Frase de Carlos Drummond de Andrade
A Mesa (excerto) E não gostavas de festa... Ó velho, que festa grande Hoje te faria a gente. E teus filhos que não bebem E o que gosta de beber, Em torno da mesa larga, Largavam as tristes dietas, Esqueciam seus fricotes, E tudo era farra honesta Acabando em confidencia. Ai, velho, ouviria coisas De arrepiar teus noventa. ....... Pois sim. Teu olho cansado, Mas afeito a ler no campo Uma lonjura de léguas Entrava-nos alma adentro E com pesar nos fitava E com ira amaldiçoava E com doçura perdoava (Perdoar é rito dos pais, Quando não seja de amantes) "......." Mais adiante vês aquele Que de ti herdou a dura Vontade, o duro estoicismo. Mas, não quis te repetir. Achou não valer a pena Reproduzir sobre a terra O que a terra engolirá. Amou. E ama. E amará. Só não quer seu amor seja uma prisão de dois, Um contrato, entre bocejos E quatro pés de chinelo. ..... Mas estamos todos vivos. E mais que vivos, alegres. Ninguém dirá que ficou faltando Algum dos teus. Por exemplo: Ali ao canto da mesa, Ali me vês tu. Que tal? Fica tranquilo: trabalho. Afinal, a boa vida Ficou apenas: a vida ( e nem era assim tão boa E nem se fez muito má). Pois ele sou eu. Repara: Tenho todos os defeitos Que não farejei em ti, E nem os tenho que tinhas, Quanto mais as qualidades. Não importa: sou teu filho Com ser uma negativa Maneira de te afirmar. ..... Tão ralo prazer te dei, Nenhum, talvez... Ou senão, esperança de prazer, É, pode ser que te desse A neutra satisfação De alguém sentir que seu filho, De tão inútil, seria Sequer um sujeito ruim. Não sou um sujeito ruim. Descansa, se o suspeitavas, Mas não sou lá essas coisas. Alguns afetos recortam O meu coração chateado. Se me chateio? Demais. Esse é meu mal. Não herdei De ti essa balda. .......
No pensador.ai desde