Caraíbas de agosto.
400 sóis iluminando alegremente a paisagem gris.
Mesmo meus olhos brilhantes refletem
o sorriso da manhã.
Outro dia navegando estradas
rumo ao mesmo destino:
A vargem do Piancó,
a Vertente da Moeda.
Estou cativo.
Vivem a minha vida,
não a vivo eu.
Deambulo num mundo de títeres.
Linhas quase visíveis manipulam
o meu devir.
Sinto prazeres que não são meus,
tenho vontades artificiais
inoculadas nos meus sentidos.
Meu pouco por cento de lucidez juvenil
se esvai com o vento inexorável dos anos.
Neves de outono prateiam meus cabelos
enquanto o bridão do destino
já não incomoda tanto minhas gengivas.
Fui um deus
com minha ousadia,
com meus sonhos,
com a minha liberdade.
Sou agora
apenas um pobre diabo.
A rapinha da garrafa.
Dois dedos translúcidos
mergulhados em energéticas bolhas
douradas.
E já, já seguirei
o habitual caminho do prazer.
Os balcões dos bares costumeiros
aguardam pelo cuidadoso atracar
do meu cotovelo esquerdo.
Lá vou eu, já vou eu
colorir meus olhos marrons
com o brilho ensurdecedor da multidão
vazia.
Procurarei princesas pálidas,
ou cervejas gélidas,
ou a saciedade gordurosa
de um x bacon.
São 4h09min.
Child in time flauteia os meus ouvidos.
27 no dial.
Nem abóboras maduras,
nem princípios de incandescência.
Apenas outra madrugada tíbia.
Outra noite no vazio dos seus olhos.
Bagos flutuantes se alternam no veludo vagaroso dos dedos.
Nada sinto.
Senão um fado roçando as minhas vontades.
Meu olhar pesa tanto, tanto é o sono
que encobre o meu querer.
E só antevejo sonhos.
Apenas paz.
Não sei respirar desejos,
não sei te deixar.
Adiante sua face mudará de cor.
Seu hálito será o meu alento.
Nessas águas de outono.
Nessas noites de trégua.
Nesses dias de escuridão.
Nonego.
Última geladíssima na borracharia.
Coxinhas queima-dedos deliciosas.
A lua cheia clareia a madrugada
enquanto a cidade dorme.
Não quero cama:
quero você.
Lá na pastaria onde lido
vez ou outra olho
para esse céu piscina,
cheio de algodão-doce.
Decerto que você também abaixa os seus olhos.
E daí dessa nau remansosa enxerga uma
colcha de retalhos
verdes claros,
verdes escuros.
Inevitável algum imaginário
adejo.
Bem perto do sonho é
tudo tão açúcar.
A terra é lollipop.
Lá se foi.
'Findomingo'.
'Laenvem' segunda
com seu cheiro de realidade,
com seus ventos de horrores.
'Laenvem!'
Nostalgias 'dinfância':
O dever da escola feito à noite,
fim da noite.
'Findomingo'.
Pois quase uma oitava.
Entre os tons graves e os agudos,
as melhores alturas.
E vão subindo nossas notas
na direção do silêncio.
Ou dalguma pausa.
Palmas.
E gerânios
e margaridas multicoloridas
pelo seu aniversário.
Se a sorte lhe sorrir: saúde,
alegrias...
Senão o meu beijo
e o meigo abraço
do acaso.
Tristeza esse tempo.
Tudo seco,
tudo cinza.
As vaquinhas ficam atarantadas
debaixo desse sol de agosto.
Desgosto de tardes amarelas.
Saudades da esperança
que nunca madura.
Só não gostamos daquilo
que ainda não aprendemos a gostar.
Os chineses gostam de tudo:
a necessidade lhes molda o paladar.
Embora tenha lá minhas preferências
muito amargo na vida
eu aprendi tolerar.
Da ginga eu ginguei,
nas ladeiras doutro tempo,
miles de sonhos atinei,
mas vida correu depressa,
apenas com a poesia fiquei.
Saudades da Bahia, da Ritinha,
da capoeira que joguei,
daqueles olhos amanteigados,
daquela boca que beijei.
Alvissareiras as vísceras
da galinha gorda
que zunzinza na pressão
da panela.
Prenúncio de almoço
temperado pela demora.
Saborosos:
oveiras
e fígados
e tripas
passados na pimenta verde,
respingados pelo limão galego.
Cheiro fumegante
das alegrias da mesa.
Música maravilhosa
o tilintar das travessas.
Domingo.