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Lembre-se
que numa garrafa
de um bom vinho
naufragam todas as tristezas...
E,
depois,
quando você estiver nos braços de Morfeu,
o moldador de sonhos,
o peso da noite de chumbo
finalmente pousará
nos seus cílios dourados.
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Foi mesmo um risco n'água.
Apartei mais quatro para desmama.
E acertei a devolução do Pacato.
Foi a conta de voltar e refestelar-me na rede
que começou a cair uma garoa fininha.
Daquelas que molham nossa alma de felicidade,
daquelas que tingem a pastaria de verde.
Agora é esperar pelo cafezinho passado no coador
para acompanhar a broa de milho.
Amanhã ainda será assim.
Coisas rurais, recorrências.
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Atarantadas as minhas meninas.
Carrapatos miúdos
e mosquinhas do chifre
lhes sugando sangue dia-e-noite.
Fui lá socorrê-las: apliquei do injetável
e, também, um mosquicida 'pour-on'.
É bom vê-las sem abanações
de cabeças e rabos.
Sem inquietudes: pacíficas, dengosas,
lá na vargem da Vertentinha.
Me demorei um tanto.
Mas é da lida,
é a vida...
Voltei pra casa respirando
o hálito perfumado
da boca da noite.
O vento me alçava pelas ruas da cidade.
Lentas as rodas do carrinho giravam
e viravam ao bel prazer do meu olhar.
Aqui-e-ali algumas ilhas de música, bebida,
carnes, gentes...
Carteados nas calçadas...
Dentro um jazz baixinho roendo meus tímpanos.
Fora: os meus olhos perscrutando novidades.
O natal é dia morto.
Cada um com os seus.
Botecos fechados, círculos fechados.
Fui-e-voltei-num-risco.
Um pequeno giro pra digerir a leitoa.
O que me resta agora
é preencher a boca-da-noite
voltando ao ritual
de abrir freezers e cervejas
e sorrisos.
Amanhã será outra coisa.
A Fortuna havia me escapado.
Passou dois ou três dias
pastando lá na vargem do meu vizinho.
Foi um custo trazê-la de volta.
Tive de fechar todo o gado no curral
para depois ir no encalço da danada.
Eu chamando e ela negaceando,
desconfiada, astuciosa.
O jeito foi esperar o tempo dela.
Ao se ver sozinha foi beirando cercas
até emparelhar com o gado fechado.
Abri a cancela e ela entrou.
Agora estou mais tranquilo.
Passarei meu dia mais confortado.
Embora um pouco mais magra
a Fortuna está de volta aos meus domínios.
Poderei por fim tomar minha Pirassununga
sossegado.
Foi um presente dos Santos Reis
protetores das minhas mimosas.
E da barra do Piancó.
Ubiquidade.
É triste essa sensação psicótica
que estamos sempre sendo vigiados
e que ao menor erro
poderemos ser punidos.
Esse é o lado mais cruel
e alienante das religiões.
Timidamente
alguns perdigotos de Zeus
caíram barulhentos
no zinco.
Olhei o revolto dos céus
e firmei que vinha deveras
um temporal.
Estampidos sonoros se seguiram
diante dos meus olhos.
Escutei o tropel
de minhas vaquinhas
se recolhendo no barracão.
Elas estavam sorrindo.
Eu também!!!
M? Não sei. Você é que mudou um tanto, amigo.
Se distanciou mais e mais do seu passado.
Ela continua lá
junto daquele cara que conheceu
mas que agora já não é mais o mesmo.
E assim é: estradas e encruzilhadas
e novamente estradas.
Pessoas se encontram, partilham coisas,
caminham juntas algum tempo
e, depois,
cada qual segue seu rumo
na ampulheta descendente dos minutos,
dos dias, dos anos...
Destino: sinuoso sendeiro onde deambulamos todos
na direção dos braços da inelutável morte.