dias-e-noites,
do chiaroscuro intermitente
na janela.
Um vento negro apagará meu senso.
Levará o sonho para dentro de
minhas narinas corroídas,
das minhas orelhas moucas.
Dormirei, enfim, para
novamente girar a roda do destino.
Do meu destino apoucado
de alegrias pela areia
amarga dos anos.
Que já vai um pouco além
da metade da ampulheta
da vida.
P,
A experiência me fez ateu.
Antes só havia o medo.
Ante a de qualquer deus
eu prefiro a sua bênção.
Nela, ao menos, posso encontrar
alguma serenidade.
A perfeição é uma bobagem.
Uma pedra de Sísifo.
Um horizonte inalcançável.
Para mim o que importa realmente
é um coração generoso.
Eu acredito na energia da vontade
de quem acredita com o coração.
Mas quem tem medo apenas procura
uma tábua para não se afogar.
Num mar de incertezas.
Num lamaçal de agonias.
Num deserto de palavras.
Estou saindo de casa.
Vou trafegar no ror sonoro
dos bares habituais.
Encontrarei ainda uma vez
alguma alma perdida que me falta.
E te digo com a sensatez
daquele que acordou:
a vida é feita disso.
De olhares,
remorsos,
mágoas.
De sorrisos engarrafados,
de alegrias gozosas..
E, num átimo,
voltamos à torpeza do adormecer
quando abrimos os olhos.
Santa cesta.
Abóboras orvalhadas
no titubear da meia-noite.
A lua nos seus olhos
sesta santa.
Aluam os meus olhos
sexta sexy.
Lábios selados
com os beijos das horas.
Entre a noite obumbrada
e o dealbar apenas
murmúrios entristecidos
das galinhas-d'angola.
Um sapo será sempre
um sapo.
Princesas, imaginário,
ideário,
desejos, beijos
não mudam isso.
Um dia a gente acorda
e vê tudo desbotado.
Era apenas sonho.