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Frases de João Batista do Lago

87 frases

QUADRAGÉSIMO OITAVO HEXÁSTICO Olhar-se profano no caos saber-se da vida princípio
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QUADRAGÉSIMO OITAVO HEXÁSTICO Olhar-se profano no caos saber-se da vida princípio sugere ao poeta o universal: ser agora transvalorado senhor do totem sagrado livre do veneno moral

⁠CANTO REFLEXIVO De João Batista do Lago Desperto sob raiares de um forte sol
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⁠CANTO REFLEXIVO De João Batista do Lago Desperto sob raiares de um forte sol Ciente da realidade de um novo crisol Porém tudo continua sendo mero sonho Nesta estrada que a caminhar me ponho Perscrutando o tempo, espaço, terra e mar Curioso para saber em qual lugar vou parar Lembro ainda dos primeiros passos Trôpegos mas esperançosos ante toda vida Ali tudo era esperança desmedida Em cada passo meu olhar de aço Açoitava os percalços imprevidentes Sem temer quaisquer almas indolentes Mas a vida essa quimera indomada Logo tratou de pregar novas surpresas Navios alados formaram uma armada Esconderam o sol e pariram torpezas Prenderam estrelas no breu da noite densa E mataram por instantes esperança imensa Contudo o sol da liberdade se impôs Novo dia raiou e com o povo se compôs Tecendo um manto de linhas entrelaçadas Tirando das gargantas as espinhas de aço Que açoitavam as vozes das liberdades Agora livres em toda praça e em todo paço Em toda rua um carnaval de bonança havia E no front daquele menino novo mundo surgia Viram-se o operário e a mulher com galhardia Nascerem no horizonte de dias esplendorosos E juntos com todos os nativos ardorosos Entoarem o hino da igualdade e da harmonia Mas a triste e miserável ganância Travestida de honra e democracia Desfila nos palácios todos os horrores Mentindo que por todos nutre amores A todos matando num único cenário Ofertando a sacristia do mesmo covário Ainda terei tempo de assistir Aos raiares do sol de novo porvir? Lembro ainda dos primeiros passos Ali tudo era esperança desmedida Açoitava os percalços imprevidentes Sem temer quaisquer almas indolentes

⁠O LADRÃO E O FILÓSOFO De João Batista do Lago Se perceberes teu quintal invadido
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⁠O LADRÃO E O FILÓSOFO De João Batista do Lago Se perceberes teu quintal invadido e nele um ladrão afoito a furtar, não o abatas ao chão com um tiro, convide-o para contigo jantar. Oferece o teu melhor vinho (e) faze-o comer da melhor iguaria deixa-o perceber todo o teu carinho e fá-lo um amante da sabedoria. Aconchega-o e fala-lhe da democracia, (e) diz-lhe das vidas que a ditadura furtou mas, sempre moribunda, nada logrou. E depois de deixá-lo saciado, enfim, convida-o para dançar sob a chuva, (e) com a noite saudar o novo dia assim.

⁠CANTO LIBERDADE Letra: João Batista do Lago Do quilombo dos Palmares
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⁠CANTO LIBERDADE Letra: João Batista do Lago Do quilombo dos Palmares a voz de Zumbi ecoou lutando por liberdade a todos nós encantou Não é fácil, não, calar nossa voz, somos uma só nação temos um só coração peito pulsando emoção um só grito de libertação. Saibam todos vocês, senhores donos do mundo, temos orgulho de nossa grês. Somos madeira nobre (e) reluzimos como ébano nascidos do barro e do cobre. Somos filhos da paz (e) de liberdade contumaz, nossa tez é nosso ouro. Nenhuma insensatez há de calar nossa voz somos liberdade, não o algoz. Do quilombo dos Palmares a voz de Zumbi ecoou lutando por liberdade a todos nós encantou

⁠NA QUARTA PELE De João Batista do Lago A serpente que me habita desejosa está,
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⁠NA QUARTA PELE De João Batista do Lago A serpente que me habita desejosa está, A pele que nela há precisa reabilitar-se ― troca! É preciso comê-la. Degustá-la até o fim ― profundamente! Minha nova pele fugazmente anseia… No pasto do mundo comi com toda manada. E bebi do vinho sacrossanto ― satânico e santo! E de entre todas as peles vomitara deuses e diabos! ― Poderia embriagar-me com a minha pele? ― Como!?

⁠PROMETEU ESQUECIDO De João Batista do Lago Ei, Tu aí que estás preso nesse madeiro
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⁠PROMETEU ESQUECIDO De João Batista do Lago Ei, Tu aí que estás preso nesse madeiro E com esse olhar de Réu arrependido E tentando decifrar o mundo inteiro E com rosto transpirando sangue comedido E com essa boca de imolado carneiro E suplicante do deus que Te fez Prometeu esquecido E com braços abertos para o abraço de nadas E com mãos chagadas por ferros encravados E com peito trespassado pela lança da manada E com pernas e pés ao suplício condenado E com espírito de justiça da vida emanada E com caminhos de espinhos cravejados… Desce da Crucis E vem O inferno é aqui! E ele precisa de Ti. Há fome no front Miséria em toda parte ― o inferno precisa de Ti! ― Não parte. Vem e guia-nos Ante a suprema dor; Fortalece Todo furor crucificado E que todo sangue derramado Seja pleno fulgor D’um povo calejado ― agora resgatado com a esperança do porvir ― Tempo novo Há de vir!

⁠ESPÍRITOS LIVRES Onde vos encontrais Ó espíritos caminhantes e
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⁠ESPÍRITOS LIVRES Onde vos encontrais Ó espíritos caminhantes e livres? Por quê vos deixais aprisionar pelos dogmas dos monastérios acadêmicos ― tão velhos e tão toscos! ― que oram terços dos passados enclausurados nas cavernas? Vossos caminhares são os espaços livres dos tempos… e dos templos. Ainda não aprenderam que o bom caminhante não sabe para onde vai; e que o caminhante perfeito não está preocupado com a sua origem? Caminhai como os loucos! Ó espíritos caminhantes e livres despertai de vossos sonhos e dos vossos pesadelos ― ilusões e fantasias! ― e tomai vossa sagrada loucura e a ofertai como palavra divina aos acorrentados da sagrada família. Vosso caminho é livre: ele não tem início; ele não tem fim.

⁠ESPELHO FRAGMENTADO De João Batista do Lago Poeta!? Poeta!? Poeta!?
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⁠ESPELHO FRAGMENTADO De João Batista do Lago Poeta!? Poeta!? Poeta!? Tu estás aí, poeta? Urgentemente preciso de ti, poeta. Tu estás por aí? Tu estás por aqui? Preciso que me escutes… Preciso que me retorne, para mim, poeta. “Quem são vocês!? Quem são vocês!? Não, eu não tenho esses rostos; esses rostos que estou vendo não são meus! Essas caras tão distorcidas estão… E essas vozes, de quem são? ― Minhas, não! Não são vozes minhas.” Quem sou eu!? Que lugar é este!? “Não, eu não lembro de ti… Até onde sei eu daqui nunca parti; sempre estive aqui; não encontro razões para voltar. Voltar!? Eu não consigo lembrar… Tudo está muito fragmentado… Meus pensamentos estão todos quebrados...” […] Éramos apenas um antes dos espelhos partidos, antes do espelho fragmentado. […] Poeta, tu és um artista… Tu és um criador. Tu és um demiurgo, poeta. ― Demiurgo, eu! Onde estão meus conteúdos, As minhas formas, onde estão? Estou preso nesta masmorra, nesta cela onde soçobram memórias de sombra e confusão. Teus conteúdos, poeta, tuas formas, poeta, todas dentro de ti: a Poesia. Teus espelhos podem estar fragmentados, mas tua arte ainda pulsa: tu podes criar o belo mesmo dentro da caverna, mesmo na escuridão. “Quem sabe!… Quem sabe!… É preciso juntar todos os fragmentos, juntar cada caco do espelho, criar um novo Adão… ― Mas, e se eu me perder?” ― Não há de ti perderes; te encontras sentado sobre a pedra em qualquer lugar do universo; te encontras no verso, te encontras no poema, te encontras na Poesia. “Encontre-se na desordem, esquece tua secular Verdade: a verdade está além da linearidade. Tu, Poeta, és o mestre do Caos.”

⁠AO MEU OUTRO AMIGO De João Batista do Lago Dize-me, tu, meu outro irmão,
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⁠AO MEU OUTRO AMIGO De João Batista do Lago Dize-me, tu, meu outro irmão, que não tenho isenção para defender a mata onde vivo com meu povo. Tu, meu outro irmão, que não conhece a mata para além do tapete verde da tua sala. Tu, meu outro irmão, que não entende da defesa da vida, só quer transformar a mata em vintém. Tu, meu outro irmão, que deseja tão só minha destruição, por que deseja o fim da minha nação? Tu, meu outro irmão, que do anzol não sabe a serventia, queres a morte do rio, meu alimento. Tu, meu outro irmão, que desconhece toda minha etnia, que não sabe do Tupi-guarani e do Macro-jê. Tu, meu outro irmão, conhece os Tenetehara, os Awá-guajá e os Urubu-Kaapor? Povos de língua Tupi todos são. Tu, meu outro irmão, sabe do Apaniekrá e Ramkokamekrá; dos Pukobyê, Krikati, Timbira e Krenyê? Todos são povos originários: Jê. Tu, meu outro irmão, ouviste falar dos Akroá-Gamela e Tremembés? Ainda hoje lutam por reconhecimento étnico e a demarcação de suas terras! Então, tu, meu grande irmão, toma a minha mão e vem. Vem defender a mata, vem defender a flora, vem defender a fauna. A existência, meu outro irmão, depende de nós, depende da nossa união. É o nosso legado para toda nova geração.

⁠RENASCER De João Batista do Lago Ao abrir a janela
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⁠RENASCER De João Batista do Lago Ao abrir a janela o velho jardineiro desfaleceu: o jardim fora assaltado as flores e as rosas eram murchas, sem vida e esquálidas. Os olhos do velho jardineiro, cansados, choraram a dor do mundo: nenhuma flor, sequer uma rosa para beijar; nem mesmo um só buquê para dar. O cheiro da rosa, e da flor, ficaram apenas na memória. […] Antes que o dia finde, o velho jardineiro tornará à luta; e mesmo com olhos marejados e com mãos calejadas renascerá flores e rosas: toda vida sorrirá.

⁠O BÊBADO E A EQUILIBRISTA De João Batista do Lago (Para meu irmão Júlio César, in memoriam)
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⁠O BÊBADO E A EQUILIBRISTA De João Batista do Lago (Para meu irmão Júlio César, in memoriam) E lá se vai ele! Equilibrando-se sobre a corda-vida segue o bêbado trançando dores, cerzindo rancores póstumos, cosendo seu livro de dissabores… Vê-se de cá, de bem longe, um zumbi errante e todos seus vagabundos amores fazendo-lhe procissão e coro às suas preces de socorro: ― “a corda-vida não te sustentará o equilíbrio de que necessitas. Há um abismo entre teus polos: abaixo de ti apenas a cova tua, deitará esquecida a ossatura da carne antes corroída pelo colírio de pó de antimônio.” Hoje não mais cerzes nem dores… nem dissabores… E nem mesmo sabe-se do teu equilíbrio, e nem mesmo sabe-se da corda-vida. “És apenas lembrança ― lembrança pela vida bebida. Hoje és, apenas, arcanjo.”