Em nome do capital
A plenitude só é alcançada com esforço.
Engana- se aquele que crê ser a vida
uma tarde à mercê da sombra e água fresca.
Ainda que grande parte das dificuldades
sejam criadas por nós mesmos.
Por isso, por mais que eu não mereça,
sou agraciado e agradeço pela vida e, a mim,
isso já basta.
Não valorizo a superfície, nem relevo
grandes fortunas.
E de toda essa gente que acredita
na supremacia de metais, ou celulose,
forjados para converter,
eu tenho pena.
O altar pós- moderno se adorna
com a alma escrava e cativa
da humanidade,
que sentenciou no consumo
seu carrasco
e só agurda agora o decorrer
dos fatos para o momento
de sua execução.
Longe dos meus temores
demonizar a obsolescência,
rainha e soberana
da liquidez de alguns valores.
Só rogo para que em qualquer vala
não seja encontrada em prematura
idade a sordidez da falta de dignidade
da nossa raça humana.
Dois dedos de prosa
As vezes o tempo conta história
que as páginas do destino
não esquecem jamais
E a vida é um pouco de memória,
Pois nem a lembrança
Impõe derrota à areia
que a ampulheta esvai.
E a voar no infinito
A mente não tem limites,
Ou horizontes para pensar.
Pois nem o mar
Impossibilita o homem
de se soerguer e
mesmo sem chão, se elevar.
Hoje eu quero
me embriagar de noite
e esquecer
que o açoite
dos meus tormentos
é fruto da minha ilusão.
Mas não se pode
culpar de amor
bêbado um coração.
A incorrespondência
de alguns sentimentos,
que orbitam corpos diferentes,
machuca, fere e aprisiona
num mendigar sem valor.
Mas o que contravenha
aos meus costumes,
nem ligo.
Suspiro em silêncio
os meus algozes,
e terei sorte
se me faltar pudor.
Que não seja coveiro os meus pecados,
nem o tempo sem cor e sem medida,
se a vida não quer mais os meus dizeres
eu lhe furto o amor e os prazeres
e enterro com a pá de algum passado.
Que não seja escusável, todavia,
sua culpa tão grande que desprezo,
nem rezo que Deus, que tanto prezo,
perdoe sua audácia e perfídia .
Pois mesmo que acabe o meu pranto,
não ligo pro amor e pro encanto,
pois fez- se de amargo o veneno
nos lábios, tão rubros e pequenos,
que ainda despertam meu silêncio.
Dizer, isso tudo sempre eu quis,
já disse, contudo, não ouvis,
pois o canto que agora tanto quer
enegrece na noite que vier
as palavras jogadas a qualquer custo...
Seu amor anda meio inadimplente
e eu vou exigir com juros
por seus beijos,
pois uma boca que
alimenta meu desejo
não pode ficar sem receber
sua carta de cobrança...
Noite fria
O frio tomou conta da noite
e o açoite de inverno
se instalou
e se fez presente
nas horas de melancolia
de uma outra estação.
O sol de verão
agora é chuva.
A lua e seu encanto,
só um punhado de escuridão.
O sombrio,
apesar de corrosivo,
acolheu e se espalhou
mas não amou
a solidão.
A tristeza apareceu,
o dia morreu,
o verso acabou...
O porquê de agora
não mais explica
os erros do que passou,
mas a toda hora
faz martelar
por que
mesmo sem
começar
um tempo de outrora
já se acabou.
Porque a vida é assim mesmo.
Cheia dos três porquês.
Esse bem e esse mal que sou eu
É melhor abir a janela do tempo
e tentar respirar um pouco de ar puro
antes que a poluição dos meus assuntos
consuma de vez os meus tormentos...
Mas para que fingir
todo esse conservadorismo?
Mas para que preferir um pseudo moralismo?
Saiba que o normalismo
não me convêm,
e nem contém
a medida certa de loucura
que me faz viver assim
como sou,
para mim tão bem...
Palavras sem nada a dizer...
Versos sem a plurissignificação
habitual...
Poesia não é o mesmo ritual
que se repete e repete
e inerte
não muda a sorte de ninguém...
Até piora!
Cláusula Pétrea
Fiz um contrato com a noite,
mas como não sou muito confiável
e até alienei
objeto a outrem alienado,
lhe furtei o brilho
e transformei em dia.
Esvaziei o céu
e sua tormenta
e agora sou credor
dos meus pecados...
O fardo do meu erro
é só mais uma das
minhas façanhas
para alguns,
para outros,
mais uma farsa.
Determinada prestação
aferível em palavras.
Adimplemento e arrependimentos
sem ter ocorrido a tradição de nada...
Bem da vida,
só mesmo a vida...
Obrigação?
Desobrigado.
Dias de chuva
O brilho dum céu
azul celeste
traz a prece
da redenção.
Uma garoa fina
lava a grama
e faz do verde
a lama que
quer pedir
perdão.
Cada gota
de chuva
cai como
confissão
e pesa
culpa sobre
a minha
cabeça.
Rezo,
portanto,
pela expiação
das minhas
falhas e que
minhas faltas
não sejam
a prova exposta
daquilo que
nem sei.
Viva a humanidade!
Acordar de manhã
e ouvir uma canção,
que diz tanto,
súplica muito,
mas tudo em vão.
Os rejeitados
e os desajustados
vivem e sentem,
apesar de muitos pensarem
que quanto a isso
só mentem
e continuam falsamente
pois não entendem
que no mundo,
por mais que tudo
pareça tão igual,
também tem aquilo
que é diferente da maioria
e mesmo assim
continua natural.
Ah,
melodia tão sincera,
entrega aos meus ouvidos
sua letra
como oração.
O cotidiano
desinteressadamente
passa,
mas a maior trapaça
está a cada rosto
e a cada gosto hipócrita
que se desvenda
em plena ebulição.
Debaixo de toda venda
há somente uma caveira,
que sem eira nem beira
cai em qualquer canto e,
de nada adianta o pranto
na hora que o mundo apaga.
Me pergunto,
por fim,
se a vida continua
assim tão complicada
e o esfarrapado
está tão sujo quanto o roto,
por que somente eu mudo
se tudo continua a falar nada
por mim?
As peças de muitos
esquecidas aos poucos
formaram a vida
que hoje sou eu.
O jogo de alguns
é o lamento de tantos.
A morte pra uns
é a vida dos outros.
Infinitamente
os mesmos passos
se repetem
no futuro.
O menino de hoje
mal sabe, mas
sua história
é só um esboço
do que algum outro
já foi.
Envelhecem as estações e as pessoas,
mas as lembranças conservam
as mesmas faces do que se foi.
Uma criança, um adolescente,
uma amizade inconsequente,
uma outra vida que já não é minha,
um outro tempo, com outros dias,
com outros rostos
e que já passou...
Numa noite escura
a fogueira é testemunha
do lamento da viola.
E o fogo crepita
e a viola chora
o quão quente é a paixão.
Mas o dia chega
e a lembrança
da noite anterior
não passou de ilusão
que a pinga
a voar a mente
sempre deixa...