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Frases de Célia Moura

84 frases

A tua ideologia política, religiosa ou seja ela qual for só será coerente, e aí sim terá algum valor, se tiver como base o respeito pela não ideologia do teu semelhante.
A Pastelaria Defronte À Casa Vazia De Mim Na pastelaria defronte à casa vazia de mim onde habito
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A Pastelaria Defronte À Casa Vazia De Mim Na pastelaria defronte à casa vazia de mim onde habito distraio-me nas gargalhadas imbecis das gentes rotineiras que absorvem meias de leite e galões fazendo uma espécie de orquestra com o autocarro parado adiante falando da vida alheia com a boca tão cheia que chegam a cuspir “gafanhotos”espaciais apanhando os mais incautos. São raras as vezes que passo por lá, mas gosto de observar o saltitar dos pardais em busca de migalhas. Na pastelaria defronte à casa onde ainda habito o álcool ameniza as mágoas, a marijuana devolve-lhes os sonhos mais banais e as crianças vagueiam soltas sem jantar brincando e comendo gomas e chocolates. Se ao menos fossem como os pardais da manhã a saltitar entre as mesas, se ao menos fossem como alguns cães que certas senhoras levam a passear aos quais compram bolos de arroz ou com eles dividem a tosta mista! Quão estéril é a pastelaria defronte a esta casa vazia de mim!

A Sophia de Mello Breyner Aquela madrugada que irrompeu em nós *“dia inicial e primeiro”,
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A Sophia de Mello Breyner Aquela madrugada que irrompeu em nós *“dia inicial e primeiro”, esses ventos anunciando germinação aquela madrugada em que das cinzas renascemos Sophia, repousa-me na garganta em estilhaços. Aquele hino que ao colo do meu Pai há décadas ansiado sorrindo cantarolei. Aqueles belos cravos vermelhos a transbordar sangue fervilhante de mim hoje são farpas rasgando-me as entranhas toda a quimera que inventei. Aquela madrugada algures já perdida é como um denso nevoeiro onde ouço o grito da fome do meu Irmão a sussurrar clemência pelo chão. Passa por ele tanto capitalista mas nenhum lhe estende a mão. Cegueira instalada e brutal desdém! Pobreza mais miserável que a própria fome é a condenação à mesma! Tal qual uma manta de retalhos velha e dolorida. Fomos vendidos hipotecaram nossas vestes cobrindo-nos de maldição e vergonha. Vertem lágrimas os craveiros vermelhos que gritaram no peito daquela madrugada repousa tu aí sabedoria eleita, teu leito de Liberdade. Eu permaneço pela enseada nas asas de uma gaivota cantarolando como se ainda estivesse ao colo do meu Pai. (*Sophia de Mello Breyner) © Célia Moura (2015)

Chamo-te hoje, Porque pensar-te É a lâmina mais feroz.
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Chamo-te hoje, Porque pensar-te É a lâmina mais feroz. Êxtase de te revelar segredos, E te acolher no ventre, ó vagabundo, Entre o pranto e o anoitecer, Estremecendo vagas de solidão em aguaceiros de poesia. Ó desconhecido de todos os desalentos, Escancarando vida no umbral da porta, Imaginei-te somente! E, guardiã da tristeza intrínseca, Baptizei-te alento, Prenúncio de temporal. Grito-te ainda, Porque o silêncio a bailar entre risonhos girassóis, É o tempo mais sublime, Ânsia de ansiar Nossos corpos esculpidos Num sopro de infinito. © Célia Moura – Do livro “Enquanto Sangram As Rosas…” (2011)

Predestinação Adivinho-te As lágrimas
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Predestinação Adivinho-te As lágrimas E as quimeras derramadas Dos olhos hirtos da noite, E num abraço não contido Envolvo-te… Há diademas de Coragem Esculpidos no sopro da aurora, Estonteantes enigmas embutidos Nas paredes da casa branca. Predestinadas oscilações dos dias! A casa branca Chamou por nós. Etérea, Na derradeira aspiração, Em esgares de agonia, Ruiu Aos pés do desalento. Tristes tulipas, Apoteóticas ninfas, Dançam ainda Tchaikovsky No jardim. Célia Moura - “Vestida De Silêncio”

A TUA DOR, IRMÃO Doem-me todas as palavras No teu corpo de solidão
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A TUA DOR, IRMÃO Doem-me todas as palavras No teu corpo de solidão Enquanto a madressilva me sorri. A Liberdade de um grito Cravado em mim Que desconheço. Doem-me inclusive as sílabas Dos teus lábios de silêncio Em redor da enseada. Doem-me castiçais de prata Transbordando corvos feridos, E sementes que jamais germinarão. Dói-me este pão de cada dia Irmão, A tua fome que encerro em mim, O teu frio que me rasga por inteira. Dói-me este sangue de traição, Esta ânsia de jasmim, Este beiral de pardais, Pedaço de ti. Dói-me a luz da cidade desperta. Mata-me o desassossego do fado Que me liberta e santifica Num altar de cravos e madrugada… …e finalmente já exausta de mais um hino à tua, nossa Dor Meu irmão, Todas as palavras me doem, Seja qual for o Caminho! © Célia Moura – Do livro “Enquanto Sangram As Rosas…