Pular para o conteúdo

Frases de M Clara M.

28 frases

⁠Sou sobrinha-neta da Ilusão, tenho marcada em meu sangue a marca amarga da ferradura agalopada do solene marchar da carruagem de meus sonhos, ébrios de tentação. Sou a cria amarga do roubo esperançoso de minhas racionalidades fatais, que enganam, deturpam e profanam a doçura ant…
Continuar lendo

⁠Sou sobrinha-neta da Ilusão, tenho marcada em meu sangue a marca amarga da ferradura agalopada do solene marchar da carruagem de meus sonhos, ébrios de tentação. Sou a cria amarga do roubo esperançoso de minhas racionalidades fatais, que enganam, deturpam e profanam a doçura antes presente em meus sonhos. Sou o devaneio solto pelas ruas, a loucura a planar sobre os campos férteis da solidão, sou o resultado infame da mistura sórdida de meus antepassados de terra e vão. Sou tantas e de tantos, sou tato e pranto, sou cólera e acalanto, não sou nada, nada, mas ainda assim, canto. Canto as lamúrias através de pena e cetim, debruço-me sobre meu viver torpe e vomito palavras pobres em versos e prosas em carmim. Não domino a poesia, mas a poesia domina-me a mim, quebro meus pudores em mil pedaços de taco, ligo meus temores um a um em mil laços, reconstruo minhas convicções em mais mil espaços e ao final, sobrando-me apenas a dor e o cansaço, enfim me desfaço.

⁠Este chão não me é chão É da solidão, um labirinto De uma louca em aflito
Continuar lendo

⁠Este chão não me é chão É da solidão, um labirinto De uma louca em aflito Que se aflige em perdição Clamo então, por redenção Por um viver distinto Em outro plano, outro recinto Que me permita a aliteração Como me falta a esperança! Como me abusa a ânsia! Nesta maldita terra de intemperança Na mazela-circunstância Deito e durmo na lembrança De ser feliz, mas à distância

⁠Há um caos em minha mente fatigada, um caos regado pelo ignóbil sangue de minhas letíficas batalhas, um sangue que me arde a consciência e me entorpece as falhas, consequência direta da sepultura armada das memórias de uma guerra desalmada. Sou a combatente exaurida de meu própr…
Continuar lendo

⁠Há um caos em minha mente fatigada, um caos regado pelo ignóbil sangue de minhas letíficas batalhas, um sangue que me arde a consciência e me entorpece as falhas, consequência direta da sepultura armada das memórias de uma guerra desalmada. Sou a combatente exaurida de meu próprio exército e a guerreira valente de meu exército inimigo, me sacrifico como sacrifica-se a pólvora dos canhões marcados de miséria pelo levantar torpe da bandeira alva machada pelo líquido rubro das vísceras de minha esperança, sou a espada que corta em dois a sanidade já rompida por dores passadas; contra-ataco a mim mesma, me atiro em minha guerra e faço de meu peito um campo minado. Nesta terra forasteira não há ser que ouse declamar possuir o título de ser mais funesto que eu, pois sou eu a morte encarnada em corpo de fracassos, sou o perder e o penar de meu próprio sepultar, sou aquela que chora e clama religiosamente antes do sol raiar, pelo corte lesivo da morte levar. Não me quero mais e não me querem mais a mim, sou a abusiva combustão dos raios de verão que esqueceu-se de se auto dilacerar, sou o fim explosivo da pacífica convivência, sou a guerreira apocalíptica que insiste em marchar contra si, para enfim, ousar descansar.

Em vias vazias, quando a noite vira dia, memórias tão livres derramam-se sobre meu corpo como quem não se quer envolver. Lembranças que são taciturnas partem-me à força em minhas meras infortunas noturnas, dilacerando em pedaços o último espaço que me restava na sala de espera do…
Continuar lendo

Em vias vazias, quando a noite vira dia, memórias tão livres derramam-se sobre meu corpo como quem não se quer envolver. Lembranças que são taciturnas partem-me à força em minhas meras infortunas noturnas, dilacerando em pedaços o último espaço que me restava na sala de espera dos sonhos. Embalam-me em uma dança alucinante, e o ritmo dançante do pecado da vida se retira de nós e me mata à fria covardia, apunhalando dúvidas diurnas em minhas certezas noturnais. Vejo o tempo à espera do raiar solar, e me vejo de mãos abertas a clamar, pelo último que seja, o mais puro ou o mais sujo, apenas mais um gole de luar. Bebo-me e me engulo, viro lua, viro a noite, as confusões que antes pairavam sobre minhas asas de cera, hoje fazem-me voar. Sinto minha vida passar ao longe, e como a verdade que se esconde, hoje sou aquela que não se vê levitar sobre os campos floridos da honesta existência de minha dor, que apesar de tudo, ainda há de se sanar. ⁠

⁠Vou-me embora de Pasárgada Aqui sou o alvo do rei Aqui não sou a mulher que quero
Continuar lendo

⁠Vou-me embora de Pasárgada Aqui sou o alvo do rei Aqui não sou a mulher que quero E sei que nunca serei Vou-me embora de Pasárgada Vou-me embora de Pasárgada Aqui eu não sou feliz Aqui a vida é dura E com a tristeza de tal modo conivente Que Joana, a (confrangida) de Espanha Rainha e de astúcia inexistente Continua a nos reverberar tristemente Sua imagem injustiçada de frágil e inclemente E como viverei sem amarras Andarei de mãos dadas Estarei do outro lado Do lado de fora do...aquário! Meu choro não mais será mar E quando o amor me encontrar Poderei enfim sem qualquer temor amar Mandarei chamar Robespierre, Danton, Marat Pois mesmo longe daqui, ainda terei um pequeno assunto a tratar E mandem pintar Delacroix O sofrer de quem um dia me fez clamar Vou-me embora de Pasárgada Em Pasárgada não tem nada Aqui não existe qualquer civilização Viver não me é seguro E tenho comigo a convicção De que a tantos outros também não Já não mais temos vontades Pois morrem na cidade as prostitutas Que o capital mandou matar A tristeza sempre dura Não tem mais jeito Se por aqui ficar Em duas ou três noites acabarei por me matar -Aqui sou o alvo do rei- Aqui não sou a mulher que quero E sei que nunca serei Vou-me embora de Pasárgada Vou-me embora, pois desta tardia alvorada Vejo que tudo o que me prometera Bandeira Era uma utopia disfarçada Vou-me embora, sonho intenso, vou-me embora, raio vivido

⁠Não te demores a ir se a ti meu peso por completo recai-se. Não me mintas palavras vagas se em teu peito meu veneno guardas. Não te deixes enganar, o mais abrupto dos gelos há de degelar. A mais ferrenha rocha há um dia de se sedimentar. Meu perjuro coração há um dia de se racha…
Continuar lendo

⁠Não te demores a ir se a ti meu peso por completo recai-se. Não me mintas palavras vagas se em teu peito meu veneno guardas. Não te deixes enganar, o mais abrupto dos gelos há de degelar. A mais ferrenha rocha há um dia de se sedimentar. Meu perjuro coração há um dia de se rachar (embora já esteja aos pedaços). Não há ritmo capaz de seguir meu compasso, vaqueiro a prender-me no laço, droga a sanar meus espasmos. Não vingo neste chão, Terra não há de me ser um lugar, meu planeta não é este, é dor a me tomar. Não te disse, quem diria? Amor, meu caro amor, nada fácil é me amar. Juro-te aos prontos, das tarefas, é a mais árdua a se dominar. Cravos e rosas entalam meu esôfago, para cada flor a vomitar, há um espinho tomando frente a me perfurar. E ao final, nada há de mudar, sairemos feridos como cravos, e como rosas a nos despedaçar.

⁠Quando o tempo não tinha mais tempo, quando a esperança já estava sepultada, quando minha mente estava há muito deteriorada, quando eu não mais precisava, vocês roubaram palavras da parte de suas línguas que se salvava, a parte em que nunca antes haviam tocado, roubaram palavras…
Continuar lendo

⁠Quando o tempo não tinha mais tempo, quando a esperança já estava sepultada, quando minha mente estava há muito deteriorada, quando eu não mais precisava, vocês roubaram palavras da parte de suas línguas que se salvava, a parte em que nunca antes haviam tocado, roubaram palavras e as despejaram frente aos meus olhos, esperando que me ajoelhasse em sinal de gratidão. Mas vocês nunca estiveram lá por mim, nunca quiseram me ouvir dizer que pra mim bastava. Era quando meu corpo entrava em colapso e meus olhos se afogavam, quando meus pulmões se tornavam pequenos demais, quando meu coração ultrapassava a velocidade de um guepardo, era nestas catástrofes internas que eu ainda podia ver a luz. Mas a vocês só interessava o riso advindo do choro, a piada pontual a não ser perdida; comentários em série encontraram ali sua chance de glória, e bastou, em desespero, expor minha carne ao mundo que o coro ao redor se colocou a gargalhar e reduzir à própria miséria a garota da pele rachada. Lembranças se esparramaram em minhas veias e minha mente foi transportada aos sofridos dias de um ano passado e com toda a proteção armada, com todo o peito fechado eu digo, digo que doeu. Nada se fez, nada se faz. A saúde de um aluno só interessa aos bolsos cheios ao final do mês. De nada adiantou tentar se importar com toda aquela história de hospital, a ligação só chegou quando eu já saia de lá. É apenas o mundo cão a mostrar que até para sofrer é imprescindível chorar. Suas palavras quando ditas não valiam nada; naquele momento eu já não mais precisava escutá-las, pois elas somente eram necessárias quando suas salivas eram desperdiçadas dizendo que era Gillete quem me patrocinava.

⁠Não é o sussurro ao pé do ouvido na calada madrugada Não é ser naufrago em mar aberto Não é a besta que te arranca os dentes
Continuar lendo

⁠Não é o sussurro ao pé do ouvido na calada madrugada Não é ser naufrago em mar aberto Não é a besta que te arranca os dentes Não é a tua doença congênita, ingênua É o choro desacompanhado do sono É o afogar no próprio calar É ser de si, o próprio algoz É adoecer sozinho e nada poder falar O tempo passa na garganta como navalha E vocês, juntos passam também Quanto mais sozinha fico, mais o peito envelhece Quanto mais sozinha fico, mais o corpo me aceita ceifar Não posso reclamar abrigo, porque o abrigo pra mim é inimigo Não posso me apoiar em nenhum amar, porque não há amor a se cobrar Não posso respirar, o medo me roubou o ar Não posso gritar, pois qualquer som o pode acordar Não sei o que fazer, não tenho onde ficar Talvez o que me reste agora mesmo seja o pesar Pela felicidade que nunca vou ter Pela paz que nunca irei encontrar

⁠Ovo, larva, pupa e estágio adulto: a alternância entre as fases de uma metamorfose segue um padrão linear de duração, variando insignificantemente em dias, que se tornam meses e assim uma diferente existência emerge do casulo que abrigou temporariamente um ex-alguém. Me valendo…
Continuar lendo

⁠Ovo, larva, pupa e estágio adulto: a alternância entre as fases de uma metamorfose segue um padrão linear de duração, variando insignificantemente em dias, que se tornam meses e assim uma diferente existência emerge do casulo que abrigou temporariamente um ex-alguém. Me valendo mais uma vez em puro caradurismo da mecânica do mundo, roubo para mim a semiótica e afirmo com provas e convicção que o que nos resta do passado é a pavorosa lembrança de quem fomos há um milésimo de segundo (caso prefira, converta esse tempo à duração que lhe convém). A essa altura do campeonato, se me sobrou um resquício de decência, só me resta admitir o ódio inerente àquela garotinha estragada que acreditava ter o mundo em mãos, mas nem sequer era capaz de administrar os próprios devaneios. Bom, não que isso tenha mudado drasticamente de lá para cá, mas convenhamos que as medicações aparentam surtir um melhor efeito. Apelando (como de costume) a pieguice, dou sinal verde às minhas lágrimas, e que desçam em um tom cinematográfico por essa cara maldita que não passou um dia desse ano hediondo sem levar uma boa bofetada da vida! É, há um ano eu caminhava ao entorno de um parque enquanto levava rajadas de ventos que me desnorteavam em meio a um frio meia-boca de quatro graus, agora me sento no telhado com uma bebida usurpada do armário de meus pais escutando à pavorosa sinfonia de rojões que não tem nenhuma utilidade além de acelerar meus batimentos cardíacos e impulsionar o negativismo que me lembra o calor insuportável que terei de aguentar amanhã. Neste momento deveria estar pensando em como abordarei os acontecimentos traumáticos de dois mil e dezenove nos próximos dez anos de sessões semanais de psicanálise, mas estou escrevendo como uma artista falida mantida pelos pais (sim, é isto o que sou). Afinal de contas, nem os pobres textos escaparam de todas as tragédias, há tempos não vomito a podridão que me faz de hospedeira em um texto melancólico e grotesco, já que por motivos desconhecidos tudo o que escrevo adquiriu um caráter erótico e esporadicamente crítico, minha esperança é de que sejam os tais hormônios os culpados, aliás. Enfim, nessas horas vale a pena citar meu bom e velho amigo Belchior e dizer que ano passado eu morri, mas neste ano eu não morro (espero, não suporto hospitais).

⁠Carta Aberta a Vincent van Gogh Eu não sei como se escreve uma carta de amor, todas as que já escrevi foram direto para o lixo, seja quando jogadas pelo remetente, seja quando recusadas pelo destinatário, mas essa carta eu sei como se escreve, porque esta não é uma carta de amo…
Continuar lendo

⁠Carta Aberta a Vincent van Gogh Eu não sei como se escreve uma carta de amor, todas as que já escrevi foram direto para o lixo, seja quando jogadas pelo remetente, seja quando recusadas pelo destinatário, mas essa carta eu sei como se escreve, porque esta não é uma carta de amor, é uma carta de angústias, e estas cartas eu conheço bem. Eu não vou te pedir que me envie materiais para minhas pinturas, nem vou dizer que em Arles a vida tem mais cor, eu vou me redimir, vou me redimir por ter o peito quase tão dolorido quanto o seu, mas não poder fazer nada para impedir aquela bala, que dói também em mim, porque o tempo é cruel e eu não posso atrasar o relógio em um século ou mais. Mas também vou te agradecer, te agradecer por fazer através de sua arte, o que ninguém ao meu lado poderia fazer por mim. Você não é como eles, e nem poderia ser, porque no mundo são poucos aqueles cujo o coração sabe fazer mais do que apenas bater. Sempre sua.

⁠Ignomínia sorrateira, tua alma carniceira não padece ao clamor. Teu pranto incessante é de todos, o de menos valor. Teu olhar displicente há de entusiasmar àqueles que fizeste sofrer. Teu rombo em cada peito, há de te fazer temer os reles que te volto a dizer, fizeste sofrer.…
Continuar lendo

⁠Ignomínia sorrateira, tua alma carniceira não padece ao clamor. Teu pranto incessante é de todos, o de menos valor. Teu olhar displicente há de entusiasmar àqueles que fizeste sofrer. Teu rombo em cada peito, há de te fazer temer os reles que te volto a dizer, fizeste sofrer. Mas não sabias, não podias contigo mesma. Ignomínia sorrateira, tua mente tão ligeira a te entristecer. Volte logo aos braços do inferno, a estrada é longa, e o caminho, como tu, é perverso. A chama que te arde os olhos, clareia os sentidos de teus ditos servos, agora postos como o ouro, a iluminar teu martírio, libertos. Pague agora pelos crimes que, por tamanha ignorância, jamais imaginara poder cometer.

⁠Do que me adianta a boêmia dos domingos de verão, se o álcool perdeu seu efeito quando eu me perdi de mim? Do que me adianta a química a abrasar minhas entranhas, se a vida por conta própria tornou-se uma distópica alucinação em carmim? Do que me adianta a fumaça, o trago, a c…
Continuar lendo

⁠Do que me adianta a boêmia dos domingos de verão, se o álcool perdeu seu efeito quando eu me perdi de mim? Do que me adianta a química a abrasar minhas entranhas, se a vida por conta própria tornou-se uma distópica alucinação em carmim? Do que me adianta a fumaça, o trago, a catástrofe, se meus pulmões insistem em resistir a este fim? Do que me adianta a retalhação da derme, se eu sei que a vida vai cicatrizar e mais uma vez me matar ao fim? Do que me adianta a fuga, se até o valhacouto atirou suas culposas paredes, em pura fúria, contra mim? Agora à procura de redenção, eu prometo e ponho assim minha honra em jogo. Prometo não mais ser feliz, se isso custa o ar de quem antes dissera ficar, mas nunca me contara sobre sua incapacidade de respirar. Prometo não mais amar, se isso custa o conforto de quem antes jurara não se incomodar. Eu, tolo pássaro, sei que nunca poderia voar, mas ainda assim quatro vezes quebrei minhas asas ao tentar, e há uma única coisa que não posso prometer, algo que não me atrevo a jurar, não posso dizer que por uma quinta vez, não voltarei a quebrar.