A janela aberta permite a vista
do resquício do que fora uma manhã.
O tempo descansa e sossega
o dia que o sol entrega
à uma outra noite sem cor.
A vida já não é tão viva...
Os sonhos mais parecem prantos...
Tanta gente e tanta reza...
Tantas vozes e tantas preces...
Quando o que falta é só um pouco
de mais humor...
De quando as tardes eram domingos
O fim de tarde traz os versos de mais um adeus,
até que chegue a hora do último.
Mas,
isto não é o início do fim,
Mas,
o fim de um novo começo,
pois para que ter a tola ideia
de que um dia tudo acaba,
se esse pensamento é tão ruim?
Os caminhos cruzaram
nossas histórias e,
cada vida,
um livro que se escreve
com as lembranças
e a memória,
se encheu de mais palavras
e o horizonte se alargou.
Experiências.
As conversas demoradas,
acompanhadas d'um
bom café quente.
Frases mal elaboradas
que o riso descontraído
o trabalho alegrou.
E viva a vida.
E viva o dia.
Pois ainda que
chegue a hora
do adeus
nunca é tarde
para um novo começo.
E no embalo
destes versos
enfim,
por mim,
eu me despeço.
Uma porção de palavras,
mal lavradas
e sem métrica
formam uma festa
de significados no papel,
pois rimar céu com mel
é muito fácil,
mas fazer um desabafo
dispensa até mesmo
a lua sem véu!!!
Ninguém é totalmente imune
à própria loucura
e quem o diz se engana,
posto que a pseudo sanidade
é vaidade profana que corrompe,
mas a demência revela
o prazer de viver até
os últimos instantes de cada idade.
A vida é mórbida
para quem não tem
o antídoto para a dor
que é viver.
Sofrer?
Não é bem isso...
Está mais para lamento
existencial...
Afinal, estamos
aqui, no mundo,
para quê?
O despertar dos cantos das aves
anuncia o nascer do sol,
que irradia luzes e vozes,
que acorda todas as frases ocultas
em oração.
Tudo esse sol ilumina e,
por mais que seja tardia
sua presença,
a ausência não permitiria
admirar a beleza dos seus traços
e seu canto de rouxinol.
A paz surge em dias como esses.
Mas, a mente acostumada ao dissabor
a beleza do amor logo esquece...
Guerra e paz
As vozes da guerra sufocam
as súplicas de amor
dum coração tão machucado
em plena mocidade.
De nada adiantam as preces
pois os canhões rugem nervosos
nos campos e nas batalhas.
A ponte que levava a uma nova esperança
se incendeia com a morte
da compaixão e, as feridas,
tão expostas,
esvaem as emoções
nas poças de sangue.
Ideais são capazes
de movimentar exércitos
inteiros,
sedentos pela perspectiva
da vitória.
Numa guerra ninguém é gente,
nem sente pena dos outros.
Só peço, meu Deus,
uma gota de chuva que seja,
que lave as trincheiras,
esvazie os campos
e nos traga paz.
Nem tudo que parece sombrio
é escuro
e conserva escuso a maldade,
pois mesmo nas noites mais negras
e nas tempestades mais agudas,
as sombras projetadas
nas calçadas,
numa voz sem som,
dizem que
em algum momento
é possível ver a luz.
Uma gargalhada zombeteira
ecoa no silêncio da escuridão
dos pensamentos.
Tormente incessante
na distração
dos próprios preconceitos.
Dos preceitos da cordialidade
e da mutualidade do respeito,
alguns colheram a galhardia
e a arrogância trapaceira.
Mas que não se enganem.
Ninguém pode ser maior
que a pequenez
do seu próprio egoísmo...
Liberdade... Se fosse só utopia não traria tanta inspiração e opinião, para todo mundo e de todo mundo, todo dia.
Seu brilho incessante, denuncia sua existência.
Mas, a corrente da arrogância e o fino véu da hipocrisia não deixa a humanidade descobrir o doce aroma que reveste sua sombra, essa sua essência, que lamentavelmente, já chega tardia...
Tempo,
peço um pouco de calma,
pois mesmo que você acabe
a vida está aí a me chamar.
E ainda que tudo feneça
jamais se esqueça
que mesmo a areia
da praia
precisa da água do mar.
Um pouco de liberdade até que cairia bem
Um pouco de liberdade
pra pensar,
a mente quer sair por ai
e colonizar os textos
das paisagens
que os olhos
banalizam.
Um pouco de liberdade
pra rezar,
Deus do céu
sei que peço muito,
mas conceda- me esse pedido
e mais.
Um pouco de liberdade
para ser feliz,
já que a rotina
angustiante
"enforma"
todos
na fila
da gorjeta laboral.
Pois os grilhões
das convenções
que a sociedade
nos diz,
não tem a chave
que liberta
para uma nova
utopia social...
A cada verso
envelheço um pouco
e mais.
A sabedoria da adolescência
não tem a mesma essência
que a idade
e os cabelos brancos,
o conhecimento
e o encanto
que a velhice
e sua experiência
sempre traz...
Tudo que é bom
acaba fenecendo
um dia.
A felicidade,
a alegria da mocidade.
O encanto adolescente
com a vida...
As rugas,
surgidas com
o passar das décadas,
bem sabem...
O tempo é tão efêmero
que nem dos meus risos
de pequeno me lembro.
E tudo passa.
E nada fica.
Só a certeza constante
de que um dia
tudo que é bom
acaba.
Miséria social,
não são os
pés descalços
que carregam...
Valores corruptos
e corruptíveis...
Degradação moral.
Cada geração
comporta
a própria
elegância
que a essência
da vida
não previa...
E cada pessoa
traz em si
a semente
que germina
e culmina
nos frutos
do mal...
Crianças vendem bala no farol.
O garoto engomadinho
passa dentro do seu carro
e nem enxerga o sinal.
Seu pai na direção,
está atrasado
para mais uma reunião
da presidência.
Sua empresa,
fatura milhões.
Mas uns poucos trocados
para aquelas crianças carentes,
ele não pode dar.
E pensar
que esses poucos trocados
seria o próximo jantar
de uma família...
Teatro e liberdade
Sob um céu azul
a vida segue...
As pessoas caminham sem pressa
pelas ruas...
As crianças brincam distraídas
nas praças.
O espetáculo começa
e as cortinas
se abrem.
E tudo é alegria,
e tudo é calmaria,
até que se revela
a verdadeira trapaça
e a hipocrisia
que se esconde nos sorrisos,
nos abraços,
Enfim, no passar
constante
dos nossos dias.
No sertão urbano
mais uma criança chora
de fome,
que já perdura
por uma semana.
A sociedade
segue indiferente.
Silêncio das
horas mais
agudas da noite.
A desigualdade
faz vítimas inocentes.
A periferia
alimenta
rostos sem formas,
gentes sem nome.
Mas outras crianças,
gulosas e
inconscientes
se empanturram
descontraidamente.
A alegria
burguesa
contrasta
com a tristeza
dos olhos cinzentos
e das bocas sem vozes
da vizinhança.
O choro desperta
o condomínio.
Nasceu mais um João
que ninguém esperava.
Mais um no meio
dessa multidão,
que calada,
ordinariamente
vive.
Mais um
sem esperança.