Os sinos balançam
e reçoam suas badaladas
pelo horizonte.
Como a voz
que há muito tempo
proclama a "boa nova",
dissipa- se seu som
ao sabor do vento.
O dia nasceu
há pouco,
mas seu azul
amanheceu
vazio
e já se faz
cinzento.
O mar cessou
suas ondas,
e no silêncio
da aurora
faz sua prece
para acalmar
o tormento.
Ainda assim
a chuva pende
e desaba o céu
numa poça d'água.
Memórias.
Mesmo na tempestade,
as igrejas
arrebanham uma multidão
de fiéis.
Professam o credo.
Mas comungam
a hipócrisia.
Por isso,
por eles peço perdão,
pois
viver sob o sígno
da cruz
não é pregar
por aí
algumas minguas
palavras.
Pois,
Viver sob o sígno
da cruz
é deixar respalandecer
a luz
que ilumina
as pegadas
deixadas na escuridão.
De quando no mundo havia paz
O marujo
velejava sem rumo
pelo azul do mar.
Tempo bom
para viver a vida,
pensava...
Tempo bom
para esquecer as perdas,
resmungava...
Tempo bom para contemplar a beleza
que inspira o silêncio da praia,
por fim,
suspirava...
Amanheceu a tempestade
que atormenta.
Tudo acontece,
para aqueles que não
merecem.
A vida mente.
Os dias passam de repente.
O tempo vai embora.
E a gente nem sente.
Tem dia que é meio assim,
sem dia,
sem rima,
sem a poesia
que há em mim.
E a vida parece mais vazia,
sem as vozes e as melodias,
que no dia a dia
surge e flui
e não sei se vai partir...
Nação azul e branco,
ouço tanto seu bradar
pelos campos
sua posição de honra,
que já lhe é concedida no céu,
e me encanto,
pois o preto e branco
não ofusca
seu brilho celeste.
Nas margens
plácidas do Ipiranga
O Brasil curva- se ante sua constelação.
Tens tanto significado
que é quase um pecado
falar seu santo nome em vão.
Cruzeiro,
prece de muitos,
não só isso;
Cruzeiro,
já uma religião.
Vida no campo.
Acalma os prantos
pois o mato verde
é um conforto para os pés.
Seu céu azul,
imaculado pela urbe,
me traz tanta paz...
O cheiro de terra
e de gado
não trazem
o mesmo fardo
e o suor
das filas das fábricas.
Mas andam te destruindo.
A natureza civilizada
nada pode,
ante a força e o
barbarismo do homem.
Para que destruir
o último recanto
do paraíso terrestre?
Para que desmatar
o verde desse nosso
agreste?
Nesse chão cinzento
me engano de humanidade,
mas lá
eu sou,
de verdade,
gente.
15 de novembro
República proclamada.
Nascida sob
o signo da espada,
o café se misturou ao leite
e o povo,
mero espectador
de quem seria eleito
deixou passar em branco
o seu futuro.
O curral, prendendo
o gado,
só o libertava
em ano de eleição
e, ainda assim,
o cabresto
só lhe mostrava
uma única opção.
O passado
escrito
nos livros
de história
revelou
a pista do que seria
o cenário
do presente,
mas banalizamos
a política
e numa realidade
meio descontente
deixamos frutificar
a semente
que em outrora
fez nascer
a árvore
da corrupção.
Faça frio ou faça sol
Paixão,
como uma dose de loucura,
destemida e sem razão,
corrompe a sanidade.
A vaidade,
sua serva mais fiel,
assevera
e aconselha
o que fazer
quando aperta
o coração
um pouco,
que seja,
de saudade.
Nada conforta.
O desejo
alucinante,
que beira
a ternura,
se veste
de ilusão.
Ou,
o berço da luxúria
faz frio ou faz pinturas
num quadro
de verão.
Os versos
não faltam.
nem falham
ante a intensidade
dessa dor.
Mas peço
que não confunda
que no fundo
de toda essa tortura,
pode nascer
de um instante
a súplica
do amor.
Nossos dias de Modernidade
Da treva fez- se a luz,
realidade que seduz
para a sua adoração.
Do silêncio muito pouco,
o Deus agora é outro,
que num simples toque
esbanja informação.
Se antes o homem
era lobo do próprio homem,
hoje é devorado
por sua própria criação.
O criador subestimou sua obra,
pensando que só seria sobra,
filha da sua razão.
Da Revolução fez- se a democracia
ou mesmo a técnica, a máquina,
que no dia a dia
reduz tudo à padronização.
Que autonomia existe,
diante de tamanha racionalidade,
que na verdade
é só instrumento da burocratização?
Não se engane,
pois se da divindade
foi- se ao penso, logo existo,
se do inferno nasceu
aparente paraíso,
a liberdade não está na lei,
visto que essa tão esperada liberdade
é só luz no fim de um túnel
que ilumina a tempestade
que os homens criaram para se submeter.
As vezes o tempo pára,
só para ver nossa vida amarga
passar e deixar o rastro,
do que outrora fez viver,
mas que agora faz sofrer, e sofrer,
e crescer a cada tropeço, a cada tombo...
As reticências
escondem segredos
que o medo
não nos deixa escrever.
É preferível ocultar os sonhos,
a presenciar perdas
que inspirariam o nosso não viver.
No passar do dia- a- dia,
a rotina do tédio
as vezes nos surpreende
com o nascer calmo
da amizade.
Ela que vem de um bom dia,
de um sorriso,
de um porquê.
Que faz de cada segundo
celebração de instantes
em que a presença constante
de um amigo
faz valer a pena a dureza de viver.
E transporta os sonhos
à realidade,
momentos de saudade
de não ter por perto
alguém para dar um abraço,
e simplesmente dizer
que passar os dias ao seu lado
é presente de Deus
a um mundo ingrato
que não tem assim como eu,
você.
As bocas clamam por justiça.
Ainda assim, a mordaça insiste em lhes fazer calar,
renegando um direito que é só mesmo a liberdade,
a beleza das vozes de um povo que quer falar.
Por muito tempo viveu latente
essa força do homem, coisa revolucionária.
Mas, da queda da Bastilha nasceu a batalha
de lavar a honra
com o vil sangue de alguns canalhas.
Acordou com a aurora a liberdade,
os grilhões se rebentaram
para nunca mais prender,
mãos humildes, de inocentes,
que na democracia que acreditavam
só querem mesmo fazer justiça
de seu direito valer.
Canta liberdade,
sopro de justiça,
canta povo,
pensante caniço,
canta democracia,
com seu olhar em riso...
Se tudo viesse fácil demais
não teria o mesmo sabor de vitória.
As lutas, os conflitos,
fazem da minha, da tua história,
um livro sem contos,
onde só mesmo as vozes
são os algozes
que unem os nossos rostos...
Os gestos são o início de tudo.
Primeiro vem as mãos.
Depois de irmãos,
vem o afago.
Depois do afago o sorriso,
depois do sorriso,
o abraço.
Depois do abraço,
tudo se desmancha em beijo
ou se desmorona o paraíso.
A aurora traz o sol dos meus tormentos,
ilumina a dor,
reflete o amor,
da loucura constante
desse sentimento.
Transforma em admiração,
revolve a tristeza,
aquilo que a razão
libertou da jaula mais escura,
de dentro da mente,
de dentro dos sonhos,
da possibilidade mais remota
e distante do arrependimento...