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Frases de Carlos Drummond de Andrade

498 frases

Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos.
Se você está com olhos bem abertos, experimente fechá-los... Agora, abra-os somente para o lado de dentro. Chegou a hora de visitar por uns instantes seu mundo interior. Passeie calmamente aí por dentro de você, detendo-se longamente às boas imagens que você tem guardadas.
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Se você está com olhos bem abertos, experimente fechá-los... Agora, abra-os somente para o lado de dentro. Chegou a hora de visitar por uns instantes seu mundo interior. Passeie calmamente aí por dentro de você, detendo-se longamente às boas imagens que você tem guardadas. Não há qualquer problema em visitar o seu arquivo, ou o seu velho baú, desde que seja para buscar inspiração no passado, alimentar e dar força ao presente. Atenha-se ao que de mais precioso você viveu. Alguém especial vem se formando e se moldando pelo tempo e pela história desse tempo. Você é feliz pelo sonho de criança que você vem cultivando dia após dia, ano após ano. Se quiser abrir os olhos, abra-os bem e procure revelar a criança que ainda brilha em você, agradeça. A vida continua. Hoje vai ser mais um dia na construção da sua história. Está no ar a criança que você sempre preservará dentro de si. Coração aberto, sorriso pronto, abraço fácil, beijo sincero. Na rua, no trabalho, em casa, todo mundo vai notar que está diante de alguém muito especial.

A folha A natureza são duas. Uma,
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A folha A natureza são duas. Uma, tal qual se sabe a si mesma. Outra, a que vemos. Mas vemos? Ou  a ilusão das coisas? Quem sou eu para sentir o leque de uma palmeira? Quem sou, para ser senhor de uma fechada, sagrada arca de vidas autônomas? A pretensão de ser homem e não coisa ou caracol esfacela-me em frente  folha que cai, depois de viver intensa, caladamente, e por ordem do Prefeito vai sumir na varredura mas continua em outra folha alheia a meu privilégio de ser mais forte que as folhas.

Evocação À sombra da usina, teu jardim Era mínimo, sem flores.
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Evocação À sombra da usina, teu jardim Era mínimo, sem flores. Plantas nasciam, renasciam para não serem olhadas. Meros projetos de existência, desligavam-se de sol e água, mesmo daquela secreção que em teus olhos se represava. Ninguém te viu quando, curvada, removias o caracol da via estreita das formigas, nem sequer se ouviu teu chamado. Pois chamaste (já era tarde) e a voz da usina amorteceu tua fuga para o sem-país e o sem tempo. Mas te recordo e te alcanço viva, menina, a planejar tão cedo o jardim onde estás, eu sei, clausurada, sem que ninguém, ninguém te adivinhe.

A Mesa (excerto) E não gostavas de festa... Ó velho, que festa grande
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A Mesa (excerto) E não gostavas de festa... Ó velho, que festa grande Hoje te faria a gente. E teus filhos que não bebem E o que gosta de beber, Em torno da mesa larga, Largavam as tristes dietas, Esqueciam seus fricotes, E tudo era farra honesta Acabando em confidencia. Ai, velho, ouviria coisas De arrepiar teus noventa. ....... Pois sim. Teu olho cansado, Mas afeito a ler no campo Uma lonjura de léguas Entrava-nos alma adentro E com pesar nos fitava E com ira amaldiçoava E com doçura perdoava (Perdoar é rito dos pais, Quando não seja de amantes) "......." Mais adiante vês aquele Que de ti herdou a dura Vontade, o duro estoicismo. Mas, não quis te repetir. Achou não valer a pena Reproduzir sobre a terra O que a terra engolirá. Amou. E ama. E amará. Só não quer seu amor seja uma prisão de dois, Um contrato, entre bocejos E quatro pés de chinelo. ..... Mas estamos todos vivos. E mais que vivos, alegres. Ninguém dirá que ficou faltando Algum dos teus. Por exemplo: Ali ao canto da mesa, Ali me vês tu. Que tal? Fica tranquilo: trabalho. Afinal, a boa vida Ficou apenas: a vida ( e nem era assim tão boa E nem se fez muito má). Pois ele sou eu. Repara: Tenho todos os defeitos Que não farejei em ti, E nem os tenho que tinhas, Quanto mais as qualidades. Não importa: sou teu filho Com ser uma negativa Maneira de te afirmar. ..... Tão ralo prazer te dei, Nenhum, talvez... Ou senão, esperança de prazer, É, pode ser que te desse A neutra satisfação De alguém sentir que seu filho, De tão inútil, seria Sequer um sujeito ruim. Não sou um sujeito ruim. Descansa, se o suspeitavas, Mas não sou lá essas coisas. Alguns afetos recortam O meu coração chateado. Se me chateio? Demais. Esse é meu mal. Não herdei De ti essa balda. .......

Não morres satisfeito. A vida te viveu Sem que vivesses nela.
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Não morres satisfeito. A vida te viveu Sem que vivesses nela. E não te convenceu Nem deu qualquer motivo Para haver o ser vivo. A vida te venceu Em luta desigual. Era todo o passado Presente presidente Na polpa do futuro Acuando-te no beco. Se morres derrotado, Não morres conformado. Nem morres informado Dos termos da sentença Da tua morte, lida Antes de redigida. Deram-te um defensor Cego surdo estrangeiro Que ora metia medo Ora extorquia amor. Nem sabes se és culpado De não ter culpa. Sabes Que morre todo o tempo No ensaiar errado Que vai a cada instante Desensinado a morte Quanto mais a soletras, Sem que, nascido, mores Onde, vivendo, morres.

A Máquina do Mundo E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa,
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A Máquina do Mundo E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto, e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los, se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em coorte, a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas, assim me disse, embora voz alguma ou sopro ou eco ou simples percussão atestasse que alguém, sobre a montanha, a outro alguém, noturno e miserável, em colóquio se estava dirigindo: "O que procuraste em ti ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou, mesmo afetando dar-se ou se rendendo, e a cada instante mais se retraindo, olha, repara, ausculta: essa riqueza sobrante a toda pérola, essa ciência sublime e formidável, mas hermética, essa total explicação da vida, esse nexo primeiro e singular, que nem concebes mais, pois tão esquivo se revelou ante a pesquisa ardente em que te consumiste... vê, contempla, abre teu peito para agasalhá-lo.” As mais soberbas pontes e edifícios, o que nas oficinas se elabora, o que pensado foi e logo atinge distância superior ao pensamento, os recursos da terra dominados, e as paixões e os impulsos e os tormentos e tudo que define o ser terrestre ou se prolonga até nos animais e chega às plantas para se embeber no sono rancoroso dos minérios, dá volta ao mundo e torna a se engolfar, na estranha ordem geométrica de tudo, e o absurdo original e seus enigmas, suas verdades altas mais que todos monumentos erguidos à verdade: e a memória dos deuses, e o solene sentimento de morte, que floresce no caule da existência mais gloriosa, tudo se apresentou nesse relance e me chamou para seu reino augusto, afinal submetido à vista humana. Mas, como eu relutasse em responder a tal apelo assim maravilhoso, pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio, a esperança mais mínima — esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol inda se filtra; como defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem a de novo tingir a neutra face que vou pelos caminhos demonstrando, e como se outro ser, não mais aquele habitante de mim há tantos anos, passasse a comandar minha vontade que, já de si volúvel, se cerrava semelhante a essas flores reticentes em si mesmas abertas e fechadas; como se um dom tardio já não fora apetecível, antes despiciendo, baixei os olhos, incurioso, lasso, desdenhando colher a coisa oferta que se abria gratuita a meu engenho. A treva mais estrita já pousara sobre a estrada de Minas, pedregosa, e a máquina do mundo, repelida, se foi miudamente recompondo, enquanto eu, avaliando o que perdera, seguia vagaroso, de mãos pensas. (Texto foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, pág. 300. Fonte: Projeto Releituras)

"Muitas coisas se dizem, que não deviam ser ditas; muitas outras se calam, que não mereciam calar-se. As palavras são as mesmas, em um e outro caso; só a conveniência delas, na circunstância, é que varia. E na variação, fica o dito por não dito.
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"Muitas coisas se dizem, que não deviam ser ditas; muitas outras se calam, que não mereciam calar-se. As palavras são as mesmas, em um e outro caso; só a conveniência delas, na circunstância, é que varia. E na variação, fica o dito por não dito. A menos que o convicto (ou o teimoso) diga: “Digo e repito”. (Carlos Drummond de Andrade, no livro “Os dias lindos”. São Paulo: Companhia das Letras, 2013)