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Frases de Raniere Gonçalves

506 frases

Meu sábado clareou na lida. A devintona surfava: uma curva de nível, outra,
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Meu sábado clareou na lida. A devintona surfava: uma curva de nível, outra, outra, outra, escapulindo de tocos e cupins. Com o sol na cacunda descia atrambolhada a pastaria da vargem do Piancó. Fui lá conferir o gado. E pariram mais quatro. A Chorosa, a Neguinha, a Baleia e a Patroa. Por quatro também multipliquei o meu sorriso. Curei umbigos, bicheirinhas. Apartei, vermifuguei... Agora estou deitado no ladrilho da varanda. Respirando os vapores perfumados vindos da cozinha. Fundo, o meu estômago tagarela entoa protestos em esperanto. Respondo-lhe em pensamento: Espere que “A fome é o melhor tempero”.

Mal amainada a chuva fui revisitar duas amoreiras.
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Mal amainada a chuva fui revisitar duas amoreiras. 1deleite, 2, 3, 4... Essa, a derradeira: mentira! Essa, a derradeira: mentira! Gotas defluíam do céu, dos galhos. Rubras, doces, sanguíneas: AmorAs. Puxando e sorvendo. Puxando e sorvendo. Lábios dulcificados, abatonados. Língua preta. Uma no chão, duas na mão. Duas na mão, duas na mão... E os meus dedos de tabelião tardio.

Depois de um magnífico capellini acompanhado de um chileno honesto instalou-se a lombra.
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Depois de um magnífico capellini acompanhado de um chileno honesto instalou-se a lombra. Deitado na rede da varanda escorro em devaneios. Meus pensamentos lentos desembarcarão logo, logo na planície do sono profundo. É preciso. Álacre e lestamente virá o show do Ratto. Enfim a cidade sairá da mesmice sertaneja. Preservarei meus olhos marrons para o brilho dourado e alegre do whiskey. E que venha a noite com suas sombras protetoras, seu acalanto cheio de segredos vorazes, sua volúpia de mil dedos.

Escolhas e rolhas. O peso do que queremos. O peso do que podemos.
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Escolhas e rolhas. O peso do que queremos. O peso do que podemos. A coragem de abandonar o desimportante, de abraçar o mais ponderoso. A comodidade do sonho ou a incerteza da ação? Você é o que escolhe ser e, mais, o que não consegue escolher. A pressa da realidade, o direito à preguiça. A não escolha é escolha. A inércia é ato. Colocar rédeas na vida ou ser por ela levado? Nem nunca pensamos nisso. Nem sempre nos damos conta dos fios invisíveis manipulando nosso destino, atados à cruz que não cabe na nossa mão. Apenas o oráculo vermelho vaticinará futuros prováveis somando o nosso desejo ao intransponível muro da realidade. Somos o que sonhamos ser e o cotidiano se encarrega de transmutar quereres em biografia.

Então é hoje?! Num piscar de olhos Esvaíram-se tantos anos.
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Então é hoje?! Num piscar de olhos Esvaíram-se tantos anos. De planos, de vontades, de sonhos! Alguns tantos invernos floridos... Felicidades escorridas no tempo que nem paramos para nos dar conta. Caminhos e vírgulas. E segue essa nossa nau rumo ao indefinido desejado.. Assim eu te deixo meu abraço de grumete, padrinho: apertado, mensageiro de alegrias e de prazeres. Desejo mesmo que, como na minha lembrança, Aquele sorriso mouro da sabedoria inocente continue no seu rosto para todo o sempre. Feliz Aniversário!!!

Eis que o Nosferatu dormirá uma vez mais em hermético ataúde. Sua caixa de pandora não se abriu
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Eis que o Nosferatu dormirá uma vez mais em hermético ataúde. Sua caixa de pandora não se abriu para a felicidade do povo. Seu saco de iniquidades fechou-se em um nó cego. Agora é seguir com os olhos no futuro. Não, não falta quase nada para coroar a nossa alegria. Esperaremos pela chuva para derramarmos nossas lágrimas de contentamento. Entrementes, estamparemos pela cidade nossos melhores sorrisos comemorando o desterro da quimera, a inumação temporária do caos.

Que "buena onda" amigo! A felicidade só namora quem tem olhos para ela. E assim é: seu otimismo contagiante
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Que "buena onda" amigo! A felicidade só namora quem tem olhos para ela. E assim é: seu otimismo contagiante faz a alegria transbordar à sua volta. Todos nós poderíamos, assim como você, viver um pouquinho disso. É botar um tico de ternura no olhar, algum sorriso nos lábios, que corpo e alma se fecharão pra qualquer tristeza.

A máquina está montada para perpetuar essa estrutura podre onde políticos só representam a si mesmos
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A máquina está montada para perpetuar essa estrutura podre onde políticos só representam a si mesmos e a quem os financia. Seria ingênuo pensar que votar nulo faria parte do jogo. Quem o faz, e eu me incluo nesses, é para manifestar a profunda insatisfação com toda essa farsa. E até é alentador imaginar se a população fizesse isso em peso como é que se justificaria a existência desse circo. Fico curioso, imaginando se o voto fosse facultativo no nosso país.

Dó. Chorava aos berros o bezerrinho preto. De fome e da ausência da mãe.
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Dó. Chorava aos berros o bezerrinho preto. De fome e da ausência da mãe. Roubaram a Julieta, a vaquinha de meu afilhado, lá na Cachoeira de cima. Ela, mesmo parida, estava enxutona, boa de carnes. É mesmo um despautério. O ladrão de gado amansou. Já é a quinta cabeça que ele nos rouba em três meses. E o safado é conhecido na vizinhança. Está enriquecendo a custa do alheio. Polícia? ... Na Comarca nem temos mais investigadores e os militares não dão conta da cidade. Fica a saudade do tempo da jagunçada. O cabra ficava mês inteiro de tocaia a espera do gatuno. Dois ou três balotes: e o danado ia roubar lá nas pastagens do inferno. Aí a ladroagem parava.

Eleição é sempre uma pocilga. Chafurdam, chafurdam, jogam lama uns nos outros... E nós,
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Eleição é sempre uma pocilga. Chafurdam, chafurdam, jogam lama uns nos outros... E nós, cegos palhaços, achamos que é circo. Ficamos assistindo ao espetáculo inertes, sem nada fazer, fingindo que não nos diz respeito. Espectadores torcendo para a vitória do porco corrupto mais cheio de dentes, ou com a pança mais anafada. Quando haverá alguma de democracia direta nesse país?! Nossos olhos brilham. E não é esperança. É apenas tristeza. Tristeza de saber de tudo e não agir.

Que Zeus, o amontoador de nuvens, feche logo as cortinas do tempo, liberte algumas hordas de coriscos rugidores
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Que Zeus, o amontoador de nuvens, feche logo as cortinas do tempo, liberte algumas hordas de coriscos rugidores e faça derramar todas as lágrimas dos céus. Pra matar a sede da terra, pra tingir de verde a pastaria gris, pra gatafunhar sorrisos nos meus lábios, pra clarear os olhos entristecidos das minhas mimosas.

Violáceas as piscadelas da lua. Cheia, clara, insinuante. Todos os lobos uivam enquanto
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Violáceas as piscadelas da lua. Cheia, clara, insinuante. Todos os lobos uivam enquanto as sutilezas do seu olhar perfuram o meu fígado. Viscosidades que lambem o desejo. Sorrateiros entumescem bicos e vidraças inexpugnáveis. Tão perto, tão longe. Geladas inutilidades. Te abraçar salvaria algumas das minhas almas. Seus beijos me mandariam para o inferno. Resta nada, quase nada. Um último tubo de ar na profundidade do oceano ocre. Um derradeiro olhar de soslaio nas sombras agigantadas pela lua. Um último querer escondido entre meu copo e o impossível.

Não devemos usar casos isolados como justificativa agigantada para arrimar nossas próprias ideias.
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Não devemos usar casos isolados como justificativa agigantada para arrimar nossas próprias ideias. Um torcedor do fluminense num espaço majoritariamente flamenguista seria igualmente hostilizado. O que não quer dizer que todos os rubro-negros são fascistas, não é?! Precisamos tirar a venda da paixão para nossos olhos enxergarem os espaços entre as letras.

O sono pesa minhas pálpebras de chumbo. Morfeu me puxa os pés enquanto meus dedos automáticos escorrem pelo teclado.
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O sono pesa minhas pálpebras de chumbo. Morfeu me puxa os pés enquanto meus dedos automáticos escorrem pelo teclado. É hipnótico. Um mais-que-um-vício. Meu cérebro corroído por taturanas vermelhas. Imagens, palavras: ir-e-vir-e-ir-e... Dormir é desconectar. Desconectar é viver. E viver não é preciso. Naveguemos, pois, Pessoa. Amanhã retumbarão culpas. Outra jornada A la recherche du temps perdu. Mas vá! Melhor que os bispos da Universal, melhor que o ópio da zona baixa. Ou não? Acabarei mesmo por me entregar. O peso é demasiado. Dos dias-e-noites, do chiaroscuro intermitente na janela. Um vento negro apagará meu senso. Levará o sonho para dentro de minhas narinas corroídas, das minhas orelhas moucas. Dormirei, enfim, para novamente girar a roda do destino. Do meu destino apoucado de alegrias pela areia amarga dos anos. Que já vai um pouco além da metade da ampulheta da vida.

P, A experiência me fez ateu. Antes só havia o medo.
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P, A experiência me fez ateu. Antes só havia o medo. Ante a de qualquer deus eu prefiro a sua bênção. Nela, ao menos, posso encontrar alguma serenidade. A perfeição é uma bobagem. Uma pedra de Sísifo. Um horizonte inalcançável. Para mim o que importa realmente é um coração generoso. Eu acredito na energia da vontade de quem acredita com o coração. Mas quem tem medo apenas procura uma tábua para não se afogar. Num mar de incertezas. Num lamaçal de agonias. Num deserto de palavras.

Estou saindo de casa. Vou trafegar no ror sonoro dos bares habituais.
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Estou saindo de casa. Vou trafegar no ror sonoro dos bares habituais. Encontrarei ainda uma vez alguma alma perdida que me falta. E te digo com a sensatez daquele que acordou: a vida é feita disso. De olhares, remorsos, mágoas. De sorrisos engarrafados, de alegrias gozosas.. E, num átimo, voltamos à torpeza do adormecer quando abrimos os olhos.